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O dia que Marcelo encontrou Evelyne.

Fazer faculdade fora de hora, depois dos quarenta e tantos, pra mim foi uma experiência muito boa. Por várias razões. A primeira por quê parece ciclo, aproximadamente dez em dez anos desde os vinte e quatro anos, sempre voltei a estudar e segunda e a melhor, é que nunca exerci funcionalmente minhas formaturas. O que me dá uma liberdade de estudar sem obrigações nem vislumbres financeiros.
Na mais recente volta ás salas de aula, Já madurão foi a melhor. Casamento, filhos, profissão, uma vidinha já funcionando bem e feliz.  Quase tudo resolvido emocionalmente. Estudar era apenas o que faltava. E vamos lá, estava eu de novo nas bancas escolares.
A turma toda composta de gente nova, uma meninada e lá estava eu bem no meio. Nome de classe vovô, carinhosamente é claro, nem liguei muito. Sucederam-se os períodos e a aproximação aumentou entre nós. E segundo um amigo meu, quando o mais velho cai nas graças da meninada, torna-se o faz tudo da turma: faz equipes, desfaz equipe, é representante, manda calar a boca etc. Mas, o que o meu dileto amigo não me alertou é que também nos tornamos um verdadeiro confessor. Um vem se queixa de fulano, outro vem diz que beltrano ou cicrano; nos tornamos o centro da psicoterapia evolucionista dos hormônios juvenis em perfeita explosão de afetos, desafetos, inseguranças, “apaixonites” agudas e amores retraídos  e até orientador de moda e de cores de batom. Enfim fazem uma zorra dos coitados dos vovôs. Senti-me todo, todo!
Depois de tudo passado, cada um pro seu lado. Todos só me deixaram mais orgulhoso e hoje na minha escrivaninha me cabe contar tantas histórias, que vivemos, como formas de me encontrar num encontro nem sequer marcado. E como estamos falando em encontros me vem à lembrança o encontro de Marcelo e Evelyne que aparentemente seria mais um encontro casual não fosse a singularidade da situação que me colocou na torcida, não que eu tenha escolhido um lado, mas o fato é que se eu tivesse que escrever um romance e tivesse que narrar sobre um personagem masculino doido varrido, destrambelhado, bagunceiro, criador de caso, eloqüente, falador e ou mesmo tempo respeitador, gentil, cavalheiro, namorador eu teria que chamá-lo de Marcelo. Marcelo era estudante de psicologia, não sei como nem porque estava sempre nas salas de Letras. Em contra partida Evelyne era a encarnação de uma “irmã crente” daquelas que usa a blusa fechada até o colarinho e saia arrastando no chão que num mostrava nem o tornozelo ficando de fora a ponta de uma sandália preta que acomoda os pés cuidadosamente vestidos de meias, branquinhas de dá inveja a qualquer propaganda de sabão em pó.
Quando Marcelo veio se “confessou” apaixonado por Vanessa, a reação da turma foi apenas de: - essa vai colocá-lo em cangas. Perderam-se nos escuros e de desentendimento em desentendimento, nem cangas, nem controles, nem mais paixão e para encurtar a história Marcelo já mudara mandando a fila andar e numa aula conjunta de letras e psicologia, pela falta de uma professora, encontrou-se com evelyne.
E para que o leitor entenda direitinho com aconteceu se faz necessário voltarmos três dias antes do ocorrido:

- Cortou? Perguntei-lhe.
- Cortou o que? Manuel.
- Os possuídos, homem!
- Manuel, Manuel! Tá ficando doido é? Achas que Vanessa merecia, então! Por que não corta os teus.
- Espera aí, meu velho! E que diabos foi aquilo, então.
- Aquilo, o que? Manuel.
Diz Marcelo numa calma irritante.
- Seu filho da mãe! Você me liga à uma hora da manhã, ainda bem estava acordado, diz que está com navalha de barbeiro, olhando seus possuídos, meio choroso, visivelmente desorientado por sua separação com Vanessa, cara. Já vi do outro lado da linha o sangue escorrer, você num hospital entre a vida e a morte.
- Calma! Manuel foi só um telefonema. Não vejo motivo para tanta irritação. Assim num dá mais para conversar com você.
- Seu merda! Você fica no telefone: corto num corto, corto num corto desliga, você acha que eu dormi depois?
- Num cortei, pronto! Satisfeito.
- Eu! Nem estou ligando. Se cortou,  se vai cortar.
- Mas você perguntou, amigão! Você é um dos poucos que tem atenção e cuidado comigo. Obrigado! Obrigado! Uma coisa eu garanto pra você, Manuel. Num levo ela nunca mais no café da Padaria “Grobo”.
Disse meio entre pensativo e choroso. Perdoei. Continuei recebendo-o em meu “confessionário escolar”. Pois não tardou. Depois da aula conjunta e flecha do cupido traspassara seu coração. Nos corredores da faculdade declamava poemas apaixonados enaltecendo a nova amada. A turma perplexa logo se dividiu: uns - coitada da Evelyne, não merece – outros eu já vi tantas santinhas do pau oco colocar rédeas e cangas em desatino.
E no meu confessionário:
- Ta vendo, Manuel. Ta vendo e se eu tivesse cortado, hein, hein? E agora? Meu veio.
Fiquei calado. Decididamente no meu romance, se um dia escrever, já tenho os atributos físicos, psicológicos e comportamentais do que houver de mais maluco na história. Entretanto sou obrigado a crontar sobre a reação de quando Vanessa soube do romance de Marcelo e Evelyne, isto depois. Parece novela, não?
Crontei! Depois eu cronto mais.

Manuel Oliveira
Manuel Oliveira
Enviado por Manuel Oliveira em 05/10/2007
Código do texto: T682512
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Sobre o autor
Manuel Oliveira
Olinda - Pernambuco - Brasil, 63 anos
64 textos (5107 leituras)
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Manuel Oliveira