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ANTENAS

   Fatigados do dia, que de tão tranqüilo não se movera nada, Fátima e Gustavo sentaram-se à soleira da porta de entrada da casa e ficaram olhando o quintal.O quintal estava oco de entulhos.Como se tudo acabasse de desabar, e alguma coisa que restara se levantara só.
   Nada reclamava o movimento deles, no entanto eram eles que reclamavam os movimentos das coisas, se entreolhavam acusando-se mutuamente, nos rostos já curtido de cinquentões à toa que eram.Os filhos já casados, os netos nem os davam trabalho.Quase não os via.
   Levavam uma vida simples e regada.Gustavo ainda trabalhava como marceneiro e Fátima  continuava tomando conta da casa como se os filhos ainda fossem crianças, morassem com eles, e fossem tão levados a correr pela casa e derrubarem um jarro.
   Mas eles sentaram na soleira da porta, porque com a pança cheia do almoço que não acabava assim à toa, eles poderiam matutar...
   E sem querer, como num pacto ocasional, olharam lá para a velha churrasqueira suja e largada no canto do quintal desde o ano-novo.E já se iam para fins de maio.
   Fátima acudiu de fazer um coque no cabelo preto e longo, amarrando tudo com uma caneta esferográfica; Gustavo acariciou os pêlos grisalhos do peito e desviou o olhar da velha churrasqueira para a camisa do seu time, pendurada de qualquer jeito numa corda de varal ao meio do quintal.Fátima o acompanhou no olhar, porque por dentro agarrava-se ap domingo, e o olhar do marido ligava uma coisa a outra.
   Mas se o time dele estivesse bem no campeonato as duas coisas poderiam ter uma ligação encorajadora – desanimou ela convencida.
   Gustavo continuava com os olhares que se encontravam nestas duas coisas.E o calor, que apesar de outono, se fazia! Rio de Janeiro...Imaginou uma praia: tão longe que as ondas, na imaginação, tornaram-se espumas de cerveja.
   -Estava pensando - foi tentando ele a olhar para os pêlos do peito que cofiava.
   Fátima sentiu-se febril de uma esperança infantil.Conteve-se...
   -Que tal fazermos uma obra nesta casa?
   Fátima viu de fato que toda sua infantilidade ainda fora maior, e apesar de não ter gostado, não podia deixar de aceitar que ele pensara grande como um homem grande.
   -Não vai custar dinheiro – fora só o que ela soube perguntar na hora.
   -mas é claro que vai – disse ele a olhando, convencido que ela se tornava infantil de propósito.
   -Mas, obra basicamente em quê? Quis saber ela encolhendo-se nos ombros.Riu de si mesma no que mesmo achou afetado o seu jeito de falar.
   -Obra geral – falou ele desconsertado como que já arrependido de ter puxado por aquele lado.
   Fátima suspirou num leve gesto de cansaço, e foi Gustavo que continuou:
   -Estava pensando...no piso, no piso – falou entusiasmado, achando realmente uma caminho fácil.
   -O que tem o piso? !
   -Tem nada, este é o problema – falou ele a observar o quintal – é por isto que penso em ardósia ou ladrilho.
   Fátima desfez o coque, colocou a caneta entre os lábios, ficou prendendo os cabelos entre as mãos enquanto enveredava:
   -Vai me dar mais trabalho, acho bom deixar como estar.
   A tarde estava amarela e não cedia e era possivelmente obvia as coisas à frente deles.
   -Então...Procurava ele enquanto cismava com um bigode que já não tinha desde a semana passada.
   Fátima deixou os cabelos correr livre pelos ombros, e com a caneta foi separando os dedos de um dos pés.
   Gustavo olhava para todo quintal com espaço ocupado por entulhos: então...o tubo velho daquele televisor que fora da época em que as crianças ainda eram crianças; então...o velho carrinho de mão emborcado junto a um monte de pedras que de tão antigas já nasciam até samambaias em volta; então...o velho tanque enrugado aposentado pela máquina de lavar tão bem protegida na área; então...o muro que crescia ainda mais a cada possibilidade nova de idéia.O muro não podia ser mais possível ou mais um pouco deixariam até de ver o céu.
   Então?...
   -A churrasqueira...Palpitou Fátima vendo que olhar dele então se dirigia.
   -O que tem a churrasqueira? Fora ele um pouco crispado.
   Fátima sacudiu os ombros sem ter como continuar, deu um riso fraco todo para os dedos do pé espaçosamente aberto no chão.
   A tarde na cedia: amarela da cor de um girassol.
   -Estava pensando...pensando numa cisterna – foi ele já cansado de ter que ter idéia.Será que havia edição da tarde na banca da esquina?
   -Cisterna – perguntou se perguntando Fátima.
   -Não sabe o que é uma cisterna? Foi ele cheio de malicia nos olhos e no sorriso.
   -Claro que sei, é para se tomar banho dentro – foi ela se divertindo em bancar a tola.
   Gustavo notou o tom de ironia na tolice dela, e calou-se compreensivo com seu relativo humor.
   Um bem-te-vi pousou sobre o velho tanque, não encontrando nada, nem cantou e partiu para a busca do céu onde o som de seu grito se perdeu no barulho do avião, que cruzava o céu, truculento.
   Fátima queria tanto por isso, para se fazer de desinteressada, olhou para dentro da casa numa expressão facial preocupada de quem ouviu um barulho lá dentro.o silêncio reinava lá dentro na claridade abusiva da tarde insistente.
   Uma criança gritou lá na rua, e alvoroçou algo dentro de ambos.Não tiveram força de ânimo nem para uma tola curiosidade.
   O desejo realmente era que tudo continuasse parado como um indignado de boca aberta ao dia cálido.
   Escutaram a voz distante de alguém, que não sabiam de onde vinha, que estavam animados  como se o dia não fosse aquele.
   E procuravam esgotados de si mesmo, todavia com a pança cheia.Era só esperar o tempo passar um bocadinho que Fátima iria passar um café.À moda antiga com coador de pano.Ambos adoram.O cheiro do café se sentiria além do muro altíssimo que os escondia, e escondia deles o mundo.
   Sentiam um pouco de vergonha de confrontar o mundo, como se fossem culpados pela barriga que nele crescera, nos cabelos que já queriam grisalhar.Achavam-se sempre obrigados a fazer alguma coisa.Nem que fosse apenas pensar.
   Ajeitando as barras do short, Fátima foi recomeçando:
   -Mas afinal onde vamos fazer a obra?
   O olhar dele fugiu todo em busca do céu, e era como se não tivesse ouvido a indagação dela, até que de repente:
   -Não sei, acho que não estou a fim de fazer obra; vai gastar dinheiro, mão de obra e tempo.
   Fátima gostaria de perguntar: O que fariam então? Mas sentia que não era cabível.Era um deslocar de sentido nas coisas.Deviam se sentir desobrigados, porque não tinham obrigação com aquilo que lhes diziam respeito próprio.
   Mas ela sentia um dever, um dever tão grande.Só não sabia a quem devia está obrigação.
   -Guga!...
   Ele se assustou como se ela o chamasse por outro nome.
   -Onde você saiu com isto? Foi ele rindo com malicia.
   -Como assim?...Fingiu ela se perturbar – eu o chamava assim quando éramos namorados.
   -Faz quase trinta anos; se não faz...
   -Não gostou?...
   -O que você ia dizendo? Foi ele um pouco crispado e tenso.E a tarde não cedia, implacável.
   Havia esquecido, era verdade, e tentaria qualquer outra coisa.
   -Por que não faz um guarda-roupa novo para a gente? Foi ela animada, afinal era isto mesmo que pretendia propor.
   -Estou atolado de serviço lá no Marcão...
   -Mas nas horas vagas, devagarzinho, aos pouquinhos, assim, assim...
   Gustavo divertiu-se com o jeito dela falar, procurou rir educado.Ergueu-se de súbito e foi até a corda resgatar a camisa do seu time.Fátima pôs-se de pé e alerta.Um estandarte dentro dela avisava: domingo seria dia bom! E os netos...Os dois filhos e as duas noras.Teriam um planejado, bom domingo, de véspera.Já podia ver tudo, enquanto Gustavo vestia a camisa do seu time e anunciava que ia ali na esquina comprar o jornal.
   Fátima foi passar o café à moda antiga, num sorriso infantil que não lhe saia dos lábios.Realmente esperando, acreditando; mexendo com a colher o pó no velho coador de pano, suspendendo o coador via que o café descia em caldo grosso e escuro.
   Era a mulher mais feliz do instante.E seus instantes eram destes que demoravam, mas quando acabava eram de cair drástico na monotonia.Por isso ela aproveitava o máximo como se pudesse acabar já.
   Quando Gustavo voltou, a tarde já cedia roxa e um pouco fria; ele trazia o jornal debaixo do braço, o rosto vermelho e mais cansado.Ela voltara para soleira da porta, com um copo de café fumegante na mão, que cuidadosamente levava a boca.Esperou como que obediente o beijo que ele a deu, inclinando-se, e o bafo de bebida...
   Agora tinha certeza...
   Então quase perto do dia tal, ele chegando com a caixa de cerveja ao ombro, depositou-a no chão junto a geladeira, e olhou para a esposa que estava encostada a pia numa já dúbia alegria na face.
   -Estou pensando...Vai ter briga, sempre se tem briga quando se reúne a família.
   Seria o caso de...
   Não.E o que fariam com a cerveja já estava sendo posta no congelador?
   O razoável é que na televisão anunciara a chegada de uma frente fria, para este sábado ao cair da tarde; com muita chuva, frio e ventos fortes, principalmente no domingo.

                                               ***


AUTOR: RODNEY ARAGÃO

  19 de agosto de 2005
Rodney Dos Santos Aragão
Enviado por Rodney Dos Santos Aragão em 07/10/2007
Código do texto: T684691

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Sobre o autor
Rodney Dos Santos Aragão
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
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Rodney Dos Santos Aragão