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O colorido cheiro das rosas

Entretanto coisa alguma me vêm à memória. Argumentos ainda em vazio, dentro de um nada. Nada vezes nada.
Se meu olhar dirige-se para baixo, enxergo pedras rusticamente alinhadas, alguns pedaços de vazios jogados pela rua, formigas trabalhando e quem sabe, uma bola de gude que sem querer, chegue até mim por algum descuido dos meninos que se divertemna calçada.
Se volto meu olhar para cima, milhões de corpos freneticamente correndo contra o tempo, sempre contra o tempo. No outro lado, animais de espécie desconhecida e descomunais fingem vestir algo que lhe traga boa aparência, algum poder maior. Automóveis mancham a rua. Por todos os cantos da praça vê-se bichos como aqueles, trocando palavras com os que lhe acompanham. Em sua face, não se vê sorriso, apenas rancor espalhado em todo o rosto, como um vírus, contaminando todos ao seu redor. Barulhos de buzinas, freadas, falas, sapatos, portas que abrem e fecham, e os movimentos que me fazem questionar: "Em que galáxia assisto minha vida?"
Por encontrar-me em tal situação, coberta de lástimas e queixas, deduzo que o motivo de tudo isso seja os milhares de acasos e coincidências que por sua vez, compõem a melodia da árdua rotina do dia-a-dia. Fazem desaperceber-lhes de excêntricos pormenores. Desprovendo-se da singela magnitude que trouxera-nos como daquelas que adornam o canteiro olvidado, e que na praça já estão -por completo- esquecidos. Seu olhar afetuoso aos que por aquele cantinho do universo passam em amiúdes passos e repetidamente gastam as solas dos sapatos já não é o bastante para implorar-lhes seu desvio de olhar àquele mortuário de bons momentos e sorrisos travados, fantasiados de ingênuas flores. As cores que lhe compõe como obra de arte iluminam as pétalas e transfiguram metamorfosicamente a cor verde empoeirada numa excêntrica escala cromática. Lilazes, amarelos e roxos detalham as outras, que lhes acompanham, onde sua alva e terna brancura sorriem para os que sequer tiram a fenda dos olhos para elas, que todos os dias expôem-se diante de sol ou temporal, calor ou friagem apenas para reluzirem dentre o cinza fúnibre que já toma conta de quase todo o espaço. Contudo, lá estão, sufucadas ao meio de folhas, terra e cigarros tortos, grosseiramente fincados ao chão. Mas ainda esperam. Aguardam ansiosamente o dia em que talvez o olhar daqueles estilhaçariam-se expulsando a paralisia da pupila e num piscar de olhos, reacender-se-ão as cores numa rapidez frenética e pacífica. Poderemos sentir e ouvir o estalar das gengivas, para sem esforço algum, rasgarem um sorriso liberto. Ouviremos o som dos pássaros cantarolando nos entremeios das flores. Daquelas que não mais encontram-se em verdes foscos e empoeirados, mas, agora radiantes como a clara luz que ilumina suas pétalas. A terra, ah! Esta agora tem um cheiro de tinta fresca e úmida. Pode-se sentir o colorido do alvorecer todas as manhãs, pois não mais as lástimas nem queixas me encobrem, mas o regozijo de um novo dia que acaba de nascer faz-me sentir puramente envolvida e incorporada para me deleitar e passear pelas pelas ruas habitadas agora, por humanos e não mais os de espécie desconhecida. Porque a alvorada fez nascer o motivo para escancarar-lhes os olhos e voltarem-se para as flores: o botão lhe deu a cor das rosas; e cheiro das pétalas, o colorido de sua vida.
Heloisa Rech
Enviado por Heloisa Rech em 23/10/2007
Reeditado em 13/11/2007
Código do texto: T706954

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Sobre a autora
Heloisa Rech
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 27 anos
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Heloisa Rech