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A DECISÃO

Era domingo e o relógio rodeava às 7 da manhã. Ela sentiu o seu corpo todo doer-era como se tivesse levado uma surra “daquelas”, mais ou menos como a que levou quando era criança como um castigo por ter ido brincar na casa de uma amiga e esquecido a hora. Aos poucos começou a ouvir os ruídos matinais. Na cozinha, as panelas batiam em sintonia e do bule saiam vapores perfumados de café. Aquele cheiro a despertou e, lentamente, resolveu levantar-se. Sentou-se na cama e sua cabeça latejava. Um primeiro e insistente pensamento veio-lhe a mente: “Preciso contar a verdade. E tem que ser hoje!”
Depois de ter passado uma boa meia hora sentada na cama, tomou coragem e foi até a cozinha. Dona Rosa,a governanta, tinha saído, provavelmente para ir à padaria ou ao mercado... Estava só em casa. “Melhor assim”, pensou, “penso melhor quando estou só.”
O café fumegava na xícara emanando seus perfumes e a sua cabeça fumegava atrás da melhor forma de dizer aquilo. “O que será que ele vai pensar a meu respeito? Como ele vai reagir? Por onde eu começo a falar?” E junto com aqueles pensamentos, veio-lhe também uma tremenda agonia. Era o tipo de agonia que não deixa os corpos ficarem inertes. No auge da sua inquietação, resolveu sair um pouco. Já não achava tão interessante estar só. “Se eu não falar, estarei sendo infiel a mim mesma!”, refletia. Ao chegar à porta começou a cair uma chuva branda. Ele chegaria dentro de uma hora. Resolveu então não pensar naquilo. Não queria mais pensar em nada sequer. E fechou os olhos diante da porta entreaberta. A chuva beijava-lhe lentamente o corpo, já não era mais suave e se jogava em pingos espessos, violentos, deliciosos... Sentiu-se inundada de divino por dentro e por fora. Era como se a chuva tivesse levado embora suas angústias. Estava decidida agora. Iria contar tudo. E seria hoje.
Quando ele chegou, os cabelos dela ainda estavam molhados, o que lhe dava uma suavidade sensual. “Ela está linda.”, pensou ele. Os dois se entreolharam por alguns segundos. Um silencio cruel se fazia presente. Ela estava segura. Enquanto se trocava, depois do seu banho de chuva, ensaiou palavra por palavra o que precisava dizer. Era chegado o momento. Ela perguntou como foi o dia, como tinha sido o trabalho e disparou-lhe uma série de perguntas triviais (das quais não lhe interessava nem um pouco a resposta) a fim de preparar o terreno para a revelação. Ele não falava nada. Apenas observava e  a respiração dela estava cada vez mais acelerada. Depois de todas as perguntas sem resposta, ela disse: “Você não me ouviu? Não vai responder nada?” Ele segurou as suas mãos
com uma ternura que beirava a piedade, uma lágrima brilhava-lhe no canto de um olho, ele baixou a cabeça por uns instantes, respirou fundo e disse: “Tudo isso não pode ser amor. Não tem sequer uma chance. Adeus.” E foi embora, sem dizer palavra.
Ela irrompeu num pranto que não sabia definir se era de alívio ou de saudade. Resolveu depois ficar em silêncio. Não precisava dizer mais nada agora. Estava tudo acabado. Ele havia descoberto tudo sem a necessidade de palavras. Sentia-se mais leve, afogada na sua auto-fidelidade. Um tímido sorriso enfeitou-lhe os lábios. Estava feliz. E novamente sentiu sua alma lavada, como depois de um banho de chuva.
Samantha Medina
Enviado por Samantha Medina em 16/10/2007
Reeditado em 08/12/2009
Código do texto: T696353

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Sobre a autora
Samantha Medina
Recife - Pernambuco - Brasil, 30 anos
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Samantha Medina