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Vaidade Casual

 

 

            “O meu pecado preferido é a vaidade, pois conduz a todos os outros.” (Al Pacino, encarnando o demônio no filme O ADVOGADO DO DIABO).

 

 

            Era dona de um ardente olhar. Sem maquiagem, e nem precisava; suor realçando o corpo dourado, um sorriso que era puro deleite. A bela morena era um convite escancarado ao amor libertino. Arrebatou Emanuel com força de ciclone tropical. Ele não lhe tirava os olhos. Para sua sorte, foi medido e, decididamente, enquadrado nos padrões de Rafaela que dançava no salão, ao ritmo de marchinhas antigas de carnaval. Serpentinas e confetes pululavam. Curto corpete branco apertado e uma saia havaiana, quase transparente, acentuavam as curvas. Biquíni branco por baixo. Delicioso ventre nu. Cabelos castanhos ondulados descendo até o busto. Descalça como índia.

 

            As amigas sopravam–lhe indecências ao ouvido. Só tinha olhos para o rapaz forte e galante, solitário, aos fundos de uma mesa. Ele ficou animado, e muito. A barba mal–feita, sobrancelhas grossas, um largo sorriso rasgando–lhe as faces. Negros cabelos lisos em desalinho descendo pela testa, acompanhando as trilhas de suor.

 

            O salão estava quente e a química entre eles acentuava–se. Exibia um poderoso par de bíceps. Tragava goles ávidos de cerveja. Inebriava–se com o jeito farto da jovem.

 

            – Por que ele não vem? Perguntava–se a moça, escoltada por duas amigas sensuais.

            – Será que é gay? Uma perguntou. Riram. Viram que não.

            Ele levantava o copo e saudava a sua beleza.

 

            Rafaela fazia movimentos ardentes, massageava o próprio corpo. Tinha boca e olhos de paixão. Convidou–o com o dedo, implorando sua presença no salão. Ele sorria, entortava o rosto, erguia os ombros como a dizer que não iria. Ela fez um muxoxo, deu as costas e tratou de ignorá–lo. Devia ter sido séria nesse propósito. Ficou ainda mais desejável. Muitos homens a tocavam, passavam–lhe os dedos pelas costas, pelas ancas, convidando–a para dançar. Recusava um a um: os rudes e os gentis. O homem que queria não se desgrudava da mesa aos fundos.

 

            – Vai, vai, Rafaela! Vai ver o que ele tem? As amigas estimulavam.

            – Pode ser tímido!

            – Talvez esteja esperando a namorada voltar do banheiro?

            – Esperando? A noite toda? Ele está sozinho. Isso é certeza.

            – Então, vai! Conversa com ele!

            – Vai pensar que eu sou oferecida!

            – E daí? É carnaval, tudo pode. Tudo pode.

 

            Rafaela em dúvida. O sorriso de Emanuel era tudo o que queria para alimentar–lhe a alma. Imaginava–se já com ele, rolando pela cama, amarfanhando–se sem limites. Uma, duas, três noites de amor. Queria amanhecer na quarta–feira de cinzas. Destruída, acabada e completamente satisfeita.

 

            Tragou uma bebida forte. Ganhou coragem e partiu decidida em direção ao rapaz. O salão abriu passagem. Emanuel sorriu maliciosamente. Dorso nu. Abriu os braços, como um redentor, apoiando–os nas cadeiras que o ladeavam. Ela, inclinando–se, debruçou os fartos bustos sobre a mesa. Odor de fêmea no cio. Quadris salientes.

 

            – Vem dançar? Convidou–o.

 

            Ele, em um gesto abrupto. Arrastou para o lado a mesa de metal. Garrafas e copos quebraram. Cadeiras ao chão. Muitos olhares se voltaram. Um constrangimento soou naquele canto do salão.

 

            – Só se você me arranjar pernas. – Balançou dois cotocos vestidos por colorida bermuda.

 

            A temperatura caiu nos anseios de Rafaela. Garganta apertada por um fio invisível. Um lindo homem que não podia dançar. Recostado, continuava a exibir o mesmo largo sorriso.

 

            – Mais uma! Mais uma vagabunda! – e gargalhava sem parar.

            As amigas arrastaram–na para o banheiro. Derramou algumas lágrimas. Emitiu soluços. Não podia esperar por tamanho descaso. A atitude dele chocou–a mais que um tapa. Pela primeira vez sentiu–se feia, pequena, insignificante. Acreditava não ter valor algum. Como alguém poderia recusá–la daquela forma? Não questionava a condição dele. Poderia ter agido de outra maneira. Ela entenderia. Só não compreendia por que foi tão humilhada.

            – Tão lindo! Que desperdício. Resolveram esquecê–lo e voltar ao salão.

 

            Disfarçadamente procurou–o na mesa distante. Vazia. Melhor assim. Tentou afastá–lo do pensamento e dançou muito, aceitou braços indecentes que lhe bolinaram o corpo. Acabou a noite com um estranho, em uma cama qualquer. Saiu sem fazer alarde. Nas ruas desertas voltou caminhando para casa aos pedaços. Parou em um bar de terceira e pediu café. Outros foliões espalhavam–se, desmontados, pelo ambiente. Um rádio ligado aos fundos noticiou que um rapaz, sem pernas, matara–se naquela noite. Enforcou–se em praça pública. Ela tragou o café forte. Soltou um suspiro de alívio. Viu seu reflexo distorcido em um espelho no fundo do bar.

 

            – Sou linda! Ainda bem!

 

            Saiu caminhando refeita e completamente segura de sua beleza...

 

 

(O autor avisa que se trata de uma obra de ficção, qualquer semelhança com fatos e pessoas reais terá sido mera coincidência e que as crenças e opiniões manifestas podem não pertencer ao mesmo).

 

Jurandir Araguaia
Enviado por Jurandir Araguaia em 21/10/2007
Reeditado em 21/10/2007
Código do texto: T703564
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Jurandir Araguaia
Goiânia - Goiás - Brasil
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Jurandir Araguaia