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ILUSTRAÇAO

   Três delas estavam sentadas no sofá de couro, e a que estava no meio abriu o livro de capa rosa e começou a observar o que se adivinhava ler, numa voz lenta e cheia de sem vontade:
   _...Mas é sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa, eles brigam as paginas inteiras e no final com um esplendido pôr de sol sobre os seus cabelos louros eles se convencem que não podem ficar um sem o outro.
   A da esquerda deu uma espiada por sobre o ombro daquela como que para comprovar, num riso cínico.A da direita estava caindo sobre o braço do sofá como que com sono, bêbada pela luz da tarde se indo e a encher a parede verde da sala pela porta aberta.
   Uma outra, sentada no chão sobre um tapete de retalhos, ficara o tempo todo olhando para os próprios dedos dos pés como se nada mesmo tivesse com o que acabara de ser dito.Mas outra, sentada a poltrona junto ao aparelho de televisão, acendera um cigarro de um maço que tirara amassado do bolso da bermuda jeans, fazendo um barulho imenso ao riscar o fósforo e como a chama animada pegou-se a comentar com a voz deturpada pelo cigarro aceso entre os lábios:
   _ Mas Joelma, é assim mesmo que é a vida...
   E Joelma olhava, com seus olhos grandes de gazela, para o interior intacto e roto do livro já muito usado, esperando mais, esperando mais...numa expectativa inócua.
   _ Assim mesmo como? Inquiriu se manifestando a que estava sentada no chão e que parecia nem estar ai.
   Levando o cigarro entre os dedos, baforou a fumaça pelos lábios entreabertos e também saiu pelas cavidades nasais, assim respondeu enfática:
   _ Brigas, brigas, amor, paz, brigas de novo...Carminha.
   Carminha parecia triste, mas de vez em quando mudava o franzir do cenho para parecer na verdade irritada, principalmente por aquela conversa tola.
   A da esquerda de Joelma ainda continuava espiando por sobre o ombro daquela como se fosse assim vendo imagens; a da direita dormitava quedada, pobre criatura, gordinha, e Joelma acabou fechando o livro e dando com ele naquelas coxas flácidas:
   _ Acorda, Zaira, acorda baleia!
   Todas gargalharam mutuamente com aquela despertando assim assustada como uma criança boba, mas Carminha continuara rindo mesmo quando todas já haviam parado um bom tempinho, e logo se notaram que o riso dela era cacofonico.
   A da esquerda a Joelma pressionou as mãos em punho no meio das pernas como se pudesse acreditar que lá no quintal – que já se fazia escuro – podia estar um homem espiando por baixo de sua saia, e ficou de súbito assim alvorotada e vermelha na pele morena, mas cheia de panos brancos, dizendo com uma voz como de arara:
   _ Carminha está triste, Carminha está triste, já até sei está apaixonada, está apaixonada!
   Carminha voltou o rosto certeiro para esta, cenho franzido, vestindo na face o T da irritação.
   _ Cala a boca, Claudia – esbravejou – parece uma arara repetindo a mesma coisa.
   Não se sabe qual delas inquiriu:
   _ Arara, mas não deveria ser um papagaio?
   As vozes então se tumultuaram, e Joelma abria e fechava o livro nas mãos, enquanto um novo cigarro era aceso.
   _ Lurdes, assim você acaba com seus pulmões menina – disse uma delas.
   Lurdes levantou-se rapidamente, nem mesmo parecera ter saído da sua poltrona, lançara um pouco de cinza porta a fora e tornou-se a se sentar, pouco a pouco ficando a vontade, relaxada e com os braços bem acomodados em sua poltrona, enquanto Zaira parecia observa-la abobada como se esta acabasse de descobrir uma maneira correta.A boca muito aberta de Zaira – que observava soslaiamente Lurdes tragando seu cigarro, mesmo deixava esta mais a vontade em sua poltrona, como que dona de si mesma, dona da situação, senhora de decidir um rumo de uma discussão, assim então que cruzou as pernas, Joelma recomeçou abrindo novamente o livro de capa rosa:
   _...Podiam pelo menos mudar um pouco o final, só um pouco.Não acham?
   Levando o cigarro entre os dedos da mão esquerda, Lurdes soltou novo jato de fumaça para cima, e apertando bem os olhinhos míopes disse compenetrada e séria:
   _ Seria como mudar o “tcham” dos nossos sonhos, de nossa vida.Não ver Joelma que a mola só funciona de baixo para cima, de baixo para cima sem alternar.
   Sim, era assim, Lurdes naquela poltrona, de coxas de fora pelo minúsculo short jeans que vestia, as pernas se cruzando e descruzando enquanto fumava um cigarro atrás do outro, a fumaça lançada ao teto tornando cinza o amarelo-ouro da tarde que se esvaia.A atmosfera se transformava e ali dentro elas se pareciam as mesmas: Carminha triste ou irritada, Zaira abobalhada e gorda, Joelma magrela, teimosa e convencida; Claudia assustada e envergonhada, E Lurdes dona de si mesma, os braços bem a vontade em cada braço de madeira da poltrona pobre.
   Carminha começou a brincar com um retalho do tapete em que se encontrava acomodada, Claudia mesmo a olhou bem espantada notando-lhe um riso silencioso e bem verdadeiro nascendo em seus lábios, mas um riso  de quem se lembrou de algo bem distante, enquanto as restantes pareciam absortas em ouvir Lurdes dizer que tinha o novo numero da Sabrina, não gostava muito das revistas da Julia.
   _ Não, não, somente as historias da Sabrina e da Bianca tem aquela “coisa” – e a ultima palavra fora dita num tom gótico de voz.
   Joelma reabrindo o livro entre as mãos tentou murmurar algo, mas Lurdes a interrompeu com veemência e decisão:
   _ Leia com vontade as coisas Joelma, leia com interesse – espalmava a mão esquerda em direção a esta, que parecera engolir o que diria num:
   _Mas...Já...
   Claudia balançava a cabeça para cima e para baixo, séria, enquanto Zaira dormitava com a cabeça apoiada num dos punhos, esquecida novamente.
   Lurdes falou bem alto assim a despertando abruptamente:
   _ Puta que pariu, Joelma você não absorve nada de útil, só falando assim!
   Zaira acudiu novamente o olhar abobalhado e flácido para Lurdes, enquanto Joelma arregalava os olhos de gazela e um riso contrito saíra de si espontaneamente, e Lurdes aproveitou para preparar um novo cigarro, mas ainda a vontade em sua poltrona, a chama absoluta no fósforo riscando barulhento.
   De repente a luz na parede verde já era um pouco lilás.
   Carminha ergueu-se com dificuldade, ajeitando a saia amarfanhada, pedindo com voz suprimida:
   _ Vamos bater em outra tecla por favor.
   Joelma entregou o livro a Lurdes que o pegou com a ponta dos dedos da mão desocupada, e disse num quase fio de voz:
   _ Tenho certeza que a historia é a mesma, tenho certeza.
   Carminha prostou-se no vão da porta, olhando o quintal cheio de arvores selvagens; a noite já começando ali pelas copas das jaqueiras, onde as galinhas já faziam grande alvoroço se empoleirando e parecia que atrás de si estavam quatro moças remoendo em silencio o mesmo assunto interminável.
   Lurdes levantou-se indo até o cinzeiro em cima do televisor, amassou com vontade o resto de cigarro contra este, estalando bem as juntas dos pés como sabia bem fazer, percebendo o olhar pasmo de Zaira, de queixo caído na sua retaguarda, e o fungar de nariz foi de Claudia como que para quebrar o silencio, e Joelma levantou-se pegando o livro da poltrona, que Lurdes ali o abandonara, e voltando rapidamente para o seu lugar, assim abriu o livro ao acaso e sussurrou audível:
   _ Você venceu, Lurdes, venceu, eu vou ler – e o colocou sobraçado por sob um dos braços numa menção de quem já ia se levantar e sair.
   Lurdes virou-se a favor delas, de pernas bem espaçadas pelo chão como dona do território, e sorriu tirando do maço amassado um novo cigarro, e foi quando Carminha disse suspirando:
   _ Vou até o portão, são quase horas dele passar – e saiu abandonando-as com a definitiva  sinceridade de todas elas durante àquelas horas.
   
                              ***********


06 de março de 2007.

Rodney Aragão.
Rodney Dos Santos Aragão
Enviado por Rodney Dos Santos Aragão em 04/10/2007
Código do texto: T680561

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Sobre o autor
Rodney Dos Santos Aragão
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
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Rodney Dos Santos Aragão