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LEMBRANÇAS PRA QUANDO EU ENVELHECER

Uma coisa que sempre me intrigou e que ainda hoje desperta em mim profunda curiosidade são aquelas pessoas que saem de suas casas em direção ao Shopping Center para simplesmente nada fazerem se não perambular pelos seus corredores vítreos.

Por certo que todos os homens que leram esse primeiro parágrafo sem titubear disseram, mesmo que apenas para si mesmos: “somente as mulheres são capazes de tal” ou “ah, isso é bem coisa de mulher mesmo”. Quisera eu também acreditar nessa afirmação um tanto machista, mas pude comprovar outro dia enquanto observava discretamente aquele universo, que não apenas mulheres, mas muitos homens, jovens, velhos, crianças, adolescentes, pré-adolescentes, adultos, pretos, brancos, homossexuais, de todas as classes sociais, e estilos, desde senhoras ostentando um ar soberano digno apenas da burguesia até mocinhas com cabelo vermelho e tênis sujos e com brincos na língua, desde aposentados – daqueles que se costuma ver sentado nas praças ostentando boinas nostálgicas – até crianças que tentam com muita dificuldade se comportarem como adultos.

Da pequena mesinha - que mal cabia a xícara de café - onde eu estava sentado, a primeira conclusão que tirei foi a de que sem dúvida aquelas cadeiras eram anatomicamente projetadas para não serem confortáveis, assim o freguês não suporta ficar muito tempo sentado e logo vai embora, abrindo espaço sem demora para outras vítimas se sentarem, e assim sucessivamente. Mas nesse dia eu não estava disposto a colaborar, mesmo que isso me custasse dores pelas costas mal acomodadas.

Daquele lugar podia observar fartamente os transeuntes que iam e vinhas de um lado para o outro, sem destino, sem motivação, apenas iam e vinham, como se andassem num parque numa tarde tranqüila de domingo, e com a vantagem de que lá se podia ir tanto de dia quanto de noite, tanto com chuva, tanto com Sol, pois o cenário nunca mudava.

Pus-me a observar atentamente o semblante dos que por ali passavam, tentando encontrar as respostas para minha curiosidade, então concluí: quando estavam vagando pelo Shopping todas aquelas pessoas, sem exceção, mesmo tão diferentes, naquele momento eram iguais, pois traziam uma normalidade unívoca que se materializava em cada olhar, como se para estarem ali tivessem vestido - ou investido - um comportamento padrão. Nessa altura minha lombar, já bastante castigada pela idade, demonstrava os primeiros sinais de fadiga.

Certamente a maioria daquelas pessoas nada compraria em nenhuma daquelas lojas que se confundiam entre vitrines e anúncios, no máximo comeriam um lanche pré-fabricado ou tomariam um daqueles sorvetes que, apesar de coloridos e gelados, gosto algum podia se sentir.

Sempre evito ao máximo ir naquele lugar, por uma simples incompatibilidade entre mim e aquele que se espera que eu seja estando lá dentro, talvez pelo meu excesso de consciência que nunca permitiria que eu pudesse ser tão normal quanto os outros. Mas nesse dia foi inevitável, tinha de pagar uma conta, mas como já tardara o horário comercial, só me restara à agência do correio que sempre ficava aberta durante a noite, pra meu azar maior, justo naquela hora, a moça do caixa disse-me: o sistema está fora do ar, daqui uns quinze minutinhos provavelmente poderei atendê-lo. Tomado por uma súbita indignação, sentia o ódio crescer dentro de mim e tudo que eu queria era gritar os xingamentos mais obscenos que consegui-se lembrar enquanto esmurrava a tal máquina até fazê-la voltar ao ar de que tinha se perdido, mas tudo que consegui dizer foi o que se esperava que um velho como dissesse: então vou ali tomar um café e depois volto, obrigado.

Sabia que os tais quinze minutos era uma dissimulação para evitar a minha total frustração e que consequentemente eu fosse embora, a verdade é que eles poderiam se estender até se transformarem em horas, mas ainda sim resolvi esperar e agora, livre da xícara, podia apoiar-me sobre a mesinha para ajudar a espinha a sustentar o corpo. Pouco mais de vinte minutos haviam se passado e a moça do caixa, que de longe eu avistava, prestava serviços de manicure às próprias unhas.

A implicância com o Shopping desde muito cedo me era presente, custava conceber pacificamente a idéia de que as pessoas iam até ele para fazerem de tudo, ou quase tudo, menos compras. Lá rola paquera, conversas, reuniões de família e amigos, brincadeiras, passa-tempos, mas acima de tudo os passeios.

O romantismo do parque onde muito tempo atrás eu passeava em comunhão com a natureza, de onde se podia ver o pôr-do-sol ou contemplar o ar fresco que as árvores altas guardam embaixo de suas copas, foi substituído pela plasticidade daquele cenário comercial. Mas o que mais me incomodava, e ainda incomoda, era os transeuntes passando por mim, todos ao mesmo tempo perdidos de si mesmos e eu não era mais que um fantasma sem lugar naquele universo.

Meu último pensamento antes de pagar o café e finalmente livrar meu corpo daquela cadeira de tortura medieval disfarçada, foi o de uma enorme granja, onde se acomodam tantas galináceos quanto possível, nenhum deles sabe porque está ali e nem se interessam por isso, simplesmente ficam a ciscar e a piar de um lado ao outro, despretensiosamente, não esperam nada de novo, e por serem tão iguais não acontecem conflitos/questionamentos. O shopping era uma enorme granja, e eu era o patinho feito dentro dela.

Passados exatos 32 minutos, vesti novamente minha boina e voltei ao caixa onde algumas pessoas pareciam ser atendidas, mas ao me aproximar ouvi a mesma moça dizendo com a mesma inexpressão de outrora: o sistema está fora do ar, daqui uns quinze minutinhos provavelmente poderei atendê-lo.


RH
Ricardo Henrique
Enviado por Ricardo Henrique em 12/10/2007
Código do texto: T690804
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Sobre o autor
Ricardo Henrique
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 34 anos
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