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Uma longa história curta

Era um amor assim:
Ela apareceu do nada. Como um anjo caído do céu. Seu corpo brilhava aos meus olhos. A voz era a mesma dos meus sonhos. Eu soube, alí, que tudo em minha vida iria mudar.

Inicio
Ao telefone.
_Liguei pra saber se está tudo bem...
_Que bom que ligou!Senti tanto sua falta.
_Vai vir me buscar na faculdade?
_Claro!Sairei um pouco antes do fim do expediente aqui no trabalho e passo aí.
_Vem logo, tá?Eu estou morrendo de saudade.
_Está linda?Do jeito que me faz apaixonar?Com aquele vestidinho de alças e tudo???
_Estou sempre linda. Venha bem comportado. Nada de camisetas, viu?
_Pode deixar. Vou como um príncipe. Beijos, Muitos.
_Outros. Tchau.

Meio
Ao telefone.
_Homem do céu, cadê você??Já te liguei um milhão de vezes!!!
_Oh, meu amor!Estou no studio em uma reunião desde cedo... Acabou agora. Acabei desligando o celular para evitar constrangimento. Os problemas com os prazos estão nos deixando loucos.
_Custava ligar ou mandar uma mensagem avisando???
_Peço desculpas pelo silencio. Não imaginei que a reunião pudesse demorar tanto.
_Tá... Não precisa vir me buscar. Vou pra casa de vovó. Amanhã volto com meus pais.
_Não tem que ficar tão irritada... Se quiser passar o fim de semana na casa de tua avó faça isso e descanse...
_Eu estou cheia de trabalhos da faculdade pra fazer... não vá lá pra casa muito cedo no domingo, tá?Tenho muita coisa pra estudar!

Reta final
Sábado. 16h22min
Ao vivo, na oficina que também me servia de casa.
_Está tão quieta... Sinto você escapando por entre meus dedos...
_Estou muito cansada. Confusa.
_Sinto que esta pressão de estudar e trabalhar estão levando boa parte do ânimo de nossa relação.
_Entendo seu apelo... Mas não sei o que fazer (chorando) .Tudo está tão confuso pra mim.
_Eu lhe sinto escapar por entre meus dedos. Sinto morrer os nossos sonhos. O casamento, os filhos... Tudo parece bem distante agora.
_Preciso de um tempo. Estou confusa demais...
_Não terá este tempo. Não entendo este lance de “tempo”. Não preciso de tempo nenhum pra definir o que sinto por você, o que quero do relacionamento...
_Estou confusa sobre meus sentimentos.
_Melhor pararmos por aqui...
_Eu não sei....
_O que não sabe???
_O que sinto.
_Se não sabe é por que não tem mais amor para que continuemos...
_Talvez não seja isso...
_Tem amor em você para unir-nos por longos e dolorosos anos, acha isso???
_Não sei.
_Se não sabe é por que não tem.
_Talvez eu precise ficar sozinha...
_Se me perguntasse a mesma coisa eu saberia o que responder.
_Não vamos fazer disso uma guerra... Então tá.... Acabou! A-ca-bou... É isso o que quer, não?
_...
_ Eu sei o que quero deste relacionamento desde que te vi. Na primeira troca de olhares... Sempre soube.
_Não tem que ser assim.
_...
_Eu tenho um congresso de estudantes em Minas Gerais...
_...
_Vou passar vinte dias sem te ver??? (Olhos fixos no chão, pensativo).
_Prometo pensar em nós... Nesta situação toda, enquanto estiver na estrada.
__...
_Quando voltar terá uma resposta.
_...
_Não fique assim (voz trêmula)
_Faz idéia do quanto é importante pra mim, hoje?
_Maaaaaais do que ninguém sabe do quanto dirigi meus últimos esforços e lutei contra tudo e contra todos para estar aqui, com você hoje. Simplesmente me diz que nada disso tem importância pra você???
_Não falei isso...
_Sei exatamente o que está nas entrelinhas. O que está tentando fazer...
_Não queria que fosse assim... Que quer que eu diga?
_... (ele não tem palavras)
_... (ela não tem mais como falar sem magoá-lo.).
_Olha... Me desculpe.Eu... Não posso te obrigar a ficar ao meu lado.
_Só me deixa pensar, homem... Só estou confusa...
Os olhares de ambos procuram um lugar no infinito para se abrigarem.
_Sei que está sem dinheiro... Deve ter só as passagens, né? Tenho algum dinheiro ali na gaveta. Pegue. Não me fará falta.
_Não precisa.
_Meu dinheiro agora está sujo pra você?!....
_Não é nada disso!...Tá, eu pego. Quando eu voltar te devolvo.
_Estou lhe doando, não emprestando.
_Olha, não fique assim... Vou ter que ir agora. Quando voltar... Terei uma resposta.

Vinte e dois dias depois. Sábado à noite.

Uma frase ecoa em meu cérebro. Eu desço a rua e tento olhar para o chão.
Andar e cumprimentar as pessoas sem deixar que percebam o quanto estou abatido.
“_Cheguei à conclusão que não dá mais certo. Procure entender. Não dá mais. Sua felicidade é minha tristeza e minha tristeza é sua felicidade... Não vamos prolongar mais isso. Quero estudar, quero viajar por aí... e você quer uma vida que me faria sofrer...”

Penso nos filhos que nunca iremos ter... Na casa em estilo holandês que nunca sairá do papel. Nas coisas do enxoval que se amontoam em meu quarto. Tento não chorar alí. Homem não chora. Mas eu sou menino... Entro em casa. O galpão nunca pareceu tão escuro e espaçoso. Escorrego pelas paredes. Sento sem forças... Choro por muito, muito tempo. Em silêncio.


(O prólogo )


- Oi, você está bem? Tenho tido uns sonhos estranhos e visões estranhas, onde você está muito abatida... Está acontecendo algo?
- Oh, que bom que ligou! Estou tão nervosa! Há dias que não durmo. Estou tão triste... (chorando)
- Calma! Me diga com calma o que está acontecendo, sem chorar, está bem!?
- Oh, meu Deus! Ele morreu nos meus braços. Morreu nos meus braços.
- Quem, criatura?... Quem morreu?
- O pai de Milena!
-...
- Ele teve um enfarto, caiu em plena rua e eu tentei prestar socorro! Tentei ajudá-lo... Oh, como lamento!
- Eu gostava muito dele. Sempre foi muito gentil comigo. Sinto muito.
- Oh, Deus... Vem me ver! Eu preciso tanto de você aqui.
-Ok!Ok! Passo aí à tarde. Tente ficar calma. Eu vou logo. Procure descansar.
Eu chego lá pelas 15h30min h. Com flores, uma cesta de Cookies finos. Ela está no sofá. Abatida, frágil, quieta. Me olha com tanta ternura que paralisa meus membros.
Eu sento delicadamente ao seu lado. Compadecendo-me da sua dor, tomo-a em meus braços. Seu perfume, seu calor. É irresistivelmente igual. Ela chora em meu peito, aperta meus ombros com as unhas. Encaro meus medos, alí.
Ela adormece em meus braços. A vida acalma naquela tarde.

(Janeiro de 2003)

Eu ligo. Do outro lado uma voz familiar atende. Macia, inconfundível.
- Oi.
- Olá, jovem.
- Liguei pra falar com tua mãe.
- Ligou no meu aniversário para falar com minha mãe? Sei.
- Tá, confesso... Queria ouvir tua voz.
-Você vai vir amanhã, pro meu almoço, não vai?É meu aniversário.
- Não sei se devo.
- Não vá me fazer uma desfeita dessas.
- Ok!Mas não devo demorar. Não sei dividir a atenção com ninguém.
Ela concordou em me dar a devida atenção. Eu concordei em ir.
Às 14h, eu apareço com flores, chocolate e um presente. Ela está linda. Um encanto. Eu torço para que não me arrependa. Almoçamos todos juntos. Eu fico por lá. Após o almoço ela some. Quando reaparece ela está mais linda ainda. Meu peito arde. Meu instinto dispara.
- Vai sair? Achei que ficaria aqui, com a família... Comigo.
- Tenho que ver umas coisas da faculdade. Mas fique aí, volto logo e minha mãe adora quando você aparece. (não precisava de um vestido assim)
- Eu... Vou ficar um pouco mais e depois vou embora. Não sei se irei estar aqui quando você voltar.
Ela entra em um carro e some rua acima.
Eu espero. Espero. Espero.
Ela voltou depois das 22h.
Descabelada. Diferente. Amarga.
Prendo a respiração.
- Estou indo embora. Vou fazer mestrado na Europa.
- Quando volta? (meus olhos esmorecem)
- Não volto.
Ela voltou...  Eu não sabia e fui levar um ploter que prometi a mãe dela.
Quando olhamos um para o outro, sentimos que o passado era uma ferida que não sangra, nem cura.
Não havia o que dizer. Nem como ser dito. Ficamos a sós uns poucos minutos. Ofereci ajuda:
- Eu preciso do novo número da tua agência e conta bancária. Tentei depositar uns valores pra te ajudar, caso precisasse...
- Mudei o número. Não preciso que me ajude. Nunca precisei da sua ajuda.
Estava em Natal (RN), quando as esposa de um amigo me falou de alguém que havia ligado pra lá, querendo falar comigo. Talvez ela quisesse se redimir pelo que havia dito.
Nunca soube. Nunca saberei.
Talvez quisesse um outro amor. Talvez o sexo não fosse bom o suficiente. Talvez conhecer a Europa fosse mais excitante sozinha. Talvez um novo amor tenha surgido entre o tempo em que nos conhecemos e o tempo em que acabou. Talvez os nossos “sonhos” não fossem mais os sonhos dela.
Talvez um dia eu possa me livrar desta sensação de fracasso.
Talvez.

*
Esta é jovem, tem quase 19 anos. Quer que eu seja o primeiro homem em sua vida.
- Me guardei pra você! Me faz mulher. Me faz crescer?
Neguei por duas vezes. Ela é linda, tenra e deliciosamente jovem. Carente. Enfeitiçado estou então pelo odor de novo, de único, de um perfume que refresca a alma... Eu suporto o que posso. Na terceira vez que ela veio, fizemos amor. É uma entrega lírica, lúdica, tensa. Não é só um hímen que se rompe. É um mundo que começa.
Seis meses depois vejo que não era isso. Mas em nenhum momento a engano. Ela me ama. Posso sentir até mesmo na maneira com que me olha e me toca. Mas meu peito, teimoso, ferve uma dor que não se retira. Termino com a ninfa. Contrariado.
Encontro uma deusa dias depois. Ficamos amigos. Namoramos. Fazemos amor. Ela é como uma capa de revista. Me perco em suas curvas. Depois me acho. Ainda não é isso. Alguns meses depois ela se vai. São Paulo, Rio de Janeiro... Sem mais notícias. Sem saudades eu sigo treinando e investindo meu tempo em trabalho.
Conheço outro alguém. Estou fraco. Feio. Doído. Ela é ingênua. Doce. Apaixonada. Não consigo ver. Embora não meça esforços. Vive a minha vida por três anos,varrendo o chão por onde eu ando, dobrando o mundo para que eu não sofra... Enquanto ela sofre. Muito. Não me enche os olhos. A ficha não cai. Em junho de 2005, sofre um acidente fatal, ao voltar de uma comemoração, numa curva na cidade de Gravatá-PE. Só aí, caio na real. Diante de um corpo mutilado no caixão.
Isso piora um pouco as coisas.
Eu perco a direção da empresa, perdido num mar de angústia. Perco tudo, meses depois. Me afundo nos desenhos. Me ocupo deles. Volto-me as poesias.
O mundo começa a assentar.
Eu tento esquecer o que não se esquece.
Recomeçando... Estou recomeçando desde que eu nasci. Isso nunca me fez parar. Nada me faria parar.


- Você está bem sentada, aí... Quieta e silenciosa. Quase não fala.
- Eu quero lhe perguntar algo.
-Humhum! Pergunte.
- Se um dia nos separássemos, voltaria a falar comigo? Quero dizer, seríamos amigos?
-...
-Nunca fiz amor com meus amigos.

*
Acaba o expediente às 22h. Os últimos clientes se vão. Nós fechamos as portas do prédio e vamos apagando gradativamente as luzes. Deixamos apenas uma lâmpada incandescente amarela. Iluminando seu corpo esguio num minúsculo short de ginástica e um top delicado, rosa e preto.
O som é suave... Calleb canta (ou evoca) um ritmo em árabe que a excita.
Ela se contorce e sua silhueta ganha mais vida, diante do espelho enorme do Ginásio. À meia – luz e embalado por Calleb, ela ensaia uma dança do ventre pra mim. Pouco depois, fazemos amor... Suados, extasiados... Num colchão velho nos fundos.
Nossos corpos jovens e tonificados, dão um espetáculo aos meus olhos quando se contorcem à frente do espelho. Eu mordo sua nuca, horas mais fortes, horas mais suavemente, apertando seu trapézio entre os lábios, deslizo duramente meus dedos em suas costas, marcando de leve nosso contato. Seus lindos seios me presenteavam com mamilos, estatuéticos. Simétricos e perfeitos.
O cheiro do nosso amor está em toda parte. Escorre por suas pernas e espalha-se em minha boca.
Ela murmura com ternura todas as juras de amor eterno. Consolida minha posse sobre seu corpo mágico, suas coxas, sua vulva, seu ânus. Me aperta por dentro. Como quem devora, quem puxa para sí minhas forças, meus apelos... e eu vou.
Eu castigo seus quadris com toda a paixão que me consome. Nós entramos em êxtase e descansamos um pouco. Logo a levarei para casa uma vez mais.

Memórias... Onde as escondes?








Wamberto Nicomedes .Recife( todos os direitos reservados )
Wam Nick
Enviado por Wam Nick em 16/10/2007
Reeditado em 12/11/2012
Código do texto: T696743
Classificação de conteúdo: seguro

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Recife - Pernambuco - Brasil, 43 anos
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