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O cachorro e a solidão

                        O CACHORRO E A SOLIDÃO

       Residir em uma pequena cidade é deveras agradável, principalmente para uma pessoa com idade avançada, cuja turbulência e extrema movimentação dos grandes centros urbanos, causam um certo desconforto. Foi exatamente por isso que, aquela simpática senhora, comprou sua modesta casa na rua Alvorada n° 15.
       Cidade de interior, Nova Esperança, guardava em suas arquiteturas, hábitos e costumes, toda a sua tradição, além de todo o requinte inerente às pequenas comunidades.
       Então, Dona Belmira, passou a conviver com os habitantes de Nova Esperança e, não bastasse toda a sua simpatia, era ainda, de muito bom coração e extremamente zelosa. Em poucos meses, tornou-se referência da rua Alvorada.
       Todas as tardes e até o início da noite, várias senhoras da vizinhança, se chegavam a casa 15 e em frente ao pequeno portão de madeira, passavam mais de hora papeando com ela. Ali, eram trocadas idéias; atualizados conhecimentos; informadas as novidades e contados todos os fatos e acontecimentos. Satisfeitas as curiosidades e as necessidades de cada uma, retiravam-se para suas casas, para o merecido repouso, após mais um dia de labuta.
      Após despedir-se de todas as amigas e, antes de preparar-se para dormir, Dona Belmira recolhia os restos de suas refeições, juntava-as num prato de alumínio e voltava ao portão, em frente ao qual, já a esperava impaciente, um cachorro vira-latas, abandonado na rua. Esses acontecimentos eram cotidianos e já faziam parte da vida de Dona Belmira.
       O que mais ela lembrava e mencionava em seus bate-papos com suas amigas, era dos seus filhos, Joel e Aline, aos quais não media e nem poupava elogios. Não cansava de repetir que o Joel era um advogado muito bem sucedido e respeitado no Rio de Janeiro, responsável por causas das mais complicadas e das quais sempre saía vencedor. Da Aline não deixava por menos, era a Professora mais citada da Cidade de São Paulo, onde fora residir, após seu casamento com um rico empresário.
      Seu orgulho era evidente, seus olhos brilhavam e pareciam estar vivenciando cenas, jamais vistas em Nova Esperança.
      Todas escutavam atentamente à Dona Belmira e dali saíam, por vezes, até invejosas.
       Assim os anos foram passando, não lembro quantos, talvez cinco ou seis, quem sabe pouco mais, sete, sem grandes novidades. Era uma vida pacata como a cidade e aquele cachorro vira-latas, que durante todo o tempo e todas as noites, invariavelmente, vinha buscar sua refeição com Dona Belmira, depois que suas vizinhas se recolhiam para suas casas. Não havia novidades.
       Certo dia, ao cair da noite, quando a vizinhança veio ter ao pequeno portão de madeira da casa 15, não encontraram Dona Belmira. Como ali já estavam reunidas, começaram o seu tradicional, bate-papos e, paulatinamente, aproveitando da ausência de Dona Belmira, fizeram dela o centro de suas atenções. Curiosamente, tal qual a anfitriã, quando falava de seus filhos, não mediram e nem pouparam elogios àquela senhora tão simpática, da qual se tornaram eternas admiradoras. Durante a conversa, várias foram as suposições sobre sua ausência como: Quem sabe resolveu visitar seus filhos? ; E se ela adoeceu e foi para o Hospital?- Essa hipótese foi logo descartada com um simples telefonema de uma de suas amigas, para o Hospital. - ; Quem sabe foi fazer uma viagem para rever os grandes centros onde morou, afinal de contas, já que seus filhos não têm tempo para fazer-lhe uma visita, talvez a saudade tenha sido mais rápida e veio visitar-lhe primeiro? ; Eu acho que Dona Belmira está um pouco cansada da gente e, por isso, resolveu tirar uns dias de férias! – Bem! Não faltaram conjecturas e suposições.
      Depois de pouco mais de uma hora, como normalmente faziam, despediram-se e retiraram-se para suas casas.
     Não fosse uma noite de lua nova e o cachorro vira-latas teria passado despercebido de Dona Clotilde, moradora da casa 12, em frente da casa 15, que generosamente foi buscar pedaços de pão para o “Solidão”, como carinhosamente Dona Belmira o chamava, dizendo-lhe: hoje você terá que satisfazer-se com isso.
     No dia seguinte, lá estava “Solidão”, deitado na calçada, em frente ao portão da casa 15.
     Logo, as vizinhas se encontraram e resolveram comunicar o fato a polícia, afinal ninguém tinha sido comunicado de nada e Dona Belmira jamais houvera fornecido o telefone ou mesmo
o endereço de seus filhos. Pouco depois, chegava ao local, um policial e depois de escutar a todas, de comum acordo, resolveu arrombar a porta da casa em busca de algum meio de contato para localiza-la ou a um de seus filhos.
       Habilmente, com um pedaço de arame, o policial, conseguiu abrir a porta. Entrou na casa e em minutos retornou com a notícia: “Dona Belmira está morta em seu leito!”
       Algumas vizinhas entraram na casa e procuraram nas bolsas e correspondências, alguma informação que as levasse ao Joel ou a Aline. Enfim, conseguiram essa informação em um pequeno caderno, guardado na prateleira de uma velha cristaleira.
      Contataram seus filhos, participando-os do ocorrido e informando que o enterro ocorreria na manhã do dia seguinte.
       Passados oito dias, chegaram à Nova Esperança, Joel e Aline, pessoas bonitas e de fino trato. Foram até a casa 15 da rua Alvorada e ali fixaram uma placa: “Vende-se esta casa”. Em seguida retiraram-se do local e nunca mais foram vistos na cidade.
       Coincidentemente, no dia em que os filhos de Dona Belmira estiveram na cidade, “Solidão” foi encontrado morto em frente ao pequeno portão de madeira da casa 15. Também por coincidência, nesse mesmo dia, Dona Clotilde encontrou na soleira da porta da casa, um pequeno pedaço de papel, dobrado por duas vezes. Abaixou-se, pegou-o e abriu. Ali estava escrito: “Solidão, você foi meu companheiro por muitos anos, mesmo antes de conhece-lo. Hoje não tive forças para fazer nossa comida, desculpe! Mas, certamente você irá me entender. Aliás, sempre me entendeu. Vou partir para sempre e se não quiseres ficar procurando outro cachorro vira-latas, como você, venha comigo. Sua amiga e companheira de todas as horas, Belmira”.
       Se os cachorros não sabem ler, porque ela deixou aquele bilhete?
       Estaria mandando um recado para suas companheiras?
       E “Solidão”? Teria morrido de fome, velhice ou doença?
       Ninguém poderá afirmar! Ainda mais que, na manhã seguinte, Dona Clotilde encontrou junto ao muro, ao lado do pequeno portão de madeira da casa 15, todos os pedaços de pão que havia deixado para “Solidão”, na primeira noite de ausência da Dona Belmira.
           
     
Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 24/10/2005
Código do texto: T62905

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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