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Diário de um Transe natalino.

Vivemos tão preocupados com nossa própria felicidade e sucesso, que não prestamos atenção nas pessoas e nos fatos que acontecem ao nosso redor. Em certos momentos, podemos até perceber pessoas, sentimentos e dores, mas esse perceber é momentâneo, esvaindo-se, sendo esquecido e banalizado por nossa mente e coração.

Pensei muito se deveria ou não transcrever um desses meus momentos de transe, por fim, descobri que não poderia ser egoísta e guardar para mim todas as experiências e sentimentos que vivenciei dentro de um carro, enquanto viajava com minha família.

Vou entrar, então, nessa aventura audaciosa de descrever em um diário de viagem, esse momento de reflexão. Como todo escrito, meu simples relato, corre o risco de ser ignorado e criticado, não merecendo a atenção e nem a leitura de muitos, mas ouso escrever agora sem amarras, sem preocupações em agradar o leitor. Minha preocupação é imortalizar e compartilhar essa experiência que vivi.

Período natalino, pisca-pisca, ceia, Papai Noel, presentes, árvore de natal, confraternização, todas essas palavras retratam bem esse dia. Este ano decidimos passar na casa de parentes em outra cidade. A vontade de revê-los era enorme, a saudade iria se dissipar, e passaríamos momentos de felicidade familiar que tanto nos contagiava.

A viagem é um pouco longa e demorada. A estrada também não ajuda, ao contrário, nos faz retroceder a velocidade e adiar cada vez mais o instante da chegada. O vai e vem do carro me incomodava. O meu momento de mal estar foi percebido e, como um remédio, colocaram um CD no som do carro para distrair e aliviar-me. A música realmente acalmou meu enjôo, comecei então a ler. Ia ouvindo e lendo, alheia à buraqueira, à estrada e a tudo em minha volta.

A estrada queria me mostrar algo. O CD aranhava-se como um grito de alerta. No livro, as palavras fugiam-me. Entreguei-me então, para só assim descobrir um mundo atrás do vidro do carro. Comecei a olhar para a paisagem a minha volta, e percebi que fora do carro havia um mundo a ser observado e descoberto. Olhei para a vegetação local, tudo seco e árido. Olhei os animais, todos magros e maltratados pelo clima e pela falta de água. Observei barracos e casebres e pessoas sentadas à beira da estrada pedindo esmolas.  Tudo aquilo me vinha não somente como simples imagens, mas refletia sobre tudo que via e imaginava além dos motivos, uma solução para esses problemas. Viajei em meus pensamentos, me vi de pés descalços naquela terra quente, senti fome e sede nessa hora. Parecia tão real, como realmente era.

A buraqueira tinha dado um descanso. No momento pensei em retornar à leitura, mas depois concluí que não tinha parado de ler, pois tudo aquilo que tinha observado há pouco tempo, se tratava de uma leitura visual e crítica daquilo que chamamos vida.

Comecei a ouvir sons, vozes de crianças com pás nas mãos, colocando terra nos buracos da pista em troca de comida. Crianças de pés descalços naquela pista quente, expostos aquele sol incessante, cada grito daquelas crianças implorando por ajuda, pedindo um pedaço de pão ecoava na minha alma. Não senti comoção nas outras pessoas que estavam comigo no carro, eles estavam inertes a tudo.

Aquela situação me angustiava crescentemente e o meu falecimento se caracterizou na ânsia morta de uma menininha que segurava meio desajeitada uma enxada, a olhar, suplicando ajuda, a cobrar carinho e pedindo socorro. Aquele rosto queimado do sol, aqueles pezinhos tão pequenos e um semblante triste e sofrido, arrancaram-me uma lágrima, a prova material de minha tristeza. Tinha vontade de arrancar a enxada da mão da garota e raptá-la para meu mundo, que é só mais um pouquinho justo e agradável. Será que ela viria? Seria melhor para ela? Aliviaria seu sofrimento?

_ Pare o carro!
_ O quê?
_ Pare o carro ai, por uns minutos!

Tirei da bolsa um pacote de bolacha e entreguei na mãozinha daquele ser, que forçou um sorriso e um ligeiro brilho no olhar.

_ Brigada, fica com Deus e feliz natal.

O carro já disparava, a criança ficava atrás. Olhei, vi a criança abrir o pacote e comer, dividindo com as outras crianças que ali estavam. Não era o bastante. Eu deveria ter trazido-a comigo. As bolachas não seriam eternas, acabariam, e a fome tomaria novamente aquele ser.

De repente vi um caminhão parado e muitas pessoas em volta, imaginei algo trágico, um acidente, uma morte. Meu coração se alegrou quando avistei um caminhoneiro vestido de Papai Noel e distribuindo presentes a outras crianças. Pensei que o natal deveria ser todos os dias, e que a felicidade do ser criança deveria ser renovada a cada dia e a cada momento. Meu natal nunca foi o mesmo, na lembrança permanecem as imagens tristes e secas em contraste com aquele momento de felicidade extasiante que contagiava o coração daquelas crianças. Pena que não encontramos vários Papais Noéis freqüentemente, pena que o natal só se realize em um dia do ano.

O transe termina, volto ao conforto do carro, à música internacional, à leitura do meu livro, aos meus velhos e rotineiros pensamentos.
Jaqueline Costa
Enviado por Jaqueline Costa em 12/09/2007
Reeditado em 19/02/2010
Código do texto: T649555

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Sobre a autora
Jaqueline Costa
Euclides da Cunha - Bahia - Brasil, 29 anos
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