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Até hoje

      A chuva não dava trégua. Tocada a vento, guasqueava e levantava todo guarda-chuva, toda sombrinha. Melhor mesmo era pôr qualquer coisa na cabeça e enfrentar o aguaceiro até a entrada do banco. E assim fez.
     
     - Esta é a fila pra idosos?
     - Mas você não tá nessa de ficar na fila de idoso? Ou tô enganado? Mas se a necessidade é tanta, te deixo passar na minha frente.
     
     Uma sem-cerimoniosa risada que não deu 'pra segurar' deixou o 'gentleman' até meio desconcertado.... mas tinha saído tão naturalmente, que não merecia crítica. Ajeitando com a mão mesmo o cabelo que se desalinhara embaixo do chapéu de lã 'à peruana'  (comprara numa feira quando o frio tinha baixado de zero), ela se sentiu mais à vontade. Mexeu na bolsa pra pegar o papel que precisava pagar.
     - Imposto de renda também? Esse país é uma vergonha! Fazerem a gente pagar imposto de renda quando se ganha apenas um mísero salário! E professor, neste Brasil, não tem mais jeito mesmo! Não adianta greve, protesto, operação tartaruga, seja lá o que for... "Eles" não ligam a mínima! - Também professora?
     - Já aposentada. Na 'Federal'. Trabalhei como condenada por lá...
     - Bem que achei que já te conhecia. De lá. Sou de lá também. Área de cálculos. Contando o tempo pra me aposentar. Já disse pra um amigo que se intitula entendido em tempo de aposentadoria e tá sempre me informando quanto ainda falta pra eu parar, que ele me deixe me paz, porque quando chegar o dia, eu me aposento.
     
     Seu tom, super engraçado. Muito despachado, se bem que com um ar um tanto tímido. Nem bonito, nem charmoso. Tipinho comum. Boca estirada, larga. Cabelo muito curto, já grisalho um pouco. Estatura média, mais pra magro. Óculos de lente muito grossa. Um  tipo 'cálculo' mesmo! Mas extremamente simpático!  Melhor ainda: engraçado, fazendo a gente rir.
     - É assim que tu dás tuas aulas? O pessoal deve se divertir de monte! Vale a pena ter um professor assim na sala de aula. Mas não é preciso concentração pra se fazer tanto cálculo? Como consegues manter tudo bem administrado?
    - Eles são muito inteligentes! A gurizada hoje não é mais como na nossa época! Conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo, inclusive rir junto. E tu trabalhavas na área de línguas, não é?
    - Como sabes? És adivinho?
    - Teu jeito de falar... a gente percebe. Muito 's', muito 'r'... essas coisas de professora mesmo.
     
    E o papo rolou por quase 40'. Ficaram sabendo coisas um do outro. Fizeram críticas ao governo, à educação, ao banco, à idade, ao tempo, à chuva...enfim, curtiram a 'fila' enquanto esperavam a vez. Puseram conceitos, preconceitos, relações pessoais, afetivas ("Trágicas, hoje em dia", ele falou), familiares... tudinho em dia. Ficou sabendo até a idade dele (mais moço que ela).
   
    - Pode passar, diz o caixa.
    Ela se aproximou do balcão.
   
    Já estava saindo, quando sentiu um toque no braço esquerdo (ele, no caixa ao lado).
    - Me deram já teu telefone. Até chegar no carro, vais te molhar toda.
    - Não tem importância. Já tô molhada mesmo. Tchau! Prazer, professor! Que tua aposentadoria chegue logo!
   
    O telefone seguido tocava...
    - Mas que importância tem se minha separação é recente? Minha mulher já tinha me dado o 'bolo' há muito tempo mesmo. Minhas gurias já  se encaminham na vida. Difícil ficar sozinho. E uma boa conversa sempre é ótimo. Pelo menos isso!  - Idade ?... Que coisa 'de idade'... 'não voga' - não foi o que disseste?  Então?... Te ligo amanhã.
     E os telefonemas e as mensagens continuaram.
     Apenas...
     Até hoje.
     
lilu
Enviado por lilu em 16/09/2007
Reeditado em 11/08/2010
Código do texto: T654347
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Sobre a autora
lilu
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil
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