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O “Vessálho” Novo de Paulinho

Marcela está a mil. Primeiro foi a compra de supermercado... e o Paulinho junto. Leite condensado, açúcar, chocolate granulado, coco ralado, confeito, doce de leite, leite, ovos, farinha, refrigerante, bala, bexiga, pratos, copos e talheres descartáveis, e uma lista quase interminável de compras. Paulinho está a mil. É pra ele o primeiro aniversário. No alto dos seus quatro anos, ele só está presenciando o seu aniversário agora.
No terceiro aniversário, Paulinho até percebeu que a festa era pra ele, mas noção muito do que realmente era, ele não tinha. Marcela me pediu pra encomendar o bolo e os salgadinhos, que os docinhos ficavam por conta dela. Comprei um bolo em forma de palhacinho. Paulinho adorou, mas estava mais interessado no imenso caminhão de plástico que eu tinha dado a ele que na confusão da festa. Aliás, eu tirei uma foto linda dele naquele dia... Está no meu escritório, em cima da minha mesa.
Paulinho passa correndo, abre minhas pernas, passa por baixo e me pergunta: “Paiê, quem vem pu meu vessálho?”. “Todo mundo, meu filho, todo mundo...”. Dali a pouco corre atrás de minha esposa pra perguntar: “Mãeee, e todo mundo vem quando?”. Eu encho as bexigas, algumas brancas por inteiro, outras com rostos desenhados e tem até coloridas esse ano.
O segundo aniversário foi duro. Meu pai havia falecido há pouco. O clima não era nem um pouco festivo. Minha mãe nem sequer veio. Ligou e mais nada. No dia seguinte, eu, o Gustavo e o Hugo fomos até lá e passamos o dia inteiro juntos, só nós quatro. Paulinho nem percebeu o que estava acontecendo. Falava já alguma coisa e ficou a noite brincando com os primos.
Minha mãe está linda. Nem parece que já fez sessenta e cinco. Preferiu esse ano usar calça. Uma linda calça branca. Meu pai ainda faz falta, mas minha mãe parece estar se recuperando bem. Gustavo é que engordou. Eu dei esse paletó ano passado e dá pra perceber que a Ivone andou dando umas ajustadinhas nele. Tiago me surpreende a cada dia. Segundo Gustavo, ele venceu três campeonatos de futebol no colégio só esse ano. Se continuar assim, logo ele entra pro time mirim de algum time importante aí. Quem sabe? “Paulinho, cuidado! Não corre tanto, meu filho!”.
O primeiro aniversário de Paulinho foi uma festa praticamente de adultos. Marcela fez alguns docinhos por causa dos meus sobrinhos. Eu, comprei cerveja, coca-cola e champagne. Marcela  achou melhor fazer um jantar. Paulinho dormiu praticamente a festa inteira.
Tenho pena do Hugo. Olha o estado dele. Completamente dependente da esposa. Não ergue os braços pra nada. Pelo menos o Ricardinho e a Vanessa não puxaram o pai. A mulher dele serve, veste, escolhe o que ele quer, faz tudo pra ele. Parece um vegetal. Se pelo menos ele tivesse, Deus me livre e guarde, sofrido um acidente, pelo menos teria uma razão lógica e necessária pra esse cuidado todo.
Agora aos 19 anos, Angelina só pensa no namorado e na faculdade. O namorado é simpático e parece rico. A camisa pólo branca dele tem uma marca de grife, que assim, de longe, não dá pra ver muito direito, mas sei que é cara. Meu sogro é um chiquê só. Ele se veste com uma elegância que, confesso, dá até um pouco de inveja. Dona Lourdes foi pra cozinha ajudar a Marcela com os últimos preparativos do bolo.
Parece que foi ontem que ele nasceu. Eu e Marcela sabíamos que ele viria logo, mas mesmo assim, só mês que vem. Que nada! Deu as graças de nascer naquela noite mesmo. E comemoramos todos no hospital, eu, meus dois irmãos e suas esposas com meus três sobrinhos, sem esquecer da minha cunhada de 15 anos animadíssima por ser tia em tão pouca idade. Ameaçou até mimá-lo. Meus pais e meus sogros já não se agüentavam de tanta alegria. Minha mãe dizia que ele era uma benção vinda naquela noite especial.
Paulinho não tinha cara de joelho, nem o nariz do vovô, como meu pai afirmou, ou as orelhinhas da tia Firmina, como minha mãe insistia, ou os olhos da mamãe, como Dona Lourdes, minha sogra, queria provar. Paulinho tinha cara de... Paulinho, o meu filho! Me lembro com o mesmo sentir, ainda hoje, minha reza na capela do hospital agradecendo a dádiva. Paulinho havia nascido, e lindo, lindo e com saúde!
 “Parabéns pra você! Nesta data...” Paulinho soprou as quatro velas animadíssimo. Correu por entre mesas, cadeiras e pernas das pessoas, estourou algumas bexigas brancas e brincou um monte com os primos. Num momento veio me perguntar: “Paiê, quando é meu vessálho novo?” “Ano que vem, meu filho. Agora, só no ano que vem...” E voltou a brincar, parecendo estar pouco preocupado com isso. Minha mãe foi a última a sair. Acompanhei até o táxi. Perguntei se ela não queria mesmo que eu a levasse e ela insistia que não precisava, que o que eu tinha que fazer aquela noite, era curtir o momento junto com a família que eu havia construído tão bem pra mim.
Ajudei Marcela a pelo menos deixar a casa um pouco mais arrumada. Algum dos meninos havia espalhado todos os guardanapos brancos de tecido pelo chão do corredor. Amanhã, cuidaríamos de tudo. Afinal, já é de madrugada.

Acordei com o Paulinho no pé da cama perguntando: “Paiê, já é ano que vem, pu meu vessálho novo?”
“Já. Já é sim, meu filho...”
David Scortecci
Enviado por David Scortecci em 25/10/2005
Código do texto: T63499
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Sobre o autor
David Scortecci
Irati - Paraná - Brasil, 39 anos
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David Scortecci