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O espetáculo continua


                                        Ela hoje me disse respeitosamente que já não me queria mais como homem, mas apenas como um velho amigo respeitado. Ontem havia lhe enviado uma linda orquídea branca e lilás de presente. Ela pôs a espécime nos pés de Nossa Senhora, no quarto do andar térreo, para onde se mudou há seis meses e passou a dormir longe do meu corpo. Meu coração nunca lhe permitiu dormir sozinha; ele sempre está ao seu lado. Solitário fica o meu peito sem ele e sem ela. Durmo apenas com a esperança de que o passado retorne e a vida amorosa erupcione e seja novamente bela.
                                      Como nos dói na alma quando vemos arrancada de nossos corações a flor que plantamos com o adubo da esperança e que regamos com o sentimento do conforto de que veremos imensa um dia. Não zelarei mais nenhum jardim. As sementes que a apanhar, jogarei todas ao sol impiedoso para que se queimem todas e não produzam os espinhos desflorados da ilusão e do desencanto. Acharei a minha vida agora entre as pétalas murchas das estradas por onde cruzar a vencer o desaforo da solidão sobrevivente dos meus passos. A ventania forte cuidará de desrregar a minha face, secando as lágrimas doloridas que sobreviverem a tudo isso.
                                      Galvanizando seus sentimentos, o homem tem visitado desejos e engendrado sonhos e sido seu deus e sua loucura. Certamente que não acharíamos nossos castelos oníricos se a realidade, passando em nossas ações, não nos permitisse sonhar e provar do hidromel do Olimpo. Mas dos deuses nada temos, apenas de Deus! Eu, ao contrário dessa maioria, tenho vivido a constância dos pesadelos e tentado, saindo deles, voltar ao convívio da realidade. O que tentei fazer diferente desse sentido e dessa direção queimou meus olhos e despedaçou a alma.
                                Claramente vi quando ela discutia algum assunto com sua empregada. Deixei-a assim e fui à fábrica. Não me demorou o tempo mais que vinte minutos para permitir que eu fosse soqueado por sua ligação telefônica.
      - O que você disse para...
                                Eu tentei responder-lhe que não estava entendendo nada de seu discurso, mas foi inútil. Ela pôs palavras em minha boca e em meus ouvidos e também deles as retirou. E quando não mais suportei a estridência de sua voz, bati o telefone!
                               O dia estava coberto por nuvens encharcadas; até o sol saíra triste e desaparecera. Eu permaneci com um barulho estranho aos ouvidos até a noitinha quando retornei à casa.
      - Já chegou?
      - Por quê? Queria que eu chegasse mais tarde?
                              E quando eu tentei responder a ela, senti suas palavras meigas, mansas, cheias de esperança. Havia luz em seu olhar e o seu coração falava palavras generosas.
      - Vai logo tomar banho, amor?
                              E eu não a entendia e todo esse pesadelo nos durou 31 anos e eu estava lunático, triste, confuso. Mas havia diferenças em seus dias e em nenhuma hora ela era a minha princesa e em quase todas as outras, meu diabo. Em meu inferno não cabia mais ninguém e o meu céu estava por trás das nuvens baças que vi, quando olhei o céu, naquela última hora de nossa convivência no lar.
                            Creio que não há maior dor do que a que nos oferece a loucura da pessoa amada. Eu a vejo semanalmente quando vou levar-lhe revistas e o meu carinho, no hospício de onde ela nunca mais saiu. Quando eu chego, ela me abraça, chora. Noutras vezes me agride e expulsa-me. Não consegui mais conviver sequer um dia fora desse mísero lar e por isso permanecer entre os meus afagos e os dos antipsicóticos que toma regularmente.
      - Você já vai embora?
      - Quer que eu fique mais?
      - Não! Prefiro que me deixe em paz e vá embora e nunca mais volte aqui para me ver. Odeio você!
                              Há três dias fiz 61 anos de idade. Poderia ter recebido pior presente? Quando já ia saindo, ela me puxou pelo braço e disse:
      - Nunca me abandone, meu amor, porque eu só tenho você para amar ou para lhe fazer raiva...
                              Minha companheira chorou. Fui e levei comigo as desesperanças desse último desencontro. Emilie morreu após essa última visita, no dia em que faríamos quarenta anos de casados. Não pude ofertar-lhe meus parabéns. Nem mesmo sei se ela me entenderia ou se caberia fazer isso que pensava. Parabéns por quê? Há peças que destroem teatros; eu não desisto de estrear sempre, mesmo que a cada ato morra um pouco do espetáculo que não escolhi para representar na vida! Enceno dores e estradas que não me levam a lugar nenhum. Tenho uma profunda amizade pelo mundo e pela vida, muito embora desconheça os dois...
Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 29/09/2007
Reeditado em 11/12/2013
Código do texto: T673125
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulino Vergetti Neto
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 59 anos
2382 textos (136565 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/08/17 19:06)
Paulino Vergetti Neto

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