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Despedida

  Eu sentia o vento bater em meu rosto e tudo que eu precisava era fumar. Eu me sentei na areia e acendi um Marlboro. Meus pensamentos estavam desordenados, e assim estava minha vida. Ela estava longe e eu não podia agüentar mais. Enquanto eu assistia ao mar, eu dei um longo trago de meu cigarro. Estava um pouco mais aliviado que o verão estava vindo! Eu ainda podia ver o rosto dela muito claramente na minha frente, eu ainda podia tocar a pele dela, ouvir a voz dela, cheirar o cabelo dela.... Minhas recordações estavam tão claras e frescas que elas me fizeram sentir como se ela estivesse ao meu lado. Meu coração estava batendo tão rápido. Eu nunca tinha sentido tamanha solidão antes! Eu estava completamente perdido. Eu pensei que eu tinha feito tudo direito. Eu quis fazer tudo perfeito. Eu quis ter algo eu nunca poderia ter. Eu quis amar e eu quis odiar ao mesmo tempo. Como eu poderia conseguir um equilíbrio entre estes dois sentimentos?
  Quando eu a segurei primeiro em meus braços, ela estava usando uma saia xadrez e uma blusa agradável. Ela tinha o cabelo dela amarrado em um único rabo-de-cavalo. Enquanto ela se deitava em meus braços senti meu coração batendo dentro de meu tórax. O sorriso afetuoso dela me fez se apaixonar imediatamente por ela. Ela era assim cheia de alegria. Sabe essas pessoas muito alegres e que são tão alegres você tem vontade de odiar? Para elas tudo está sempre bem, e elas sempre querem ver o lado positivo da tragédia. Isso é o jeito como ela era. Ainda, ela era tudo o que eu não era, e isso me fazia sentir completo. Ela poderia me colocar para cima quando eu estava me sentindo para baixo. Até mesmo através das lágrimas dela, uma pessoa poderia ver seu sorriso.
  Mas ela se fora, partira de uma maneira inexplicável e louca. Eu só me lembro de ter visto seu corpo lá duro no chão. O sangue já estava coagulado e grudava em seu peito quando cheguei no local do crime. Eu não tinha idéia de como era a sensação de perda. E ela foi minha grande paixão. De adolescente mesmo, daquelas que marca para sempre a vida do cidadão.
  Estava com a mãe em um mercado quando cinco homens entraram armados. Renderam os caixas da loja e fizeram ela de refém. Ela chorara muito e pedia para sair porque sua mãe começava a passar mal. Os ladrões não queriam saber disso, queriam saber era porque a mulher do caixa estava demorando tanto para conseguir a grana.
Puxavam o cabelo de uma das caixa e brincavam com ela peguntando em que posição ela gostaria de morrer.
  Eu acompanhava tudo através do noticiário ao vivo do rádio e da porta do local.
  Minha menina estava lá a mercê de um bando de bandidos e eu não podia fazer nada, só acompanhar. Aparentemente a policia também não podia fazer nada. Nem o governo e nem ninguém. Tudo que tínhamos a fazer era acompanhar e esperar.
  Esperar pela tragédia brutal, como a morte ou esperar pela tragédia do trauma. E o mais doloroso era que não sabíamos quanto tempo aquilo levaria. Não sabíamos porque o ladrão as vezes é dono do tempo e do espaço.
  Um dos caras pegou a caixa e a levou para debaixo do balcão. Fez terrorismo com ela e colocava a arma em várias partes do seu corpo enquanto fazia ela confabular e narrar sobre a sua própria morte. A mulher mais parecia que iria morrer. A câmera da loja filmava tudo.
Outro cara mandou um dos clientes comer um monte de verdura crua. Mandou mais outros dois lamberem o chão para eles passarem. Um senhor passou mal e eles não permitiram que ele fosse atendido, o velinho morreu ali mesmo.
  Um encostava a arma na cabeça da minha menina e dizia que exigia que a polícia fosse embora. Mas a polícia era dura na queda e dizia que não poderia conceder essa negociação que eles pedissem outra coisa.
  Eu estava agoniado. Andava de um lado para o outro em desespero e até xinguei um policial que quase me leva preso até entender minha situação.
  O cara disse que essa era a única alternativa para ele liberar meu amor e que seria irredutível. Mandou-a escolher o lugar do tiro, mas a menina estava imóvel e nem conseguia falar. Ele decidiu ele mesmo escolher e foi exatamente entre um peito e outro. O sangue espirrou como um jato e ela morreu ali nos braços do bandido. Na mesma posição em que ficara quando nos conhecemos perto da praia. A câmera da loja filmava tudo.
  Ainda fizeram terrorismo durante mais quatro horas com as outras pessoas.
  Eu acho que nunca mais vou me recuperar. Um sentimento de vazio para sempre. E agora fico assim na praia fumando meu cigarro e pensando em sua alma que deve estar sorrindo para mim em algum lugar, talvez na despedida que nunca tivemos.
Malluco Beleza
Enviado por Malluco Beleza em 02/10/2007
Reeditado em 21/10/2007
Código do texto: T677164

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Sobre o autor
Malluco Beleza
Salvador - Bahia - Brasil, 30 anos
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Malluco Beleza