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Sinal Vermelho

Faço meu trajeto de volta ao lar, depois de um dia de trabalho, sempre seguindo o mesmo caminho, de ônibus, linha R21- Gloria/Belém Velho.
Raras são às vezes que vem alguém conhecido ao meu lado e a prosa rola.
E, nas viagens solitárias, quando o ônibus pára no ponto para embarque de mais passageiros, na esquina da Aureliano de Figueiredo Pinto com a Ipiranga, no sinal vermelho, observo, um piazito, franzino, pés descalços e sujos, a cara igualmente suja, a vender balas de goma.
Minha observação vai além da criança,  noto como cada motorista reage à investida do menino;  alguns,  mal balançam a cabeça negativamente, acho  que nem olham para o garoto.
Outro dia uma rápida observação, sinal vermelho, menino se aproxima, um senhor de olhar carinhoso lhe passa a mão na nuca, e lhe compra todas as balas, deu-me tempo de ver o sorriso do menino, e o agradecimento.
E sigo meu caminho, no mesmo banco do ônibus, com meus pensamentos voltados para  aquele menino.
Assim se repete por dias, noto  com certa melancolia, que quando chove o menino não aparece. Acostumei-me com sua figura.  Penso, crianças são anjos, não devem viver assim. Que destino para nossas crianças!
Meu instinto maternal...
Meus pensamentos, normalmente são curiosos em saber mais dele, tão frágil, indefeso... Que pensa? Que sonho traz em seu pequeno coração?
Como se chama? Onde mora? Por que vende balas de goma? ...
Enfim...
Mas ontem, 31/01/07, sem premeditação, nossos caminhos se cruzam, na mesma esquina.
Precisei ir ao Hospital da PUC, na Av. Ipiranga, bem longe dali, fora do meu trajeto costumeiro,  e pra pegar meu ônibus que me leva até em casa, precisei de outro para chegar até ali.

A Aureliano de Figueiredo Pinto ela é dividida em,   duas vias para carros, ida e vinda, e no centro os corredores por onde só circula transporte coletivo (ônibus),  Bairro/Centro e Centro/Bairro.

Como tava falando, desci no ponto da Ipiranga, caminhei alguns metros até a esquina da Aureliano, atravessei a primeira via, o primeiro corredor e o segundo, me postando no ponto em que embarcaria na R21,  e em dado momento ouço uma vozinha conhecida:

-Bala de goma, bala de goma... um real leva três.

O sinal ta vermelho, e fico a olhar aquele menino. Dessa feita ele ta mais limpinho, com um boné vermelho na cabeça,  dá ares de menino maluquinho. Ele é bonitinho, penso.

O sinal abre, ele volta pro canteiro, e me nota a olha-lo.

Sorrio pra ele, e me aproximo.

Penso; hoje vou saber um pouco da história desse menino.

Mal me aproximo ele:

- Compra bala de goma tia? Já é a última... leva tudo por três!
- Compro sim, mas posso falar contigo?
- Que queres saber tia?
- Sabe que eu passo todos os dias por aqui e te observo do ônibus?
- Não tia, e porque?
- Nada de mais, apenas querer saber o que leva um menino a estar num sinal a vender balas? Pois o certo é que toda criança tem que ir a escola e brincar, jogar bola, essas coisas.
- Agora to de férias, mas pela manhã eu to na escola, à tarde venho aqui vender balas.  A vida é dura... meu pai é  butequeiro, minha mãe trabaia fazendo limpeza, mas falta dinheiro.
- E qual é teu nome?
Sinal vermelho, e lá vai o menino...
Retorna... as balas continuam...
    -   Digo a ele:
    -   não precisas ir, eu já te comprei as balas.
- É tia, esqueci que te ofereci... meio sorrindo. Meu nome é Nandinho...
- Nandinho de Fernando?
- Sim
- Que idade tens?
- 10, faço 11 mês que vem, dia 12
- Quanto tu ganha vendendo bala aqui no sinal?
-       A tia! Se eu vendo tudo, na média dá 50 conto, fico com dez, o resto do pro pai, e ganho sempre uns troco, tem sempre um tio ou uma tia que não fica cás bala, mas dão uma moeda, e eu guardo, tudo num cofre feito de lata de leite, quando fica cheia, minha mãe vai abrir uma popança no banco...num lembro o nome... eu quero ser doto tia.
Pergunto-lhe... Doto, Nandinho?
- Desses tia que cuida de doente, pra não ver mais minha mãe passar na fila quando a gente lá em casa cai doente. Tenho que estuda muito eu sei... por isso me dedico aqui e procuro não gastar as moedinha que ganho... só às vezes compro uma flo pa minha mãe...pa alegrar seu dia. Coitada, queria que ela tivesse vida meió... tenho mais 6 irmão e ta mais um na barriga da mãe.
         Meu pai fala que embuxou mais  uma vez... ás vezes eles brigam,
         Minha mãe briga com ele pois ele vende fiado... mas faze o que,
         né tia, somo tudo probe. Lá vem teu ônibus tia.
- É  lá vem meu onibus, que pena Nandinho, tava gostosa a conversa, toma cá o dinheiro das balas... Xau!Te cuida menino.
- Xau! tia vá com Deus, pegas as balas, tia...tia...
- Fica com Ele também
Embarco, e  lá vou eu, pedindo a Deus por  esse e tantos outros  meninos, que andam pelas ruas.
E ele continua lá, no sinal vermelho a vender balas de goma...



SilScher
Enviado por SilScher em 06/09/2007
Código do texto: T641065
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
SilScher
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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