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MENINOS DE RUA - O ANDARILHO

Uma pequena chuva paira sobre sua cabeça magra. Pequenas chagas incomodam em coceiras alternadas com pingos de impaciência. A tristeza no olhar transa e faz companhia às preocupações inseparáveis.

O menino arrasta-se pela cidade com pés descalços, bucho exposto. O abdômen projeta a verminose crônica para frente. As dores trepam sem parar e irrompem uma boca exposta produzindo sons. As coceiras chamam as mãos para as carícias intercaladas com arranhões lascivos.

Ele caminha lentamente enquanto observa sua solidão passar no espelho da loja de móveis do outro lado da rua. Parece caminhar pesado, pisando esgotos, enchendo de lama os pés cobertos de feridas. A cabeça pesa-lhe sobre o pescoço fino e grudento. Não está nem aí, quanto mais aqui para os pedestres que cruzam seu caminho. O olhar fixo no chão faz um coito arredio com os pequenos regos molhados de onde descem águas embaçadas, como um sêmen que emprenha a cidade.

Não tardou em recusar o cheiro narcótico que faz seus neurônios fazerem amor adoidado, até a morte, um por um. Parece querer a sobriedade enquanto perambula pelos cantos esquisitos de um Recife chuvoso, sujo, fedorento, sinistro. Os pés não lhe incomodam tanto quanto um vazio deixado de antevéspera. Seu corpo padece, mas os passos continuam perdendo o rumo, deixando um pedaço não exposto de um ser atordoado. Perdera o senso, enquanto reflete sobre a sua condição de indigente. Revolta-se e anda até agora trepando em letras tortas.

A cidade parece pequena para aquele pequeno ser veloz e desaprumado. O destino lhe fora ingrato. Sua saúde corre um risco enorme. Os maus presságios vêm como gozadas múltiplas e descontroladas. O menino andarilho não se importa com o peso do grande calção que insiste em descer, arrastado por uma chuva safada que lhe percorre o corpo franzino. Suas mãos ainda trêmulas, como se masturbasse os fios dos cabelos, num puxar e alisar, mostrava a brancura das carnes e as finas veias, desenhadas em cima dos magros ossos.

Repentinamente o corpo pára e cai lentamente, exausto, sôfrego, como se transcendesse num clímax sob a chuva molhada, num chão colchão de concreto, afeito a dormidas e rolares intermináveis. Vê o mundo girar numa velocidade enorme, deixando-o ébrio e sonolento. Adormece ali mesmo, transformando-se em casulo.

O canto dos insetos noturnos mais uma vez desperta o pobre garoto de rua. Já é tarde, poucos ainda transitam naquele espaço dormitório. Os problemas ainda são os mesmos, as mãos ainda são as mesmas, trêmulas e muito finas. As veias parecem mais fracas, exibindo um caldinho escuro que transporta a vida. A criança acorda com plena consciência de que a andança chegara ao fim. Apenas um grande problema ainda o aflige – o largar do vício  que o consome diariamente como uma mulher dama insana e louca por sexo barato. As pedrinhas abrem um fosso enorme entre a razão e a alucinação e ele quer parar imediatamente enquanto é tempo, enquanto há tempo para fazê-lo. O vício é mais forte, o amigo da vez o socorre com uma pequena lata de refrigerante perfurada ao meio. Lá dentro da lata uma fumaça que o derruba novamente... inconsciente... cheio de desilusões para o próximo dia. O filho do mundo agora dorme... dorme dentro de nós, calado, acuado, sem perspectivas, sem eira nem beira... simplesmente dorme.



Zé Beto
Enviado por Zé Beto em 20/09/2007
Código do texto: T661396
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Sobre o autor
Zé Beto
Jaboatão dos Guararapes - Pernambuco - Brasil, 46 anos
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Zé Beto