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O SEGREDO

Eu também já fui jovem como vocês. Diziam que não havia outra cuja beleza se igualasse à minha. Os rapazes todos disputavam a minha mão, mas o meu pai, sempre dominador, queria escolher muito bem o meu pretendente, não desejava que a sua filha única se casasse com qualquer joão-ninguém. Nos bailes que participava, sentia-me meio constrangida com aqueles olhares gulosos que os rapazes me lançavam. Dançava com poucos, contudo, já que a minha tia protetora, que o meu pai me obrigava a levar quando saía à noite, somente permitia que eu dançasse com aqueles que ela julgasse sérios e respeitados. Não era nada gratificante a sina de ser a mais bela entre todas. Às vezes, tinha vontade de ter nascido feia, ou apenas engraçadinha, só para não ter que carregar nas costas o pesado fardo da minha beleza (mas o que poderia fazer, se os meus traços fisionômicos e as curvas de meu corpo foram tão bem produzidas pelos meus caprichosos progenitores?).

Vocês todas são muito formosas. Talvez até mais do que fui. É que hoje a beleza se espalha por todos os cantos, e a quantidade de mulheres lindas é tanta, que os homens já não ficam mais impressionados, como antigamente. Hoje, um rostinho bonito ou um corpinho provocante passam despercebidos no meio da multidão. Quem pára numa rua para apreciar uma mulher bonita, com tantas mulheres deslumbrantes que passam a toda hora, uma mais linda do que a outra? No meu tempo era diferente. Os homens garimpavam nas festas, nos bailes, nos saraus, à procura de uma donzela que lhe deliciasse os olhos com os traços bem esculpidos, o sorriso burilado, o olhar engastado, o corpo espetacularmente moldado. E a procura era coroada de êxito quando a moçoila dirigia-lhe o olhar cúmplice, misto de ingenuidade e de pecado.

Aos dezoito anos, apaixonei-me pelo homem mais fascinante que já conheci em toda a minha vida, um rapagão perfeito em todos os detalhes, daqueles que nada ficava a dever ao mais escultural dos deuses gregos. Apesar de termos nos encontrado pouquíssimas vezes, pude perceber que ele também demonstrava grande atração por mim, o que me fez sentir uma mulher privilegiada. Um dia, porém, o meu pai soube do nosso flerte e proibiu terminantemente de me encontrar com ele, pois era pobre. Nunca mais o vi; ele deixou a cidade e saiu pelo mundo afora, talvez para superar a dor da paixão proibida. Até hoje, foi o único homem que realmente amei, e jamais, em momento algum, consegui tirá-lo da minha cabeça.

Meu pai forçou-me a casar com o filho de um grande amigo seu, sócio nos negócios. Sim, admito: esse rapaz não era feio, ao contrário, era do tipo que qualquer mulher desejaria ter como marido, ainda por cima, era muito rico, o que mais poderia querer? Apesar de ter sido casada com o seu avô, meninas, durante todos esses anos, nunca lhe tive amor. Era um homem bom, sempre me deu carinho, jamais me desrespeitou ou fez algo que me ofendesse. Confesso que passei momentos agradáveis ao seu lado – aliás, foram os melhores momentos da minha vida. Seu avô era um homem espirituoso, e ninguém conseguia ficar triste ao seu lado, sempre tinha algo interessante ou engraçado para contar. Ao lado dele, construí a minha família, criei todos os filhos, vi nascer vocês, que hoje estão na flor da idade, com todo o viço, o frescor peculiar da mocidade.

Não me interpretem mal. Não quero que pensem que não gostasse do companheiro ao lado do qual vivi sessenta anos. É claro que, com o tempo, passei a dedicar-lhe afeto; aos poucos fui me esforçando para sentir algo por ele, afinal o medo de desagradar o meu pai me impedia de largar tudo e ir atrás do homem que realmente amava. Por este, sim, meninas, se me fosse possível retornar no tempo, eu seria capaz de fazer a maior das loucuras e assim ser feliz ao seu lado. Mas o tempo passa, e não tem retorno. Tudo o que fazemos, de bom ou de mal, fica para sempre perdido na poeira do esquecimento – a vida segue sempre retilínea, e não conhece retrocesso. Vocês, hoje, são independentes, escolhem quem acham melhor, não são pressionadas por pais opressores que pretendem impor a sua vontade egoísta, sacrificando toda uma vida que vê-se privada para sempre da felicidade. Por isso, queridas, escolham bem os seus amores, e só se entreguem àquele que tiverem a mais absoluta certeza de ser o seu amado, para que não tenham nunca esse grande vazio que carrego em meu peito há mais de meio século.

Saibam que, aqui nesta cama, onde, aos poucos, vou definhando, fico a me recordar de tudo o que vivi – e olhem que oitenta anos é muito tempo para se viver! Minhas reminiscências se emaranham umas às outras, os fatos se confundem, os detalhes se entrechocam. Felizes são vocês, cuja vida está se iniciando, e não precisam, como eu, preocupar-se com lembranças, pois lembranças foram feitas para aqueles que nada mais têm a fazer e ficam a recordar-se dos momentos agradáveis vividos no passado. Triste final de vida é o meu. Parece que a minha existência passou como num relâmpago. Ainda ontem era uma moça linda e solteira, alvo da cobiça de todos os rapazes. Hoje, olhem para mim e digam o que sou, senão um monte de ossos, cobertos por uma pele áspera e ressecada, uma melancólica página amassada que um dia já foi lida por olhos ávidos. Quem dá valor a esta velha decrépita, que aqui está a lamentar a vida que nunca teve, que fica a se lamuriar de um amor proibido, que jamais conseguiu esquecer? Acredito que nem vocês, meninas, dão importância a esta velha. Sei que me visitam todos os domingos mais por uma obrigação familiar do que por qualquer outra coisa. Se pudessem se livrar dessa obrigação, creio que só me veriam dentro do ataúde, quando tiver partido deste vale de lágrimas. Mas não as culpo por serem assim – o mundo é dos jovens, bem sei. Velhos, como eu, servem apenas para atrapalhar, e para causar compaixão.

Eu não quero, em absoluto, ser alvo de compaixão! Sintam qualquer outra coisa por mim – ódio, nojo, indiferença, aversão. Compaixão, jamais! É o mais torpe dos sentimentos! Tanto para quem sente quanto, e principalmente, para quem é o objeto. Não, crianças, não me fitem esses olhares marejados. Não vertam lágrimas desnecessárias; não preciso delas para viver os meus últimos momentos. Durante quase um século, poucas lágrimas rolaram pelo meu rosto, e estas foram em homenagem ao meu único amor, junto do qual passei poucos, mas inesquecíveis momentos. Não pensem que foram falsas as lágrimas que derramei pelo seu avô, quando o baixaram à campa; não, foram verdadeiras, foram lágrimas vertidas pela perda do dedicado companheiro que esteve comigo durante essas seis últimas décadas. Confesso, no entanto, que chorei mais pela perda insensata do outro homem, aquele que o meu pai déspota desprezou só por ser pobre. Ah, essa, sim, foi uma perda insubstituível, que implodiu o meu ser para sempre, e me fez tornar esta mulher desgostosa e amarga!

Como invejo vocês – jovens, bonitas, frescas, com toda a vida pela frente! Tantos momentos maravilhosos terão ainda, tanto amor, tanta felicidade! Felizes são vocês pela liberdade que têm, que não são castradas por preconceitos ou imposições paternas, como fui. Pena que não possam me ouvir, escutar o meu lamento, se entristecer com este depoimento inesperado, mas sincero, que acabei de prestar. Ah, maldito câncer, que me consumiu as cordas vocais e flagelou todo o meu corpo, como um atroz castigo! Não queria que me vissem neste estado degradante, não vocês, que me viram sempre forte e vigorosa, apesar de sempre triste. Queria que a última lembrança minha fosse diferente, mais alegre, digna de ser lembrada (mas que posso fazer, se assim tem que ser?).

Sinto que as minhas forças se esvaem, como os últimos grãos de areia que caem da ampulheta. Minha respiração está quase imperceptível, o coração bate como se fosse obrigado. Meus olhos começam a se fechar, e vejo vocês de maneira bem embaciada. Parece que lágrimas escorrem dos seus olhos. Mas não chorem, meninas, oh não! Sorriam, sim, vivam! Aproveitem cada minuto dessa juventude explosiva, que me causa tanta inveja! Vão, deixem-me apodrecer aos poucos, nesta cama, enquanto sinto que já se vão expirando os meus últimos e desditosos momentos!
Roberto Fortes
Enviado por Roberto Fortes em 30/08/2007
Código do texto: T631329

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Sobre o autor
Roberto Fortes
Iguape - São Paulo - Brasil
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