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FAXINA  NA ALMA


     Tinha chegado do trabalho mais morta do que viva na noite anterior. O dia tinha sido um inferno completo, com direito a labaredas e tridentes nas costas e o diabo travestido em chefe pedindo milhares de coisas ao mesmo tempo. Entrara em casa correndo como de costume e mal olhara a situação da cozinha. O filho pequeno doente e o mais velho, em estado crônico de aborrecência aguda colaborando dedicadamente para tornar o inferno uma pintura ainda mais realista do que já pintam. 
     Cuidou de todo mundo e deitou-se pedindo a Deus-Todo-Poderoso-e-Misericordioso que o mundo acabasse em cama para que ela morresse dormindo, quando sentiu as mãos que dormiam sempre a seu lado tocarem seu corpo. Só teve tempo de pensar “Hoje não, pelo amor de tudo que é sagrado...estou um caco”. Mas mãos não têm ouvidos, principalmente quando têm outros interesses. Fez um último esforço, já que também não queria uma briga àquela hora da noite e muito menos acordar com uma cara de funeral pela manhã. 
     Há muito já não era um prazer sentir aquele toque. Havia momentos em que o simples som da voz dele causava-lhe arrepios. E não eram de prazer, mas de desespero. Conversar, então, era um verbo não conjugado. Brigar e discutir faziam parte da agenda diária. Mesmo assim, depois de desaforos e pedras atiradas, sem pedido de desculpas, a mão agia no silêncio da noite. E ela não conseguia forças sequer para dizer um “hoje não, estou com dor de cabeça” ou outra desculpa clássica. Já tinha problemas demais e força de menos. 
     Levantou-se meio zonza ainda por mais uma noite praticamente insone, olhos inchados e vontade de ter o poder de apertar o tal botão que, diziam, iria detonar uma bomba nuclear e desencadear o Juízo Final. Olhou para a pia e contou: 34 copos. Trinta e quatro. Nem mais, nem menos. Só quatro pessoas numa casa, contando com ela, que usava apenas um único copo para tomar água. Trinta e quatro. “Porra, vão à merda...Ninguém tem mão aqui?” . A cozinha era uma bagunça quase tão grande quanto sua cabeça e seus sentimentos, com a diferença que provavelmente era mais limpa do que sua alma se sentia naquele momento. Uma indignação silenciosa tomou conta dela.  Pegou a esponja pra começar a lavar. Subitamente, o demoninho de plantão soprou-lhe algo ao ouvido. Era urgente uma faxina. Agora. Rapidamente, antes que todos acordassem, enfiou trinta deles dentro de um saco de lixo e desceu até a lixeira do prédio. Pegou o primeiro pedaço de pau que viu e transformou tudo em farinha de vidro. Lamentou apenas não ter coragem suficiente para colocar a farinha como tempero das almôndegas na hora do almoço e servir aos seus “patrões”. Um riso de satisfação pelo trabalho rápido e eficiente foi inevitável, assim como a sensação de enorme alívio que o acompanhou. 
     Voltou para o apartamento, deu comida ao pequeno, deixou-o na escola. Quando chegou ao trabalho, um recado do marido. Já esperava por isso. Não ligou de volta. Ele ligou novamente e quando ela atendeu, ouviu a voz enfurecida do outro lado: 
     - O que deu em você? Não tinha nada para o café, não achei um copo pra tomar água e a cozinha está uma catástrofe. Dá pra explicar? 
     Ia começar a se justificar como de costume: “estava muito cansada, não tive tempo, acordei atrasada...,etc,etc”. Novamente, o demoninho no ouvido e a vontade de mandar tudo à prostituta que os parisse. Parou um pouco, pensou bem antes de responder e aumentar a ira do homem. 
     - Explicar até dá, mas não tenho tempo agora. Se quer casa, comida e roupa lavada, pode chamar sua mãe ou contratar uma empregada. Mas, se quer tudo isso e ainda ceia noturna na cama, um hotel 5 estrelas com uma gorjeta pro cara da portaria resolve tudo rapidinho com direito a uma gata gostosa a mais ou menos uns mil reais a hora, coisa que não recebo nem de longe... Sem mencionar que ela ainda pode conseguir gozar, o que já não é o meu caso, por absoluta inabilidade da outra parte. Quer mais alguma explicação ou posso trabalhar? 
     Silêncio do outro lado. Não era hábito dela dizer aquelas coisas. 
     “ Meu amor, não sei o que você tem...” Agora a voz era cuidadosa. “Eu nem posso te reconhecer...” 
     Pensou nos anos todos em que viviam juntos. Lembrou-se com algum esforço e muito vagamente do pouco tempo vivido com alegria, embora sempre permeado aqui ali de desentendimentos. Pensou naquela criatura sempre insatisfeita, qualquer que fosse seu desempenho no que quer que fosse. Pensou nas inúmeras vezes em que o “não” vinha à mente e que, antes mesmo que pudesse notar, um “sim” quase sussurrado saía pela boca. Soltou uma baforada do cigarro proibido em casa quase num orgasmo. O demoninho soprou de novo. “Faxina, minha cara, faxina”, pensou consigo mesma. 
Só teve tempo de ouvir a própria resposta. 
     - Tem razão, mas não se preocupe. Não é sua culpa. Você não pode reconhecer uma pessoa a quem nunca foi apresentado. A propósito, a partir de hoje procure uma outra cama pra dormir, que eu não costumo ir pra cama com gente desconhecida.
Acendeu outro cigarro. Não era uma questão de bom senso. Mas tinha um certo charme
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Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 27/10/2005
Reeditado em 27/10/2005
Código do texto: T64291

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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