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ELE NÃO MANDA EM MIM


Quem sou eu? Era esta a pergunta que eu fazia quando me acordava todos os dias pela manhã. Quem sou eu?
Eu já nem sabia mais. Incrível como uma mulher pode se anular em função de um homem. Logo eu, sempre tão moderna, independente, cabeça feita. Eu achei que era tudo isto. Em poucos meses, me transformei em quase nada.
Tudo por causa de um homem, claro. Nós, mulheres, quando nos apaixonamos, ficamos meio burras e bobas. Colocamos os nossos amados no centro de tudo e esquecemos de nós mesmas. Pelo menos foi o que aconteceu comigo. Conheci o Renato em janeiro, na praia. Nos apaixonamos enlouquecidamente e em agosto, casamos. Tudo muito rápido, eu sei. Mas quando eu decido alguma coisa, não gosto de esperar. E se eu estava me dando tão bem com o Renato, para que adiar o casamento?
Eu nunca desconfiei. O Renato sempre foi um cara amoroso, gentil, dedicado. Era tão perfeito que lá em casa ninguém desconfiou absolutamente de nada. Nem minha mãe, que colocava defeito em cada cara que eu me relacionava, tinha nada para falar dele. Pelo contrário, caiu de amores pelo genro e eu achei isto um ótimo sinal. Sinal de que eu havia encontrado minha alma gêmea.
No início, nem me dei conta das transformações que estavam ocorrendo em mim. Aos poucos, ele conseguiu me afastar das minhas amigas. Mal falava com elas até mesmo por telefone. Depois de dois meses, com a desculpa que não era seguro ficar só a empregada cuidando da casa, ele fez minha cabeça para que eu largasse meu emprego “por enquanto”. Achei interessante porque parecia que as coisas estavam mesmos largadas, sem atenção. E eu queria ser uma mulher de verdade, em tempo integral para o Renato. Afinal, ele merecia. Se matava trabalhando para me dar todo o conforto.
Mas aos poucos, fui me dando conta de que eu me anulava em função dele. Como eu não trabalhava mais, tinha que pedir dinheiro para meu marido até para comprar um xampu. O Renato nunca negou nada, mas eu tinha que fazer prestação de contas de onde eu estava gastando o dinheiro dele. Era uma situação chata. Eu não conseguia me acostumar com aquilo. Depois, como ele assumia toda as contas da casa, Renato começou a mandar em mim também. Um dia quis almoçar com minhas amigas no shopping. Fazia horas que eu não as via e queria desabafar também. Será que elas viviam algo parecido? Ou só meu casamento que vivia uma situação daquelas? Ele ficou bravo quando eu pedi dinheiro para o almoço. Jogou na minha cara que todas elas eram fúteis e iriam colocar minhocas na minha cabeça. O Renato não me deu o dinheiro. Fui escondida porque uma delas ficou com pena e pagou o almoço para mim. Só que eu nem comi. Passei duas horas soluçando e sendo consolada por elas. Até me aconselharam que eu me separasse. E eu já nem sabia mais o que sentia pelo Renato.
Foi a partir daí que eu comecei a me perguntar quem era eu. Eu nem sabia mais. Já tinha perdido minha personalidade, meu amor próprio, minha auto estima. Me sentia uma burra sem atrativos, porque nem dinheiro para fazer as unhas o Renato me dava mais. A impressão que eu tinha era que quanto mais sem graça eu parecesse, melhor.
Então teve um dia que eu não agüentei mais. Nosso casamento já tinha completado um ano e eu me sentia velha e acabada. Esperei que ele fosse dormir e roubei dinheiro da sua carteira. Eu sabia que não estava no meu estado normal, mas aquilo não me importava. Coloquei algumas poucas peças de roupa em uma mochila. Abri a porta e fugi.
Quem nunca quis fugir de casa? Eu fugi. O dinheiro durou exatos sete dias e aí eu tive que voltar. Fui direto para minha mãe e minha família já tinha posto até a polícia em meu encalço. Primeiro o Renato ficou furioso quando me viu. Quando soube que eu não voltaria mais para a nossa casa, implorou que eu ficasse com ele. Não quis. Fui ameaçada. Não adiantou. Eu precisava me ter de volta novamente. Descobri que amava mais a mim mesma que qualquer outra pessoa no mundo. Me dei a mim mesma de presente. E hoje sei que eu faria tudo outra vez, somente por mim.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 02/09/2007
Código do texto: T635105
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
612 textos (42529 leituras)
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Patrícia da Fonseca