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O VINI É O CARA!

O VINI É O CARA!

“O Vini é o cara!” Era isso que os vizinhos do Vinícius, morador de uma das muitas favelas do país, diziam dele. Uma afirmação absolutamente coerente com o comportamento do rapaz em relação a toda a comunidade. Aliás, o Vini, como era chamado, herdara do pai o senso de compromisso com o bem-estar dos moradores do lugar humilde em que vivia. A casa dele era das mais simples do morro, mas muito organizada, com janelas e portas pintadas de branco – ele dizia que isso transmitia a idéia de paz aos outros – e, na frente, tinha até um quadradinho de uma grama sempre verdinha enfeitada por um pé de Margaridas. Quando as flores desabrochavam, ele sempre apanhava uma ao sair para o trabalho e a entregava juntamente com um desejo de bom dia à primeira senhora que encontrasse. Na descida das longas escadarias que levavam à saída da favela, era cumprimentado por todos os que passavam. Ele era considerado o vizinho que qualquer um gostaria de ter.
Quando alguém precisava de ajuda para resolver algum problema, não pensava duas vezes: chamava o Vini. Consertar torneiras estragadas, trocar um vidro quebrado, participar ativamente na ampliação das casas dos vizinhos era com ele mesmo. Às vezes, pediam-lhe até conselhos sobre questões familiares, tal era a confiança que tinham nele. Embora fosse ainda jovem, o Vini era de uma responsabilidade exemplar.
No entanto, entre os habitantes do morro, nem todos eram tão amistosos quanto o Vini. Mas ele não se importava com isso e auxiliava, se necessário, até mesmo os que, de vez em quando, causavam problemas para os demais. Um deles era o Tião queixinho, um homem alto e muito forte, sobre cujas atividades profissionais ninguém sabia muita coisa. Só era de conhecimento de todos que Tião exercia alguma atividade noturna e, durante o dia, nunca era visto pelas ruas. Um dia, após uma chuvarada, a casa do Tião ficou completamente inundada e o primeiro a chegar, logicamente, foi o Vini. Balde numa das mãos e uma mangueira de borracha na outra, lá estava ele, ansioso para limpar toda a lama que havia se acumulado no barraco. Embora o Tião não estivesse no local, o Vini achou melhor fazer o trabalho assim mesmo e evitar o transtorno ao dono. Certamente ele ficaria feliz de encontrar tudo limpo ao voltar e, talvez, até ficasse agradecido, mesmo que não se conhecessem. Após horas de trabalho árduo tirando a água de dentro de casa e limpando as paredes manchadas de barro, o jovem saiu satisfeito, mesmo sem saber qual seria a reação do Tião. Mas isso não fazia diferença nenhuma para o rapaz; o importante é que ele havia cumprido mais um pouco da sua missão.
Em conversa com seus parceiros de profissão durante o trabalho, Tião Queixinho, depois de saber o que o Vini havia feito, não se cansava de repetir: “O mano Vini é o Cara!” E ele fazia a mesma afirmação várias vezes, sempre que os comparsas iam visitá-lo em casa, a fim de combinarem alguma coisa. Edu Marretada, um dos amigos de Tião, conhecido por esse apelido por ter agredido um vizinho com várias marteladas na cabeça, até já ajudava a espalhar elogios ao Vini, por influência do Tião. “Ele é gente boa mesmo!” – dizia o Edu aos outros, ainda que também não conhecesse o rapaz.
Mas nem sempre as coisas eram tão calmas na favela. Uma noite, o Vini, que sempre chegava em casa no início da noite, teve de trabalhar até mais tarde e só conseguiu voltar já perto da meia noite. Ao começar a subir a escadaria do morro, percebeu uma movimentação estranha num dos becos e foi ver o que estava acontecendo. Ao se aproximar do local, viu que quatro homens encapuzados tentavam assaltar uma senhora de uns sessenta anos. Primeiramente, como não era de se meter em confusão, o rapaz hesitou. Poderia ser perigoso tentar impedir a ação dos assaltantes, já que eles estavam em maior número. Chegou a pensar em continuar seu caminho e fingir não ter visto nada, mas sua promessa ao pai de ajudar e proteger seus vizinhos veio-lhe à mente e ele resolveu dar um fim àquela barbaridade. Aproximou-se dos bandidos e viu que a vítima era Dona Quirina, uma senhora que morava duas casas após a dele. Movido pela vontade de salvar a tal senhora, foi logo dando empurrões, socos e pontapés nos marginais, até que Dona Quirina estivesse livre. Então, pediu-lhe que fosse rapidamente para casa e chamasse ajuda, enquanto ele tentaria impedir que os delinqüentes a seguissem. Mas a sorte do Vini estava para mudar. Num momento de descuido, um dos bandidos o atingiu na cabeça com um pedaço de madeira e ele foi ao chão. Ferido e já sem forças para reagir, foi massacrado pelos socos, chutes e pauladas desferidos pelos quatro. Vendo o rapaz sem sentidos, no chão, eles fugiram antes de alguns moradores chegarem e encontrarem o rapaz já sem vida.
Foi a noite mais triste de todas na favela. A vizinhança inteira chorava, lamentando a morte do Vini. “Quem teria coragem de fazer tamanha maldade com ele?” – perguntavam-se os moradores do Morro da Fraternidade, nome dado ao local em homenagem ao pai de Vini. Em poucas horas, a notícia da morte do Vini já havia chegado a todos os pontos da favela. Tião Queixinho, ao saber do ocorrido, quis logo saber como havia acontecido aquilo, justamente com o rapaz que fora o único do morro que se propôs a ajudá-lo no incidente da chuva. Não poderia ter sido ninguém de lá, já que todos adoravam o jovem. Mas como notícia ruim corre rápido, Tião descobriu também como tudo havia acontecido. Foi um choque para ele. “Meu Deus! Era ele!” – repetia aquele homem, aparentemente, inabalável, já com um tom de arrependimento na voz.
Everton Falcão
Enviado por Everton Falcão em 14/09/2007
Código do texto: T652395
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Sobre o autor
Everton Falcão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
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