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Educada Tortura

As sombras na calçada me distraem a atenção das vitrines que nunca vi. Mas as vitrines não merecem mesmo estar nessa rua. Ela não comporta essas vitrines que inutilmente tentam disputar espaço com as folclóricas figuras que habitam esse passeio urbano e o imaginário da gente daqui.

Senhores e rapazes agridem meus mais profundos sentimentos com seu chopp na calçada às quatro horas da tarde. Seus desgraçados! Quando estiverem atarefados ao extremo e sem um tostão nos bolsos, eu, vingativamente, estarei com as burras cheias e ocuparei esse lugar de vocês, fazendo-os passar pelo mesmo.

Um rosto conhecido vem em minha direção.

- Daí rapaz, tudo bem? Como é que vai a vida?
- Muito trabalho e pouco dinheiro.

Já tem algum tempo que eu tenho dado a mesma resposta mal humorada. E o pior é que é sincera.

- Pois é, a vida não ta fácil pra ninguém, não é?

Pensei em responder-lhe o que me veio a mente. Algo como “da tua vida eu não sei, nem quero saber. O que eu sei é que eu estou ferrado, mal pago atarefadíssimo demais para ficar de conversa fiada com quem eu nem lembro quem é.” Mas não, em minha habitual polidez no tratamento com as pessoas, mas mantendo o meu mal humor dos últimos tempos, limito o uso das palavras nessas ocasiões.

- É realmente...

- Pois é, já não nos vemos há algum tempo. Precisamos marcar alguma coisa, reunir o povo dos velhos tempos.

De que “povo” este figura está falando? De que “velhos tempos”?

- Pois é. Só marcar e me avisar.

Essa foi a minha vingança. Vingança perfeita. Esse figura agora se ferrou. Eu não vou mais precisar ficar pensando em quem ele é ou deixa de ser. Agora é ele que precisa mostrar que me conhece e de onde.

- Então, mas o teu telefone continua o mesmo?

Ah, agora ele me deu a deixa para a perfeita conclusão de minha vingança.

- Qual o número que você tem aí?

Ele retira o telefone do bolso cuidadosamente. E eu já estou babando de ansiedade pela derradeira derrota de sua farsa de falsa intimidade comigo.

Ele mostra-me o visor do celular:

- É esse ainda?

Eu, agora babando por quão boquiaberto fiquei, não acredito no que vejo.

- Sim, é esse.
- Então ta, eu vou ver se marco alguma coisa logo com o pessoal e daí te ligo.

Meu Deus! Preciso dar um jeito de sair daqui logo antes que ele descubra minha dissimulação.

- Então está bem, estarei aguardando sua ligação. Agora preciso ir, estou atrasado.

E vou já me afastando e dando as costas àquele ilustre desconhecido para mim. Mas o desgraçado não pôde deixar de usar sua última arma contra mim.

- Ei, não estou te cobrando os parabéns, mas hoje é meu aniversário!

Ai, agora ele me pegou. Agora ele vai partir para o auge da tortura, esmagar cada um de meus ossos e comprimir meu crânio até ver meus olhos explodindo para fora da órbita. Eu não posso permitir isso. Mas o desgraçado continua:

- Então, eu vou fazer uma confraternização, reunir os amigos.
- Ah, então ta, depois eu te ligo para te dar os parabéns direito e você me passa o local.

Acho que me safei dessa vez.

- Ah, vai ser lá em casa mesmo!

Desgraçado, agora acabou comigo! Eu vou saindo, agora praticamente correndo desesperado, me afastando até onde não mais possa ver o rosto daquele cruel torturador, nem mais ouvir a sua voz sádica!

Agora estou a salvo, mas não pretendo me aproximar mais daquela rua que tanto amo, ao menos até descobrir quem era o desgraçado. Ah, quem poderia me ajudar e permitir que eu resolvesse o problema hoje mesmo, podendo evitar conseqüências futuras?

Desgraçado! Não bastou a tortura do momento. Tinha que deixar seqüelas. Não posso ficar sem resolver esse problema. E hoje ainda.

A caminho de onde eu estava mesmo? O que eu precisava fazer? Desgraçado! Acabou com meu dia!
Jefferson Andrade
Enviado por Jefferson Andrade em 24/09/2007
Código do texto: T666781

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Sobre o autor
Jefferson Andrade
Curitiba - Paraná - Brasil, 39 anos
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