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A chave

                                       A CHAVE


Das minhas memórias pouco sei... são rastros defíceis de se ler. De se ler? Sim. Parte de minha vida foi tentando entender a vida. Desconfiei de que as palavras poderiam ser a chave. E assim, lembro-me de Drummond me perguntando: “trouxeste a chave?”  Não. Porque as chaves que tenho não caberiam no espaço-destino a que me aventuro agora. As chaves que tenho abrigam formas e tamanhos conhecidos, gastos, memorizados como um bate-estaca numa rotina encaixada, assustadoramente prevista, à espera de um movimento simples a que minhas mãos se negam num ímpeto de desobediência infantil.
Eu quero a chave que não abre. Eu quero a chave que me encerra sobre mim mesma. Quero assistir-me como num filme de Woody Allen. Não quero frestas, vãos, filetes de luz a denunciar clareza ou lucidez. Quero embaralhar fatos, jogar com o tempo uma espécie de morto-vivo. Quero que se levantem os mortos. Quero desenterrá-los, redescobri-los, sentir o cheiro do pó. Ah...como eu queria ver meu rosto aflito, perdida em dia de carnaval, multidão me arrastando. Eu queria apenas a mão de meu pai. Deram-me a mão, mas não era ele. Era uma tentativa de me levar a ele. Eu não entendia. Sofria. Nos minutos-horas que se seguiram comecei a ter pistas do que seria a vida: a procura, o medo, o abandono, o choro, o encontro. Me enganei. Da última vez que me perdi de meu pai seguiram-se: a procura, o medo, o abandono, o choro. Mas nunca mais o encontrei.
Não. Ainda não posso abrir a porta. Levantou-se diante de mim uma mulher de olhos que se apertavam quando sorria, como se quisesse alternar o fato de ver e sorrir. Nesta ocasião ela preferia sorrir. Despejava numa panelinha de verdade, mas inutilizada pela ausência de alças, uns talos de bertalha cortados rigorosamente para que nenhuma folha se perdesse. Ela refogava as folhas com alho e ovos. Eu refogava os talos em minha panelinha inutilizada pela ausência de alças. A beleza  da infância se instala nisto, prolongar verdade nas mais doces mentiras. E assim ficávamos eu e minha mãe: eu com meus talos de verdade e ela com sua bertalha de mentira. Brincávamos de casinha, movidas pela inquietação de prover, de alimentar, saciar a fome. Cúmplices.
Meus irmãos eram grandes. Por mais que eu crescesse eles estavam sempre além, mais velhos, adiante, longe de mim. Não dava para deter o tempo. Foi então que resolvi envelhecer. Naquele tempo, eu encontrei a chave: foi escrevendo num caderninho, dando significado a cada parte do meu mundo infantil que eu consegui tocá-los, ou talvez, quem sabe? aprisioná-los num caderninho cheio de rasuras e garranchos de uma menina só.

Adriana Bittencourt Guedes
Adriana Bittencourt Guedes
Enviado por Adriana Bittencourt Guedes em 17/09/2007
Código do texto: T656441
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Sobre a autora
Adriana Bittencourt Guedes
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 50 anos
3 textos (942 leituras)
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