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Zezão do Gato

Já se passavam das vinte e uma horas da noite de sábado quando fui, exaustivamente, surpreendido por um tenebroso barulho no meu portão, as batidas eram tão fortes que estremeciam o chão. Então, logo corri em direção as batidas, assim, meio que assustado, tropecei por cima de um tamborete, derrubei uma panela com arroz que estava sobre à mesa e quando cheguei lá, ele suspirava, quase sem fôlego.
Era o velho Zezão, meu vizinho, somos amigos desde crianças. Ele estava muito assustado, chorando pra valer.
- O que foi homi de Deus? Tu tá ficando maluco? - perguntei-lhe.
- Oh meu irmão, tu nem imagina a desgraça que acorreu em minha vida - chorou Zezão.
- Então fale criatura! Vamos... Depressa! Assim vou dar um ataque de nervos - disse-lhe.
- Foi tudo minha culpa Chico. Eu não devia...
- Oh homi danado, mermo na hora do desespero ele não fala o que está sentindo - murmurei.
Então corri e peguei uma jarra com água, de uns dois litros, e fiz com que ele bebesse toda a água para acalmar um pouco e me esclarecesse a situação.
Porém, Zezão estava tão louco que, na mesma medida em que a água descia em sua garganta ela saia nos seus olhos, também estava tão pálido que mais parecia um maracujá amarelado, expressando um sentimento enorme de culpa.
Aquela situação estava me deixando encucado, e depois de alguns minutos, quando pensei que tudo estava sob controle e eu finalmente saberia que bicho era esse que picou meu amigo, lá se vem a esposa do Zezão, a comadre Francisca e seus dois filho, o Zezão Filho e o Zezim do Tiquin – recebeu esse apelido de Tiquin, por que toda vez que saiam para comer fora, ele falava pra sua mãe que queria só um tiquin – como sempre escandalosos, gritando e chamando a atenção de toda vizinhança. Com isso, foram se aproximando muitas pessoas, “os curiosos”, se formando aquele alvoroço bem ao meio da rua, mais parecia o Iraque em guerra, todo mundo correndo assustado.
O compadre Zezão até que enfim se acalmou e, em seguida, abraçou sua esposa e seus dois filhos e convidou-me para acompanhá-los até sua casa. Eu muito curioso e ansioso também para saber do pepino, fui quase correndo.
Ali já se encontravam quase todos os moradores do bairro. Uns comentavam entre si:
- Será o que aconteceu? - perguntou um.
- Não faço a mínima idéia - disse outro.
- Será se foi a sogra dele que faleceu? – indagou um garotinho zombeteiro.
Um outro sem querer ficar pra trás, acrescentou:
- Se estivesse sido, seria motivo de alegria e não de tristeza!
Quando entrei em sua casa, ouvi um cochicho do compadre Zezão com a comadre Francisca citando a palavra caixão, fiquei mais aterrorizado à beira de um piripaque. Os vizinhos, mesmo sem serem convidados, foram entrando e se acomodando da maneira que podiam, foram tantas as pessoas que a sala já não suportava mais. Então Zezão me chamou dentro do seu quarto e disse-me:
- Eu não quero ver, Chico.
- O que meu irmão? - perguntei-lhe.
- O meu gato morto, coitadinho dele. Eu coloquei comida pra ele, mas se recusou a comer, talvez estivesse ruim. Então ele indignou-se e subiu no alto da casa e pulou. Foi um suicídio compadre. Devo ser condenado à forca, sou um covarde!
- Calma! Calma Zezão – disse-lhe.
Aos poucos toda aquela multidão foi saindo, e se podia ouvir algumas murmurações:
- Cada um com suas loucuras. Ele é maluco mesmo...
Depois daquele dia, todos no bairro passou a chamá-lo de Zezão do Gato.
Para ele, foi uma das maiores tragédias já acontecida em sua vida: “A morte de seu gato”.
ARNALDO FILHO Lima da Silva
Enviado por ARNALDO FILHO Lima da Silva em 24/09/2007
Reeditado em 30/12/2008
Código do texto: T665961

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Sobre o autor
ARNALDO FILHO Lima da Silva
Araguaína - Tocantins - Brasil, 29 anos
42 textos (6097 leituras)
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ARNALDO FILHO Lima da Silva