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Um Poeterário em Construemoção

            Um poeterário em construemoção.


      Saindo dali, o operário, todo sujo do trabalho, subiu uma rua paralela à Avenida 23 de Maio e andou até o Centro Cultural São Paulo, aquele que queriam mudar de nome, aliás, coisa que não achou muito boa, não...  Poxa há tanto que costuma se refugiar ali sob a marquise de entrada, depois do expediente para relaxar, vendo o movimento.
       - Imagina mudar o teu nome? Para quê se ele é tão bonito igual ao da cidade. É, nada disto. Vai é ficar assim. E outra: como podem querer mudar o nome de um lugar sem ao menos, consultá-lo? Afinal, eu sou ou não  cidadão desta cidade? Oras sou eu quem a constrói... Então que venham falar com comigo e veremos! E tenho dito - como diria alguém importante.
        Sentou-se e ficou observando o entra e sai de gente que ia estudar na biblioteca... Ah! Quisera poder voltar a estudar. Sabia ler e escrever um pouco, o suficiente para se virar como podia, mas sonhava em ser doutor. Não, doutor não; queria mesmo era ser poeta!
       Virou um gole de cachaça na boca e brindou seu sonho, como se ele estivesse ali, bem ali, vivo, acontecendo...
        De repente, lembrou-se de coisas que acreditava ter esquecido: a casa, os filhos e as noras que abandonara depois de elas o terem enganado, fazendo-o assinar papéis de uma suposta aposentadoria... Na verdade, fora usado e pelos próprios filhos! Não teve dúvidas: pegou um rumo sem rumo, ao gosto do vento e se foi, sem deixar rastro. Já que a esposa tão querida também já não mais existia, a não ser em suas lembranças... Resolveu viver sozinho; trabalharia em São Paulo, cuidaria de si e pronto! E se não conseguisse, ficaria pelas ruas, perambulando...
       - Morrer de fome não vou, pois sei que tem muita gente boa em São Paulo. E sei que terei um novo lar nesta cidade.
       Sacudiu o pó da roupa da construção, tomou mais um gole e saiu:
       - É, ta na hora de ir para casa, afinal esta cidade anda um tanto violenta.
       Pôs o radinho de pilha na mão, levando-o ao ouvido para ouvir música. Sintonizou numa rádio que o pessoal do serviço dizia que era a cara de São Paulo.
        O vento no rosto e a música que tocava – acho que aquilo era o tal do rock n’ roll - , de repente fizeram-no sentir-se tão bem que pensou:
       - Amo São Paulo! Sei que não tenho uma casa confortável, nem o melhor dos empregos, nem ando bem vestido ou coisa assim, mas esta cidade toda é minha casa e todos aqui são meus irmãos. Tudo bem que, às vezes, alguns são mais inimigos do que amigos; mas é coisa de cidade grande – todos querem lhe chamar a atenção! Pois que tentem, eu tenho um plano que não falha, e vai dar televisão e repórter de montão: vou morrer numa sexta-feira, às dezoito horas, na contramão, atrapalhando o trânsito, como disse meu amigo Chico Buarque... Aliás, ele é paulistano? Nem sei... Bem, não importa; o que importa é que assim esta gigante flor de concreto certamente notará que estou aqui ou que estive, não é? E verá que, apesar de haverem muitos como eu que te erguem e te embelezam todos os dias, nenhum deles te quer tão bem quanto eu quero!
        E lá se foi, pensativo, olhando: alguns apresados; outros estáticos em frente às vitrines; vozes, risos, choros; gente que passa e, gente que não tem para onde ir...
        - Sim, eu sei que dentro de ti palpitam amor e ódio, vitórias e fracassos, desejos e ilusões, esperanças e desespero como em mim também. Mas, se me deres uma chancezinha, lhe mostro o tamanho da minha paixão e é o que me basta.
         Todos ao seu redor olharam espantados para ele, só então se deu conta de que estava gritando no meio da rua.
        - Poxa – pensou -, preciso me controlar!
        Então, voltou aos seus devaneios e, vendo uma família de rua, falou para si mesmo como se falasse para a cidade:
        - Às vezes, tenho a impressão de que tu preferes os infortunados de casa, pão e colchão, que andam por tuas ruas, sem nada lhes acontecer e a mim, nem me permites sair de casa para admirá-la.
         Será isto? Preferes abraçar os pobres se encolhendo e tornando-se pequena para envolvê-los como que desejando consolá-los pela desigualdade em que vivem, da qual inclusive não tens culpa?
         - Ciúmes? Não, não...  Apenas queria talvez adormecer e sonhar que sou um destes irmãos e sentir se é realmente isto que te faz mãe e madrasta ao mesmo tempo.
         Sim, eu sei que não os acolhes como gostarias, mas que de um modo ou de outro, tu agasalha-os em teu seio de pedra aparentemente frio e indiferente... Mas, só aparentemente. E eles? Será que notam teu sorriso quando pisam em teu chão ou teu desconsolo quando vão embora? Ah! Minha cidade será que alguns pelo menos, notam?
        TRRRIIIIIMMMM!!!!!
         - Ô droga de despertador! Será  que nunca conseguirei terminar minha declaração de amor, pô! Ah! Deixa pra lá... Afinal, é mais um dia para tentar desvendar seus mistérios, seus amores, seu magnetismo que atrai e trai tantos poetas do povo que vêm de longe para tentar escrever uma linha pequenina de suas histórias nos arquivos de sua memória, São Paulo. Poetas sem técnica ou rima, mas cheios  de esperança e vontade de trabalhar como eu...

                  ESTRIBILHO

   Um viva ao teu povo,
   Um viva ao teu solo.
   Que recolhas em teus olhos,
   O singelo viver de cada ser;
   De cada operário de tua colméia
            Que encontra em tua vida,
   Uma razão para ser feliz e vencer...

         
                                  FIM (?).



      Nota:
           - Ah! Quisera ser um operário... Ele sim é um poeta: o poeta da construção! E se soubesse o quão difícil é ser poeta, talvez desejasse apenas ser doutor que só lida com o coração e não com a cor e a ação que vão dentro do sentimento que, muitas vezes, ninguém consegue explicar ou definir... Ei, talvez ele consiga, quando põe as mãos na emoção de erguer e transformar esta imensa mutante chamada São Paulo.
            E é assim que descobrimos que és tu, simplesmente. Que não adianta te definir, basta saber que ninguém é capaz de viver sem ti, e ponto.


                                           São Paulo, 24/11/2003.

Eliane Santana
Enviado por Eliane Santana em 09/10/2007
Código do texto: T687830

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Sobre a autora
Eliane Santana
São Paulo - São Paulo - Brasil, 41 anos
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Eliane Santana