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De Olhos Abertos

      - Como é possível ele ter sobrevivido?
      - Você chama isso de sobreviver? Deitado com um monte de tubo na cabeça?
      - E o que você queria?
      - Marta, por favor...
      - Não. Me diz! Queria o corpo dele junto com o dos amigos?
      - Você não...
      - Genial a sua idéia de dar um carro novo pra ele! Ge-ni-al!
      - Você tá insinuando o que??? Que eu matei nosso filho???
      - Ele não está morto, Ivan!
      - Marta, ele está há 10 dias nessa cama, sem qualquer reação.
      - Ele não está morto...

      190 quilômetros por hora. Que idéia a minha. Vestido de branco e com o corpo rodeado por tubos e apitos ritmados, ainda lembro dos comerciais que desprezava. “Se beber, não dirija”. Meus amigos tinham o hábito de brindar com whisky vagabundo cada vez que a vinheta surgia na tela. Eu simplesmente não dava bola. Nunca bebi. Mas agora, ouvindo a discussão dos meus pais, fiquei com sede. Cadê o infeliz do enfermeiro pra jorrar mais vitaminas coloridas no meu tubo? Aposto que está rindo da minha cara, comentando com todo a ala que mijei nas calças. Ainda pego esse filho da mãe. Mas não hoje. Ainda preciso aprender a piscar.

      - Alguma novidade?
      - Nenhuma, Dr. Nogueira.
      - Nenhuma reação?
      - Nada. Praticamente um defunto que urina.
      - Oséias!
      - Desculpe, doutor, mas é que...
      - Vá até a enfermaria procurar o que fazer!
      - ... Tanto doente e a gente cuidando de vegetal.
      - Agora!

      Mas que grande filho-da-puta. Além de alisar escondido as minhas coxas de madrugada, agora decidiu definir prioridades. Como se eu gostasse de ser bolinado por um enfermeiro psicopata sem poder fazer nada. Não posso nem contar com a turma pra me vingar quando sair daqui. Só me lembro do Gus tentando cantar um refrão de rap em inglês, enquanto o Chuck e o Alê balançavam as garrafas de vodka. “Você não tem coragem? Acelera!”. Nunca tive coragem, mas acelerei.

      - Sr. Ivan e Sra. Marta, precisamos conversar sobre o filho de vocês.
      - O que aconteceu, Dr. Nogueira? Alguma novidade?
      - É justamente sobre isso que precisamos falar, Sra. Marta.
      - Mas eu não entendo, o que...
      - Ele vai ficar pra sempre assim.
      - Mas o que o senhor está insinuando?
      - A melhor alternativa é desligar os aparelhos e acabar com o sofrimento.
      - Acabar com o sofrimento???
      - Dele e de vocês.
      - Escute aqui! Eu não vou matar o meu filho!
      - Calma, Marta! O Dr. Nogueira pode ter razão.
      - Razão, Ivan??? Você quer matar o nosso filho?
      - Marta, nem piscar ele consegue.

      Quer dizer então que o que define se meu corpo sairá caminhando ou perpetuará sob a terra é a minha útil habilidade para piscar? Eu tenho me esforçado, pai. Mas parece que nunca é suficiente, não é? Por mais que me concentre para movimentar as pálpebras e enchê-los de esperança, só consigo estimular a bexiga. E agora vem a punição, é isso? Você tá fazendo a mesma cara de quando procurou meu nome na lista de aprovados do vestibular. Você, que queria tanto um filho médico, agora adota o Dr. Nogueira e seus pensamentos contemporâneos. Faz o seguinte, pai, chame a funerária e prepare tudo. Ah!  Chame o enfermeiro também. Estou morrendo de sede.

      - Bom dia, Sr. Ivan. A Sra. Marta não veio?
      - Bom dia, Dr. Nogueira. Ela vai chegar um pouco mais tarde hoje.
      - Vocês já se decidiram?
      - Sim. Não queremos nosso filho agonizando.
      - Entendo, Sr. Ivan. Posso trazer o documento pro senhor assinar?
      - Pode.

      Covarde! Não agüentou ver o filho atleta imóvel na cama. Eu era obrigado a nadar naquela piscina gelada pra depois você passar minhas medalhas na cara dos amigos. Agora perdeu a graça, não é? Se filho café-com-leite não convence, imagina em coma, então. Foda-se você, o Dr. Nogueira e aquele enfermeiro afeminado. A minha mãe eu sei que é diferente. Pena que se atrasou no dia da minha execução.

      - Prontinho, Dr. Nogueira.
      - Eu sei como esse momento é difícil e...
      - Sei, sei. Faça o que tem que ser feito.
      - O senhor não quer se despedir do seu filho?
      - Já me despedi no dia em que dei aquele carro.
      - Entendo.

      Pera aí! Era um teste? Parabéns, o senhor ganhou, pai. Eu sou um fraco, não sei dizer não e faço sempre o que os outros pedem. Se for pra correr eu corro, se for pra parar eu paro. Obrigado por me ensinar a dirigir quando eu tinha 12 anos.

      - Enfermeiro Oséias. Pode desligar.
      - Com prazer. Quero dizer, chega de sofrimento, né?
      - Apenas faça, Oséias.

      Quero gritar e não consigo. Percebo o sorriso irônico do enfermeiro e sua invejável disposição em obedecer. Meu pai encara o relógio. O Dr. Nogueira disfarça a fraqueza e faz as últimas anotações no prontuário. Aposto que está com a caneta fincada no campo “hora mortis”. O enfermeiro acena com a cabeça e os aparelho silenciam, assim como o fluxo dos tubos. Sinto a boca áspera, mas ainda consigo ver minha mãe arrebentando a porta da UTI desesperada. Meu pai havia saído de casa sem avisar. Sob os gritos de “assassinos, assassinos!”, espumados em seu rosto, confundo os vultos. Faço um último esforço e, antes que feche os olhos, consigo finalmente liberar duas gotas em protesto.

      Uma de choro e outra de mijo.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 04/09/2007
Reeditado em 04/09/2007
Código do texto: T638578

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 38 anos
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