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A DENTADURA

Antônio - o Tuneco, jovem do interior acostumado ao trabalho duro de lavrador. Acompanhava sua santa mãe, desde pequeno, para trabalhar no campo.
De boa índole, se contentava com a vida modestíssima que levava. Não tinha muitas  diversões. Quando muito, uma pescaria. Gostava de pescar, pois lhe dava ensejo de pensar na vida calma e sem grandes ambições.
Mas, com o passar dos anos e sem receber o trato devido foi, aos poucos, perdendo os dentes. Isto era  a única coisa que lhe causava muita tristeza. Gostava de sorrir, como todo jovem, mas já não o fazia há muito tempo. Não olhava para as jovens de sua idade. Como conversar com elas? Ainda por cima, colocaram-lhe o apelido de "banguela". Foi demais para o pobre Tuneco. Jurou para sí mesmo que daria um paradeiro nesta situação que lhe causava tanto aborrecimento. Um dia chegou a chorar maldizendo a própria vida, pois fora convidado para uma festa. E ele não foi. Por causa do apelido? Da aparência? Do que poderia acontecer na frente das jovens?
Tuneco falou com sua mãe. E ela lhe deu os conselhos de sempre: "Ter calma, não se importar com o que lhe diziam, etc."
Mas, desta vez, Tuneco não estava para ouvir conselhos.
Passou a trabalhar mais, sem descanso, inclusive aos domingos. Juntava cada centavinho extra que apurasse. A mãe viu o esforço do filho e aderiu a causa de imediato. Juntava todo dinheirinho que conseguia.
Quando julgaram que  a importância era razoável, foi Tuneco ao Dentista e lhe contou seu problema. O Dentista o examinou e viu que teria que fazer duas dentaduras - uma para a arcada superior e outra para a inferior.
Mas, a importância que Tuneco apresentou dava, quando muito, para a "entrada". Contudo, o Dentista se condoeu da situação daquele jovem sincero e honesto e disse-lhe: "Vou te fazer as dentaduras. Tu me dás a entrada e ficas pagando o resto aos poucos." Tuneco ficou radiante. Era a expressão da felicidade.
E assim agiu o dentista. Tirou os moldes e os enviou ao protético, que fez um excelente trabalho, confeccionando as dentaduras com mestria.
Tuneco foi ao dentista naquele memorável dia e fez a primeira prova. O dentista ajustou-as, fez uns retoques e colocou um espelho à sua frente e disse-lhe: "Sorria"! Tuneco sorriu e... quase desfaleceu de tanta emoção. Não eram apenas dentaduras - era uma obra de arte. Tuneco se achou lindo como nunca. Aquilo era obra de Deus. Foi as lágrimas, mas de emoção. Não havia necessidade de outras provas.
Agora sim, poderia ir as festas, conversar com as pessoas, principalmente com as jovens. Nunca mais seria chamado de banguela. Sua dentadura, sem dúvida, era um passaporte para a cidadania. Com ela se inseria no contexto.
Belo dia, duas jovens, logo duas, convidaram Tuneco para uma festa. Tuneco não cabia em sí de alegria. Falou com sua mãe, que logo lhe deu um daqueles conselhos infalíveis: "Não bebas, pois tu és muito fraco para bebidas." Tuneco respondeu: "Claro, mãe, a senhora sabe que não sou chegado a bebidas alcoólicas."
E lá se foi Tuneco, com um blusão novo, zérinho para a festa.  Chegando foi distribuindo sorrisos para todos. Depois chegou-se para junto de um grupo de moças e com elas passou a conversar com muito gosto, saboreando aqueles momentos raros de sua vida. Estava no paraíso. Mas, sabe-se como é - conversa vai, conversa vem, a sede chega também e Tuneco virou um copo de refrigerante. E depois mais outro e outro mais. Só que, um deles, estava "batizado". Era "Cuba libre". Daí a pouco Tuneco começou a sentir os efeitos da bebida e tomou uma decisão rápida e correta - vou pra casa. Até chegar lá estarei melhor. E assim, sorrateiramente, o fez. Mas, chegou em casa num estado deplorável. A cabeça teimava em rodar e doía como nunca. Tuneco nunca estivera tão mal. Comera também alguns "salgadinhos" que agora, reviravam o seu estômago. Conseguiu, a duras penas, chegar no seu quarto. Sentou-se na cama, tirou os sapatos e o blusão e... apagou.
Dia seguinte, pela manhã, onze horas, talvez, acordou. Uma dor de cabeça terrível que o deixava zonzo, "fora do ar". Aquilo não era uma ressaca - era um maremoto. Com grande dificuldade levantou-se e foi pegar a cuba. A "cuba" era um pequeno vaso de porcelana onde Tuneco colocava as dentaduras. Toda noite ele enchia a cuba com uma solução e mergulhava as dentaduras para que ficassem devidamente higienizadas e limpíssimas. Mas, quando olhou a cuba só viu a solução.
Onde estão as minhas dentaduras, meu Deus? Berrou Tuneco, completamente fora de sí. Não é possível tanta maldade. Pra que sumirem com elas? Seria inveja? Brincadeira de mau gosto? Estava desesperado. Vão ter que me dar conta desta patifaria.
Tirou a calça, foi ao chuveiro (um tubo que saía da parede) e deixou a água cair em cascata sobre sua cabeça que já estava prestes a explodir. A reação foi violenta, chegou a dobrar os joelhos. Aí ficou mais zonzo do que estava. Saiu do banho, pegou a toalha. Quando ía se enxugar olhou o espelho pendurado na parede e se lembrou daquele dia tão feliz. Duas lágrimas correram em sua face. Ainda ouvia: "Sorria !" E ele de olhos fixos no espelho sorriu. Ficou pálido, pasmo, estupefacto - um milagre acontecera - as duas dentaduras estavam no lugar onde sempre devem estar - na boca, ora essa! E gritou bem alto: " minhas dentaduras estão na boca.  E mais alto ainda  -  E S T Ã O  N A  B O C A"
Sua mãe que estava ao lado, ao ouvir os berros lhe disse: "Eu te falei que tu és fraco para bebidas e ficas aí a gritar bobagens. Afinal onde é que tu querias que ficassem as dentaduras?
Tuneco jurou nunca mais beber. Pelo menos à noite. Afinal um milagre deste não acontece duas vezes.































FARNEY MARTINS
Enviado por FARNEY MARTINS em 04/10/2007
Reeditado em 19/10/2009
Código do texto: T680441

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Sobre o autor
FARNEY MARTINS
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 77 anos
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