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O coração de Gastão

No canto esquerdo do meu coração há uma lesão, e dói muito, andei por vários especialistas, para então explicarem sobre a gravidade do problema, uns ao verem os Eletros-cardiogramas disseram:
_ É coração grande!;
Outros dois cardiologistas, que seria uma cavidade povoada por micro-organismos não identificados, segundo o último, uma colônia
de bactérias e que eram ainda desconhecidas.  Apavorei-me!, será que morrerei de coração?, logo Eu, que já ajudei tantos corações cheios de dor, a se curarem de doenças bem mais graves, alguns batiam à revelia, descompassadamente, entediados, tristes, purulentos, presos, mergulhados num lamaçal fétido, sinceramente,  me sentir traido pelo meu próprio coração!. Decidi que não me desesperaria, pois, o que adiantaria nessas alturas, depois de diagnóstico desses, vir a literalmente arrancar meus cabelos, ou mergulhar no consumo do alcóol ou drogar-me? Não, não, a minha vida é preciosa, por demais, se eu tiver que vir a óbito por força desta molestação, que seja de forma natural, decorrente da evolução do problema. Em uma dessas agradáveis tardes de verão, estava eu numa praça, sentado, observando as pessoas, o movimento típico das cidades, carros velozes a passar, crianças de mãos dadas com seus pais, o vendedor apregoando seus produtos, mulheres com sacolas e bolsas certamente, recém-saidas de lojas, mais uma vez abrindo a mão, espichando algumas onças e garoupas, por uma bolsa VH, só de pensar, o meu coração palpitava!. Havia em meio aos andarilhos, uma sexagenária, muito simpática, que me olhava marotamente, sentada num outro banco da praça, num raio de 30º à minha esquerda, Ela tinha uma vivacidade no olhar impressionante, apesar das rugas de expressão, ainda percebia-se um brilho em sua face, relanceando-me o olhar de quando em vez, quando resolvi explicitar, que eu percebia seu olhar(numa das oportunidade, em que nossos olhares se cruzaram),  Ela me acenou com um gesto de quem estava curiosamente e ao mesmo tempo receiosa, a se aproximar de mim, um sorriso meu foi o suficiente para que a velhinha se sentasse ao meu lado, e a me saudar com um aperto de mão, e um sonoro Boa Tarde!, saudação imediatamante correspondida, inicialmente comentou sobre o quanto estava quente aquela tarde, e ininterruptamente me dissera que estava vindo de uma consulta com seu cardiologista(me espantei com a inerência), faziam uns cento e cinquenta dias que se submetera a uma cirurgia do coração, e que de dois, em dois meses, teria que voltar ao especialista para fazer uma análise comparativa de  seu quadro clínico, eu a ouvia sem pestanejar, imaginando simultâneamente, que um poderia um dia estar nesta mesma condição, antes que eu completasse meu raciocínio, de súbito Ela me falou algumas palavras que me encheram de encanto, coragem, e que me deram outro alento, im consolo, ante meu problema.  Ela me contou que nunca havia se casado, que fora noiva por três vezes, mas desmanchou-se os noivados por motivos banais, e que apesar dos dissabores destes incidentes, nunca se deixou abater, que sempre trabalhou, e aposentara-se por tempo de serviço, exercera a profissão de  atriz e dançarina, tirou da bolsa algumas fotografias, na maioria em preto-e-branco, as mais recentes coloridas, que delatavam  algumas peças e musicais que participara, indubitavelmente, admitir para mim mesmo, que estava de frente com uma mulher que no auge de sua formosura, encantou a muitas pessoas, de forma especial, aos homens, foi muito bela!, falou-me das aventuras, experiências, decepções, traições e de todo o percurso ao longo de quase 35 anos de carreira, contou-me que ultimamente as lembranças as fazem chorar, que não teve filhos, que hoje vive num albergue para artistas em fim de carreira, mora em um quarto, que se sente solitária, sua mente é sempre povoada pelas boas recordações, que raramente recebe visitas de parentes, porque não os tem próximos, seus amigos são poucos, e que só a visitam no Natal, ou em 22 de Maio, dia de seu Aniversário. Ao concluir estes últimos relatos, houve uma pausa sepucral, entre lágrimas, puxa de sua bolsa, um lenço branco, trabalhado em ponto de cruz nas extremidades, e no canto direito há cinco letras que predizem o nome Hélia, e ao abrí-lo por inteiro,  permitiu que pudesse lê-lo; enxugava as lágrimas caídas dos olhos, como quem limpa o retrovisor de um carro, para poder ter maior visibilidade, já recomposta, ela concluia narrativa, e propõe, pedindo-me agora, que eu fale de mim, eu prontamente conto minha biografia, e quando disse-lhe que estava também com problemas de coração, de um salto ela eregiu-se do banco, e expressou uma fisionomia de quem estar surpresa e comovida, meio que brava até, coloca suas mãos sobre meu ombro e me diz interrogando-me, quando lhe falei da primeira conclusão dos especialistas:
_ Coração Grande? há você tem mesmo!, amigo, a vida me deu capacidade para reconhecer, quando uma pessoa tem o coração grande, você é uma delas, imagina se se morre de coração grande? a não ser que seja um amor medíocre, levante a cabeça! isso é uma honra!, é lógico que ela propositalmente disvirtuou a diagnose médica.
Fiquei perplexo com as palavras dela, e ao falar-lhe da suposta lesão no canto direito de meu coração, ela interpelou-me:
-Gastão, ouça o que vou lhe dizer: a medicina e os doutores tem seus conhecimentos, mas a vida também é mestra! vá para casa tranquilo, sabe qual é seu mal?
Eu antonitamente respondir:
_ Não(o mesmo expelido exatasiadamente)
Em seguida, Ela disse-me:
_ Gastão, o seu mal tem nome, a bem da verdade, ele é intangível, incomensurável e inexplicável talvez, tem cheiro, sabor e alimenta a alma, seu mal não se produz em laboratório, não se aprende a sabedoria terrena e nem a conhecimentos científicos, Ele é tudo e ao mesmo tempo nada és sem Ele, Ele é a mais sublime poesia, o mais doce canto, o melhor dos sonhos, o mais lindo sorriso, é também a mais cheirosa essência, é o vento que embala as folhas na relva, é o sol que aquece as manhãs, é como o maior dos mistérios, vale mais que ouro puro, Ele é tudo em todos, seu mal escreve-se com quatro letras, se chama AMOR, ou melhor, seu mal, é a falta dele!
Silenciosamente, ouvi e afastei-me, caminhei atordoado, instintivamente, mas não havia nada de coerente em minha mente naquele instante, estava anestesiado, plasmado, mórbido, diria que em Estado de Choque!, caminhei mais um pouco e deparei-me com a verdade, insofismável, pré-dita por aquela anciã, levando-me a concluir que as bactérias que lesaram o lado esquerdo do meu coração se chamam, orgulho, vaidade, individualismo, falta de perdão e a razão.
Esau Saint Marie
Enviado por Esau Saint Marie em 19/09/2007
Reeditado em 20/09/2007
Código do texto: T659937

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Sobre o autor
Esau Saint Marie
Imperatriz - Maranhão - Brasil, 50 anos
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Esau Saint Marie