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YOLANDA E A DIVERTIDA DESGRAÇA DA VIDA

    Saia sozinha com a bolsa abarrotada de coisas, logo após ter indagado de si mesma ao grande espelho da porta do guarda-roupa que despencava como toda casa.
    Tudo caindo aos pedaços: a cama que tijolos suportavam um dos pés que quebrara; a janela – tanto do quarto como a da sala – que tinha que ser fechada com uma enorme aldabra; os cômodos que não tinham porta.
   Yolanda era alegria no meio caótico do bem-estar.Saia sempre com o mesmo vestido: ou o marrom de florinhas brancas ou o azul de listras brancas.Achava-se bonita em ambos, e não se cansava de se admirar de frente ao dito espelho; não poupando o rosto do pó de arroz, e o pescoço da barata alfazema.
   A sua bolsa era pentes, espelhinhos, desodorante roll-on, um livrinho de sabedoria chinesa que ela fingia entender.E lia sempre dentro do ônibus, olhando para os outros numa comoção própria de si.
   Ia sempre ao mesmo lugar: ou ao supermercado boulevard – porque era grande e cheio de luz, tinha até ar refrigerado e mesmo cheiroso – ou ao cinema assistir filmes de kung-fu.
   Seu bom senso era fingir ter arte na vida, e na verdade aproveitar ( ao Maximo) do mais insignificante da vida.No supermercado adorava a seção de produtos de limpeza e ali ficava quase todo tempo escolhendo um desinfetante que acabava nem sabendo como usar na sua casa que nem piso direito tinha, era cimento cascudo com algumas faces alisadas.Voltava iluminada do supermercado, o ambiente a enchia de sonho e conforto e fingia para si mesma que era o livro de sabedoria chinesa – que lera no caminho – o provocador do efeito, sabido efêmero.
   O marido chegava por volta das dezenove horas; de camisão aberto exibindo o peito largo e suado, e ainda sujo da obra em que trabalhava.Sentava-se a cabeceira da mesa – que era ainda o melhor móvel da casa – e devorava o morro de comida no prato como um leão e ainda urrava como quem arrota depois da caneca – de alumínio – com refrigerante de tubaina ( o mais barato) que tomara.
   Depois que ele tomava banho, Yolanda tinha mais um tempinho para ela, por que ele Amadeu seguia para o botequim, à esquina, jogar sinuca.Ela sentada numa velha poltrona de vime – que fora herança de sua mãe – assistia mais um capitulo da triste novela das oito, na TV em preto e branco e de tubo enorme, e achava tudo muito engraçado e ria mais do que no cinema com os filmes de kung-fu.E o que ainda era mais engraçado era o fato da televisão, de velha e cansada e mesmo de válvulas, roncava e entortava a imagem de vez em quando.
   Se faziam amor? Do jeito que se comportavam fora então que precisara a velha cama de ser escorada num dos pés com tijolos.Eram dois animais, e ela se enchia dele se esquecendo dela.
   Seu maior asseio era o alumínio das panelas brilhando e ela poder admirar-se  neles: tinha as sobrancelhas crespas, os cabelos eriçados, a pele cheia de manchas pálidas, e ainda assim se achava tão parecida com a Elizabeth Savalla que era a mocinha sofrida da novela.
   E Amadeu deu por achar que a mulher conversava com as panelas, e com certa compaixão, levou-a para sair, achando ser falta de distração, solidão naquela casa sem nada...
   Yolanda adorou o forró mas não usou o vestido azul de listras brancas, mas usava um sapato de salto alto de madeira.
   O velho galpão lá no final da rua fedia a suor e bebida choca e apesar de ter achado tanta graça de tudo e até de si mesma não parou de pensar na novela que estava perdendo.Ficou horas com o mesmo copo de cerveja e achou brilhante pois não havia mosca para obrumbar o copo se era noite.Dançou de corpo coladinho com Amadeu que queria demonstrar mais alegria do que tinha realmente, e todo instante a  indagava:
   _ Ta gostando mulé?
   E ela ria tão escancarada que ou era para demonstrar para ele que estava gostando ou porque era mesmo patética e fácil.Nem ela se identificava, por dentro tinha medo de se deparar consigo mesma.
   _ Ta gostando mesmo hein mulé – era ele feliz da vida por descobrir no encostar de coxas com ela, procurando imitar os passos de outros casais, e mesmo se achando sem jeito.
   Descansavam de vez em quando à mesa, onde um garçom sem traje trouxe mais uma cerveja, que Amadeu derramou rápido, mas ela ainda calculava o tempo no mesmo conteúdo do copo; as unhas borradas de vermelho nos dedos que passeavam pela borda do copo.Amadeu estalava  a língua no céu d aboca de tanta satisfação, e os dois se entreolhavam  talvez procurando o que dizer.Por  um momento Amadeu achou ver que Yolanda diria alguma coisa, ela mesma achou talvez – mas nunca tinha certeza de nada de si mesma – e cantou junto com a musica alta que era um grito indecifrável.
   Quando enfim falou foi mesmo aos berros e perto do ouvido dele:
   _ Tem banheiro aqui?!
   Chegaram em casa de madrugada, a   rua como dentro de casa estava escura: silencio...
   Domingo: a mãe visitá-la e orgulhosa de  ter conseguido fazer a dentadura ( viera mesmo por isto), andando pela casa a exibir a dentadura arreganhada.E acabava fazendo Yolanda rir de se escancarar.
   Com o dinheiro  que sobrara, Dona Flor a dera um pingüim de louça, que imediatamente Yolanda o colocou em cima da geladeira de tinta branca e já meio arranhada.
   De cócoras no quintal, descascando cana Yolanda oferecera a mãe, que recusara por causa da dentadura nova.
   _ Cadê Amadeu? Quis saber olhando para o quintal que se perdia em matagal.
   _ Na sinuca – respondeu chupando um bago de cana  a fazer barulho.
   _ E neném quando vão ter?
   _ Logo, logo – respondeu evasiva fazendo mais barulho a chupar cana.
   E se pensou...
   Amadeu sentiu no escuro a mão áspera dela numa caricia aos pelos do seu peito e foi adivinhando a acordar e se animar.Um boi mugiu para madrugada grávida da manhã no brejo ali perto, e as risadas, as continuas risadas continuavam...
   Tiveram que repor outro três tijolos...
   Yolanda podia sonhar com o bebe, mas nada quebrou sua rotina: o cheiro do supermercado Boulevard, o livro de sabedoria chinesa na condução, a novela triste na TV sem imagem quase e de som distorcido, os filmes de kung-fu com sangue cor de rosa no cinema.
   A cólica foi a única dor  verdadeira que sentira então, por que até então só uma dor de dente que ela logo arrancou o dente e nunca mais doeu.
   Mas o sangue era lilás...
   E o bebezinho?
   Já bem havia, já bem havia.Mas no hospital publico, onde Yolanda não assistiu a decisão, Dona Flor – apesar do calor, de chalé nos ombros falou com voz soturna bem perto do genro, na porta da enfermaria:
   _ Amadeu nós não tem condição de fazer o enterro do anjinho...
   Amadeu cutucou o dente com o dedo indicador e rindo serenamente sacudiu os ombros comentando:
   _ A alma está no céu, é o importante; o que vão fazer com o corpinho...Deus julga lá no céu mesmo.
   Yolanda sobre um leito branco de uma enfermaria, junto com outras mulheres, parecia abrir um sorriso para uma TV ligada ao canto da parede, em cima de uma banquetinha.Pertencia a uma das pacientes que até conseguira dar a luz, e contara a Yolanda que era o seu quinto, assim cheia de regozijo, mesmo esticou a mão até o leito de Yolanda como que para uma caricia:
   _ Você tem outros...eu também tive um aborto, é natural.
   Yolanda piscou os olhos aparentemente agradecida ou totalmente esquecida, assim virou os olhos para a TV: era a novela triste, colorida, como ela nunca imaginara saber que podia ser assim.

                                      *********


   20 de outubro de 2004.


Rodney Aragão.

                                               
Rodney Dos Santos Aragão
Enviado por Rodney Dos Santos Aragão em 17/09/2007
Código do texto: T656081

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Sobre o autor
Rodney Dos Santos Aragão
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
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