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Tradição


                           Quando a alma quer é difícil não ceder aos caprichos da sedução: o olho flerta, a mão se estende e o coração diz alegremente: vai, toma, recebe, ama, beija! Um dia desses minha alma quis.
                           Chovia torrencialmente; era uma daquelas chuvas loucas e paroxísticas de quando as águas famosas do mês de março estão entregando o verão à outra estação que chega. Eu estava tentando livrar-me dela e por isso acomodei-me sob a marquise de uma loja de brinquedos importados. Convidaram-me alguns de seus funcionários para adentrá-la, mas não aceitei. Continuei ali sendo acompanhado com o meu gesto por várias outras pessoas que transitavam perto, antes da chuvarada toda.
                        Livre de molhar-me, encostado na parede da loja, pus-me a olhar para  o outro lado da rua larga, por sobre as outras cabeças à minha frente; procurava os limites daquele horizonte molhado por aquela chuva que não tinha pressa de acabar. Foi quando o filme passou e meus sentimentos em ebulição começaram a sair dos fossos da memória e eu deixei que minhas lágrimas se misturassem com alguns pingos daquela chuva que me alcançava impiedosamente, como se me quisesse molhado como ela.
Ateimava eu que ainda a viria sorridente e feliz no finzinho da tarde quando eu retornasse à chácara. E tudo passou, inclusive a chuva e eu pude apressar-me para resolver os meus compromissos que, após um  atraso de quase uma hora dado pela chuva,   teriam que ser resolvidos.
                   Quando cheguei em casa, quem primeiro me cumprimentou foi uma Ataúba frondosa e bela, cheia de suas estrelinhas brancas. Demorei-me alguns minutos sob sua sombra, sentado em um velho tronco de jaqueira. Olhei para os alpendres da casa e ao seu redor, como se buscasse o sentido para as últimas ausências que relutavam, ultimamente, em apossarem-se de mim. Em casa não estava quase ninguém. Lembrei-me da casa cheia de antes, das festas com tantas  autoridades presentes e meus avós paternos à frente da casa...
                        Maria velha estava na cozinha ajeitando uns pedaços de pano. Levantou a cabeça apenas para encontrar o meu olhar e deu-se ao cuidado de continuar prendendo seus molambos. Antes, tinha me perguntado se queria alguma coisa, apanhado minha pasta e a chave do automóvel.
- A menina Laura tá lá no quarto!
                     A menina Laura tinha 58 anos de idade, quatro filhos e era ninguém menos que a minha esposa. Maria ainda a tratava como se fosse uma meninota mimada.
                    Apesar de receoso, fui até o quarto de casal. Muito difícil abocanhar o trinco redondo da porta, após dar os três toques de aviso, bem ao meu modo. Fiz muitas vezes isso ao chegar em casa.
                   Uma pequena discussão, às vezes, pode tomar proporções gigantescas. A emoção parece ser cúmplice do olhar e apenas dele, como se este exigisse do outro uma pronta ação bioquímica quando através deste o coração falasse alguma coisa. Ontem, pela manhã, à hora do café matinal, pronunciei a velha frase que ela não gostava de ouvir e que eu adorava  dizer. Havia acordado primeiro do que ela e logo após feito a barba. Sem a esperar, fui à mesa e nela sentei para o desjejum. Quando ela sentou-se, eu já havia terminado o meu.
- E por que não me esperou?
- Pressa!
- Sempre apressado..., que horror!
- Maior horror foi ter-te conhecido um dia!
- Monstro!
                        E nesse clima a deixei para trás e fui à empresa cuidar dos negócios da família, arranjar dinheiro para lhe cobrir os altos gastos pessoais, hoje bem menores de que os dos tempos idos. Sei bem, porque ouvi, que ela ficou soluçando. Magoei-a por lembrar-lhe as tantas mágoas antigas que carreguei resignado ao longo dessas quase  quatro décadas de convívio a dois. Fomos felizes nos primeiros dez anos de casados, inseguros na segunda década, omissos com nossa felicidade na terceira, até nos tornarmos dois mortos-vivos dentro de uma velha mansão que parecia possuir olhos e bocas enormes sobre nós.
                       Acordávamos  angustiados, íamos às refeições piores ainda, mas íamos às missas dominicais de mãos dadas, rezávamos juntinhos, comungávamos e em todas as festas importantes da cidade estávamos nós, não porque fôssemos queridos nos eventos mas porque a tradição era bem maior que os convites e, em Urutuba, um palanque festivo que não abrigasse membros da família Tertuliano era lugar que não se prezava diante dos olhos exigentes de seus costumes.
                     Quando me aproximei da cama, ela havia queimado os dois olhos com a lâmina de fogo das velinhas que acendíamos todos os dias, continuando uma velha promessa de minha sogra e que não podia acabar nunca.
                  A partir  daqueles dias, recomeçamos o casamento feliz dos primeiros anos. Minha pena transformou-o em uma nova casa, com novos sentimentos. Eu me sentia culpado, mas meu silêncio era bem maior que minha vontade e assim vivia.
                 Amei-a por mais nove anos até que as chamas que a haviam  cegado, clareavam o corpo com o líquido envenenado na madrugada de 18 de setembro, dia da padroeira da cidade. Nesse dia, eu não pude deixar de estar no terço na igreja à noite. Chorávamos as velas acesas e eu, para servirmos a uma comunidade que parecia possuir um coração feito apenas de tradição e sem sangue! O féretro foi um espécime tradicional. Suei para encontrar três carpideiras. Paguei caro por seus serviços. O resto deste conto deixarei para transformá-lo em um romance daqui a alguns anos, se a vida me permitir. Há amores que são bem mais loucos do que a própria loucura!
Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 02/09/2007
Reeditado em 07/12/2013
Código do texto: T634953
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulino Vergetti Neto
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 59 anos
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Paulino Vergetti Neto

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