Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Conversas de Zelador

– Cara, aqui nesse prédio eu comi todas, e não tô tirando onda de garanhão, não, eu catei todas!
Tiago, chegando do trabalho, ao ouvir aquela conversa do zelador com o porteiro do prédio vizinho, não teve dúvidas, encafifado, se escondeu e passou a ouvir a conversa.
– É muito fácil, as patroa chama a gente pra trocar uma lâmpada, pra arrumar o chuveiro, pra trocar o botijão de gás, aí nós chega lá e a mulher só de calcinha, enrolada numa toalha... A filha do viúvo do 504...
– O quê?! Aquela ninfetinha de dezesseis?!
– Essa mesma, essa é a que mais me chama. É só o pai dela dar uma saída que o interfone aqui em baixo toca, e já nem precisa mais de desculpa...
– Qualé!? Tá tirando uma com a minha cara. Pra cima de mim? Vai me dizer que até a coroona do 201, aquela que só não esconde mais o corpo por causa do calor, vc também...?
– Catei. Vou até contar como é que foi. Ela chegou um dia com aquele uno dela verdinho na garagem, abarrotado de sacola e veio me pedir ajuda. Putz, quando eu olhei aquele monte de sacola, fiquei até meio com preguiça, mas a mulher disse que me recompensaria bem. Tá, até aí nada demais, uma cervejinha, ou cafezinho, não ia nada mal, topei. Peguei as sacolas e comecei a levar pro apartamento dela. Fiz três viagens, aquelas sacolas tavam pesada pra caramba. Nem sei o que tinha dentro... Bom, quando deixei a última sacola no apartamento, ela me perguntou se eu queria água. Pô, água, nem me fala, era o que tava mais precisando aquela hora. Ela foi na cozinha, pegou um copo com água e me entregou. Daí, me pediu pra esperar que ela já voltava com a recompensa por te ajudado. Fiquei esperando o que eu achava que era uma graninha, mas, qual? Ela não me aparece só de calcinha e sutiã, e ainda vermelha... Cara, a coroa é maior enxutaça, corpão. Não precisou nem dizer nada, o copo d’água já era, fui direto ao pote e com muita sede!
– Eu ainda acho que você tá é contando vantagem...
– Isso é porque você não ouviu a história da mulher do 303...
– Que é que tem a mulher do 303? É aquela com uma filha de 21, né? O marido parece que trabalha numa multinacional, ou coisa assim... E aí?
– Essa foi a melhor! O marido tinha saído e deixado só as duas no apartamento. Daí, a madame me chamou dizendo que precisava de uma ajuda pra algo que tava incomodando ela. Subi, meio assim, sem entender direito. Será que ela tava com problema com o encanamento, sei lá, será que tinha entupido alguma coisa e ela queria que eu desentupisse? Bom, era mais ou menos isso... Cheguei, a mulher me puxou pro quarto da filha, que tava debaixo das coberta, toda encolhida. Fiquei até meio constrangido, sem saber o que fazer, e aí a mulher foi falando: “Agenor, preciso que um homem resolva isso de uma vez. Meu marido não pode, nem deve saber que eu pedi isso pra você, se não ele mata nós três... Posso contar com o seu sigilo?”. Na hora concordei. Sei lá o que a mulher queria, mas morrer eu não quero. Daí: “Eu preciso que você tire o cabaço da minha filha!”. Cara, eu gaguejei, fiquei vermelho, sem saber onde enfiar a cara. Tá, beleza, tô com 25, em plena forma, mais daí uma mãe vim pedir pra tirar o cabaço da filha... Primeiro ri, sem acreditar, só que a madame foi tirando as coberta de cima da menina, ela nuazinha em pêlo, gostosa pra caralho, eu parei de rir na mesma hora. Daí falei pra ela: “Ó, madame, tua filha, com o maior dos respeito, é boa, mas eu não posso fazer isso com a garota, não, pô, tenho os meus princípio, ela tem que fazer isso com quem ela gosta...”, nessa hora me atrevi, “depois, se quiser eu topo, na boa...”. Ela não se fez de rogada: “Sabe o que acontece Agenor, o namorado dela, aquele, riquíssimo, comentou que não gosta de mulher virgem, que é muita responsabilidade, que não sei mais o quê, e que tava até tranqüilo de saber que ela não era mais”, tem homem que é doido, “e esse final de semana eles vão viajar junto... Pensei em pagar um garoto de programa, mas sabe como é, muito caro, daí...”, nessa hora a garota que tava quieta resolveu falar, “daí eu lembrei de você, maior boa pinta, uma perna de fazer inveja e a Júlia do 504 fala muito bem de você... Vem, vem...”. Fui. Com a mãe no quarto e tudo. E não é que a mulher ficou assistindo, e ainda batendo a maior siririca na minha frente. Fiquei danado, logo depois da filha, catei a mãe.
– Filho da mãe! Puta que o pariu. Vai ter sorte assim lá na conchichina! Tá, mas vai me dizer que não tem uma, uminha que não deu.
– Tá, confesso, tem. A mulher do 301. A esposa do seu Tiago. Aquela lá por mais que eu queira, não rola. A mulher é maior avião, mas toda vez que eu me aproximo ela fala do “maridão” dela. Aquela é mais fiel que cachorro. Teve uma vez que eu dei uma insinuada e a mulher já veio gritando comigo, quase me deu um tapa e ainda ameaçou contar pro seu Tiago. Com aquela lá eu não mexo, não. Não sou doido...
Tiago, escondido atrás das pilastras, disfarçadamente se dirige pra escada, feliz da vida, com o ego mais do que inflado em saber que a sua Leonor não dava mole e que o respeitava. Enquanto subia, lembrou que no fim de semana passado, quando foram ao shopping assistir ao último filme do Almodóvar, ela adorou um vestido azul que tinha em uma das vitrines. Deu meia volta. Sua mulher só chegaria do trabalho um pouco mais tarde. Dava tempo de dar uma esticadinha até o shopping.
Não levou meia hora e Tiago chegou pela porta da frente, passando pelo seu Agenor e dizendo um sorridente boa noite, com o pacote debaixo do braço. Ia entrando no elevador, quando o Ricardo do 303 gritou pra que segurasse a porta. Tiago segurou e olhou pro vizinho, com uma vontade imensa de rir. Chegaram no terceiro andar, se despediram, e quando Tiago entrou no apartamento não se agüentou, caiu na gargalhada.
Arrumou o vestido de modo que sua mulher visse quando entrasse. Acendeu algumas velas em cima da mesa e abriu o pacote de comida chinesa que tinha comprado no meio do caminho. Deixou a mesa prontinha e foi tomar um banho.
Quando Leonor chegou, ela ficou maravilhada com a lembrança do marido. Aquilo sim era um sinal de amor. Ele, então, realmente prestava atenção nas coisas que ela falava... E aquele clima, aquele homem cheiroso esperando em casa. Era tudo maravilhoso. O vinho, foram terminar no quarto, em cima da cama...
Tiago, mal o dia amanheceu, se levantou, beijou sua mulher que dormia o sono dos anjos, arrumou o despertador pra que ela não perdesse a hora do trabalho dela, foi pro banheiro, tomou uma ducha e se vestiu. Foi pra firma sorridente. Antes, contudo, passou pelo Agenor e disse um bom dia bem sonoro.
– Esse aí dormiu bem... Também, pudera...
Meia hora depois, Leonor desce.
– Agenor, vem aqui um pouquinho. Acho que te devo algo...
Agenor se aproximou da moça, todo solícito.
– Toma, os quinze que eu te prometi por ter me ajudado a ganhar o vestido que eu queria.
– Ih, Dona Leonor, nem carece... Adorei contar vantagem pro Galego...
David Scortecci
Enviado por David Scortecci em 25/10/2005
Código do texto: T63298
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
David Scortecci
Irati - Paraná - Brasil, 39 anos
21 textos (1713 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 18:09)
David Scortecci