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GERSON

   Lincoln acomodava o corpo forte, moreno e grande nos lençóis brancos e perfumados da cama espaçosa da sra. Aimee.Pelo espelho do toucador, sentada no tamborete, colocando os brincos, ela não admirava seu rosto já cheio de sinais da idade, admirava era o nu daquele menino forte e grande que ela podia ver desenhado perfeitamente no reflexo do espelho oval.Assim sacudindo muito agitado os braços e as pernas como tomando o conforto saboroso, aquele menino grande sabia o jeito de dizer:
   _ Você demora muito?
   _ Demoro o de sempre – e voltava-se para ele com o rosto corado pela suave maquiagem – mas vá a praia, passeie, compre umas roupinhas para você.Aproveita a mocidade!
   Lânguido ele mentia  como quem diz a verdade:
   _ Aproveitar sem você...
   Imponente, firme como uma mãe dedicada, a sra.Aimee sentava-se ao seu lado na cama, alisava a coxa grossa e nua do seu grande menino e dizia com discreto embaraço na voz:
   _ Preciso trabalhar, preciso para que você me faça feliz.
   Ele virava-se de lado, sorria bobo, preguiçoso, pegava-a assim pela cintura.
   _ Você me ama de verdade?
   Ela sorria envergonhada, inclinava-se para beija-lo um pouco demorado nos lábios grossos dele, e depois saia altiva no salto alto batendo no assoalho pelo apartamento.
   Lincoln, com o sexo rígido, ficava alguns instantes mordendo o bocejar até que um tique-taque dentro de si batia mais alto, e acabava abrindo um sorriso ao meio do seu espreguiçar; pulava elétrico no chão de piso atapetado.Tomava mesmo uma ducha fria, após se masturbar com barulho e gozar com violenta alegria.
   O apartamento era amarelo.Um mundo seu de adorável intruso.
   Quando sentava no sofá fofo, de cueca branca, bem a vontade, experimentando champanhe, assistindo canais de Tv à cabo se sentia quando criança pulando a cerca do quintal vizinho para roubar goiabas e mangas.
   Ela sabia os truques para deixa-lo excitado, beijando-o as axilas; os mais sórdidos baixavam uma penumbra densa sobre ambos e apenas se ouvia o gemido dele quase como um pranto de um menino que é castigado.
   O seu moreno tornava-se ainda mais atrevido nas areias do Arpoador, com a sunga azul; era alvejado por olhares vertentes de cobiça.Como um autentico meninão da Zona Sul.Não havia pouco tempo só conhecia as cercanias singelas de um bairro escondido de Nova Iguaçu.Era lá que vivia gozando  felicidade à toa de roubar mangas e goiabas.
   Ele jogava vôlei com outra rapaziada, vadia, mauricinhos e gigôlos como ele.
   Entretia-se com cerveja nos quiosques, disfarçando olhar para os cocos dependurados, assoviando cheio de pilheria para as louras ou morenas no calçadão.
   Assim se ia suas tardes na companhia vã, num papo solto sem linha nem reticências até que chegasse o por do sol, sentado nas pedras do Arpoador.A solidão ficando roxa com o crepúsculo a chegar.
   Os braços apoiados sobre os joelhos, já com o bermudão úmido da água do mar, ardendo docemente do sol: seu moreno tornando-se ainda mais atrevido.
   Um vento como assopro em sua nuca refrescou-lhe, deu-lhe a idéia da batalha da noite.Bocejou um pouco tenso, riu de si mesmo.Sua boa-vida era uma certa desgraça.Todavia ele sempre fora de correr para este lado: roubava goiabas e mangas do quintal vizinho, até mesmo bolinhas de gude dos amiguinhos.
   Tinha o mal de Gerson – dizia a tia que o entendia e entendia o mundo.
   Assim ficou refestelado no fofo sofá, de bermudão com o zipper aberto, a mão por dentro coçando, mergulhado na penumbra, embriagando-se da luz da rua, esperando a missão cruzar a porta num riso louco de vontade.
   Sra.Aimee chegava sem alarido como as luzes da rua: de repente já estava, mas ele a aguardava com certa cerimônia monótona.
   _ Demora sempre – reclamava teatralmente como um menino.
   Ela se chegava para perto dele, acomodando-se bem ao seu lado, admirada de amor por ver ele com a mão por dentro da calça.Demorava no banho enquanto ele esperava na cama, já nu, suspirando quente entre os lençóis amarfanhados, na semi penumbra, a luz quebrada do abajur na cabeceira enfeitando certo canto da parede.
   Ela se demorava num ritual de loção, dentro do roupão rosa, sentindo o pé dele querendo se insinuar pela fenda aberta do roupão, indo até o ventre antes passando pelas coxas.
   Amalgados se confundiam na dividida escuridão, estalando beijos sugados, caricias ressonantes que se demoravam nas noites de relâmpagos. O clímax era o ápice d e quase madrugadas em que se quase podia ter a impressão...que se ouvia galos? Os lençóis chegavam manchados e molhados.E para Lincoln aquela dor perturbável e ambiguamente deliciosa nas virilhas de uma luxuria como na gula de devorar coisas furtadas ao qual nem necessitava.
   Ela o abraçava ainda mais depois do interminável e assim dizendo:
   _ chega mais meu moreno, me aconchega – e assim tinha o sexo dele junto ao seu ventre, aliciando caricias, querendo violentar o silencio sideral do universo local.
   Quando estava na amplidão do luxo das companhias fúteis é que realmente acreditava que tudo valia a pena, embora Aimee fosse fácil de se fazer sofrer.
   Assim depois de uma noite que ela suportou a sua ausência no apartamento amarelo, sem ao menos ter forças para roçar de roupa, um banho, uma comida, remoendo uma maneira de encontra-lo na selva gigante e devoradora de prédios e luzes lá fora, querendo mesmo acreditar que ele estivesse em perigo, chegando a sonhar acordada com ele entrando pela porta – que ela vigiava de frente – chorando, pedindo seu colo, contando o perigo que vivera aquela noite sem ela.
   Mas ele chegara esguio, desconfiado, de jaquetão preto, ficando na porta como pronto a recuar, e ela quase a morder a mão em punho, desfigurada, de joelhos perto do fofo sofá.
   _ Espero que tenha uma boa explicação – dissera com embargo de ódio já sinalizando ao tom choroso de voz uma compreensão ampla anterior a boa explicação que pedia.
   Lincoln roeu as unhas, fazendo-se por sentir calor foi despindo a jaqueta, sem saber o que fazer com está na mão.
   _ quer que eu vá embora – indagou vago num tom desinteressado e tremulo.
   Ela se ergueu altiva como quem iria manda-lo embora, mas correu para a janela, abriu as cortinas: o dia era da cor de chumbo como o céu.
   _ Hoje é sábado e o dia não parece grande coisa apesar de – declarou de costas para ele.
   Ele foi se aproximando cuidadoso com o receio de quem acreditava poder levar um coice embora a égua fosse bem conhecida.
   E enquanto a chuva cantava lá fora era o gemido persistente dele no amarfanhar dos lençóis, e ela violenta na sede insaciável, tremula, doida, montada em seu corpo viril.E ele gozava sofrido e franco como uma criança vadia que abandona seus brinquedos de casa pelos toscos bodoques da sarjeta.
   O luxo da luxuria da vida dentro d ávida necessária e real, e intensamente vivida.

                                    ..........


Rodney Aragão, 21 de setembro de 2005.
   
Rodney Dos Santos Aragão
Enviado por Rodney Dos Santos Aragão em 24/09/2007
Código do texto: T666619

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Sobre o autor
Rodney Dos Santos Aragão
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
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Rodney Dos Santos Aragão