Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

As aventuras do homem escárnio (Ponto final)

                       PONTO FINAL


Quinta-feira. 11:10 hrs. Ônibus metropolitano de uma grande cidade qualquer.
---- A senhora pode sentar.
---- Não obrigada meu filho. Já vou descer.
---- Pode sentar. Quando chegar o ponto final a senhora desce.
---- Não precisa querido. Ta perto já. Pode ficar.
O homem pega no braço da velha.
---- Senta minha senhora, Não vá fazer desfeita.
---- Que isso moço. O senhor tá me machucando.
---- Vai ser pior se a senhora não sentar.
---- Mas eu já vou descer. Meu ponto é o próximo.
---- A senhora está falando isso a mais de um kilômetro. Por favor, senta.
---- O  senhor está maluco? Eu não vou sentar. Eu não quero sentar. Já vou descer. Me solta.
---- A senhora não vai descer. Vai é sentar. Senão lhe quebro o braço.
---- Por que está fazendo isso? Que eu lhe fiz?
---- A senhora nada, por enquanto. Já é a terceira velhota que vou dar o lugar e diz  que  não quer. Pode ter certeza, não vai ter a próxima ----  Cochichou no ouvido dela.
---- Pode soltar meu braço? Meu ponto já é o próximo. Vou descer agora.
---- Não vai não. Senta.
---- Se não me soltar vou fazer um  escândalo.
---- A senhora vai, mas o braço fica.
 A velha começou a gritar.
---- Alguém me ajude. Esse homem  aqui é doido.
---- Liguem não. Minha avó não anda bem da cabeça. Não quer voltar  pra casa. Prefere  ficar no asilo onde batem nela. Acha que todo mundo a quer maltratar. Calma vózinha, a gente
já chega. Senta aí e fique quietinha que vô tá te esperando.
---- Que vô o que. Nunca te vi na minha vida. É mentira dele. Não quer me deixar descer.
 Vem uma voz lá do fundo.
---- Senta vó. Não é todo dia que se vê um neto assim. Aproveita antes que ele te mande de volta.
---- Que asilo o cacete. Quero descer. Quero ir embora para a minha casa.
 O motorista se mete no meio.
---- Boca suja essa velhinha. Por isso que apanhava lá no asilo.
---- Meu Jesus Cristo. Meu ponto ficou pra trás.
---- Então senta e relaxa vó. Vai, senta logo que a senhora tá me atrapalhando meu cochilo. --- disse um outro no banco ao lado
   ---- Quanto tempo preciso ficar sentada pra você me deixar em paz?
   ---- Se a senhora tivesse me escutado,  a gente já teria resolvido isso.
    A velha finalmente resolveu sentar. Uma ovação enorme correu por todo o ônibus.
    Ela não disse mais nada. Ficou ali imóvel olhando para o vazio. Em silêncio total.
   ---- A senhora também não precisa ficar assim. Só fiz por bem. Só assim para vocês mais velhos res-
          peitarem a educação dos outros.
   ---- Vai tomar no..............Seu ....................
    Outra ovação. Uns assoviaram, e outros gritaram: “Tem criança no ônibus, manera a boca aí, vó.”
   ---- Só por causa disso vamos até o ponto final. Aí motorista, quanto tempo falta pra chegar?
   ---- Uma hora  de viagem. ---- Respondeu ele com um ar animado.
    Outra ovação.
 ---- Mas o senhor não pode fazer isso comigo. Olha, já sentei. Deixe eu ir embora, por favor.
 ---- Tarde demais. Aproveita e tira um cochilo que a viagem é longa.
   Ela vez menção de levantar-se, mas o homem a empurrou de volta pela cabeça.
 ---- Vó, não me faça fazer besteira.
   Quase uma hora depois, o ônibus quase vazio. A velhota parecia que tinha caído no sono, com a cabeça encostada na janela.
 ---- Meu, acho que tua vó morreu ---- observou um rapaz vestido de branco que estava ao lado.
 ---- Como você sabe?
 ---- Ela está pálida, gelada e sem pulso, e eu sou enfermeiro. Já tou acostumado.
 ---- Ela não é minha vó.
 ---- Não? Mas tava chamando ela de vó.
 ---- Tratamento carinhoso. Sabe onde fica a rua Campo grande?
 ---- Desce no próximo ponto, continua reto e vira a primeira á direita. ---- se intrometeu o motorista.
 ---- Beleza. Tchau vó. Será que ela morreu mesmo? Caramba,
acho que vai chover. Fui.....
    O homem desceu  e a velhinha continuou viagem.
    O enfermeiro desce no ponto final.
 ---- Ô motorista, essa senhora aqui no banco morreu. Vê o que faz aí.
    Ele vai até lá, examina, levanta as pálpebras e coloca a mão na testa da morta.
 ---- É brincadeira um negócio desses. Veio pra morrer aqui bem no meu horário. Que cagada. Só pra me atrasar.
    O cobrador vai a um orelhão e liga para o escritório da empresa de ônibus. Liga depois para o 190.
    Quinze minutos  depois levam ela ao IML para ser reconhecida pelos familiares.
   Coisas de cidade grande, essa floresta de concreto insensível e  irracional.
    Mas apesar disso, nunca deixem de respeitar os mais velhos. Eles merecem isso porque....porque...
    Bem, são mais velhos que você. Por isso.
    Mesmo porque você também um dia vai ficar velho, e  pode, num azar terrível, cruzar com algum o neto traficante, em alguma bocada por aí.
    E o mais importante, nunca, mas nunca mesmo deixe um idoso de pé em um ônibus lotado.
    Talvez tenha que se esforçar um pouco.
    Assim você nunca vai ter que escutar alguém falando que  o  pessoal  de  antigamente era  muito mais educado que os de hoje.
 
                  Continua.......
Márcio José
Enviado por Márcio José em 31/10/2005
Código do texto: T65669
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Márcio José
Curitiba - Paraná - Brasil, 48 anos
61 textos (26985 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 12:34)
Márcio José