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A DESPEDIDA




Saímos ainda bem cedo.

Minha mãe, minha irmã do meio e eu, cada um em sua montaria nos dirigíamos à casa dos parentes que moravam em fazendas e cidades perto dali. Minha  irmã mais velha havia se casado com um primo e iria ficar no Nordeste. Ela não viajaria para São Paulo.
Nós, no entanto, estávamos de viagem marcada e tudo dependia apenas da chegada do ônibus que nos iria levar ao nosso destino.  Já havia um dia determinado.
Montado no jegue preto, eu ia atrás, equilibrando-me sobre seu lombo, sem nenhuma cela. Apenas um cabresto servia de arreio e eu não podia cair. O jegue até que era manso. Minha irmã e minha mãe seguiam  montadas nas mulas. As mulas eram mais dóceis.
Nosso tempo era curto, devíamos visitar vários parentes nas redondezas e, ao mesmo tempo, nos despedirmos em nome do resto da família, que ficou em casa, cuidando dos afazeres normais. Eu nunca perguntei  por que  fui eu quem acompanhou minha mãe.
Eu tinha apenas onze anos.
A viagem seria feita em dois dias, por isso levávamos alguns pertences pessoais para que pudéssemos usar onde fôssemos dormir. Os parentes eram muitos e os amigos ainda mais.
Meus pais eram muito queridos e respeitados naquela região. Haviam nascido por ali mesmo. Vinham de famílias tradicionais. Meu pai, além de respeitado, era temido por muitos, principalmente  por seu vizinho de terras que, praticamente, o estava obrigando a vendê-las .Ele se recusava a vender, por isso preferira ir embora.
Ele herdara as terras pela morte do meu avô. Os irmãos dele haviam vendido seus quinhões ao seu atual vizinho e, com isso, ele ficou espremido no meio das terras do vizinho.
Para evitar maiores males, ele resolveu ir embora daquela região. São Paulo que ele já conhecia de outras viagens seria nosso destino. Quanto às terras, ele não iria vender, iria deixá-las, pois se precisasse voltar, elas estariam lá.
Quando chegamos ao primeiro parente que iríamos visitar, apeamos dos animais e entramos na casa. Lá dentro, o tio de minha mãe estava sentado em sua cadeira, enquanto sua mulher, uma morena forte e levemente obesa, estava ao seu lado.
Minha mãe conversava e nós (minha irmã e eu) apenas ficávamos olhando e esperando que alguém nos oferecesse algum agrado. Quase sempre o que nos ofereciam era um pedaço de queijo de coalho e um pedaço de rapadura. Era uma delícia o agrado.
A casa era enorme, parecia ser maior do que a nossa, onde morávamos.
O tio da mamãe, com seu modo peculiar de falar, ia desfiando seu rosário de recomendações a ela, enquanto a esposa dele, que já era a segunda, apenas ouvia. Ela era a mãe do primo que se casou com minha irmã.  Meu tio-avô havia-se casado pela segunda vez e  havia tido, com as duas mulheres,  vinte e sete filhos. Alguns haviam morrido ainda cedo.
Nossa família era composta por treze, o mais novo tinha apenas dois meses de idade e logo estaria  seguindo seu destino.
Eu era o nono filho do casal.
Quando fomos embora, ainda me lembro que, mesmo montado no jegue, eu olhava desconfiado para a esposa do tio da mamãe, que, em momento algum, deu um só sorriso. Nunca me esqueço de sua enorme cabeleira crespa e arrepiada. Esta segunda esposa do tio-avô era muito fechada.
Em frente à casa deles nos despedimos e, novamente seguimos rumo à cidade, que ficava bem perto dali e, depois de algum tempo, chegamos ao destino. Na cidade  (José da Penha) fomos visitar vários amigos e parentes e ainda me lembro da visita que fizemos a meu padrinho. Ele me deu duas moedas enormes.
Talvez tivesse sido este o motivo pelo qual eu acompanhara minha mãe naquela viagem. Meu padrinho sempre me dava moedas de presente.
Durante todo o dia visitamos pessoas do conhecimento da família e  até surgiu a oportunidade de eu ir a Pau dos Ferros, porém minha mãe não me deixou ir porque, segundo ela, o motorista do caminhão  era muito corredor. Eu fiquei frustrado, porque queria subir e andar de caminhão e, além disso, conhecer a cidade.
Mas  a obediência e mesma a prudência dizia que eu devia ficar com minha mãe e dormir naquela cidade para voltar para casa no outro dia. Não era prudente voltar no mesmo dia, não deveríamos viajar à noite, os animais poderiam se assustar com algum animal. Além de tudo, o medo nos obrigava, eram muitos os monstros e fantasmas que povoavam a mente daquele povo simples. Inclusive a minha.
Somente voltei àquela região quarenta e sete anos depois e eu tentava reconhecer os cantos que eu tinha visto quando criança. A casa do tio-avô era apenas uma tapera pequena, comparada às novas casas que haviam construído ali perto.
Os caminhos que eu percorrera de jegue e que pareciam ser enormes, não passavam de trilhas existentes entres morros e caatingas do sertão. As distâncias eram menores  das que eu imaginava. Agora meu retorno foi feito de carro, razão pela quais as distâncias haviam diminuído.
Estávamos no mês  fim do mês de junho do ano de 1956.
No outro dia, bem cedo, montamos em nossos animais e retornamos  a nossa casa. A missão havia sido cumprida e ninguém ficara sem nossa visita de despedida. Em cada despedida, os choros e recomendações aumentavam ainda mais a saudade, que somente haveria após nossa partida.
Quando chegamos a nossa casa, já deveria passar do meio-dia. A fome era grande e estavam quase todos  em casa. Apenas meu pai e dois irmãos não estavam. Haviam ido a outra cidade para saber quando seria a chegada do ônibus.
Depois do almoço, cada um prestou contas de seus afazeres e preparativos para a grande jornada que deveria ser empreendida a qualquer momento. Quando meu pai chegou da cidade, trazia as notícias pelas quais todos esperavam.
O ônibus (misto) deveria chegar dentro de três dias e tudo já estava acertado. Além de nossa família, outras também iriam viajar no mesmo ônibus. Alguns iam ficar pelo caminho e outros também iriam para São Paulo.
Meu cunhado estava por lá o tempo todo, ele iria ficar cuidando de tudo. Ficaria responsável pelas terras, pela casa e faria a entrega dos animais, cabras, vacas e carneiros que meu pai havia vendido.
Meu pai não vendeu as terras, elas seriam a ligação dele com seu passado e, se precisasse, voltaria quando quisesse, pois ninguém se atreveria em entrar nas terras do Chico Leite. Nem mesmo o fazendeiro vizinho teria coragem de se apossar das terras dele, mesmo que estivesse louco por comprá-las.
O fazendeiro, rico, morava na capital e muito raramente vinha ali, porém tinha seus amigos e representantes na cidade. Mesmo sabendo que meu pai ia embora para são Paulo, não teria coragem de se apossar de suas terras. Todos morriam de medo do meu pai.

Eu me sentia orgulhoso com isso.

Quando chegou o dia, bem cedo, todas nossas coisas já se encontravam amontoados na sala da casa do compadre do meu pai, que ficava na cidade. Enquanto esperávamos a chegada do ônibus para a viagem, íamos de um lado para o outro visitar amigos, parentes e todos aqueles que nós conhecíamos.
Um primo nosso iria viajar conosco. Era filho do irmão do meu pai.
Éramos treze no total, além do nosso primo. Meu pai, minha mãe e onze dos treze filhos.  Dois dos meus irmãos já se encontravam em São Paulo.  Lá, uma casa já fora alugada, seria o local aonde iríamos morar.
Já era tarde quando o veículo que iria nos transportar chegou e estacionou em frente à casa do compadre do meu pai. O veículo daquela época seria hoje proibido de transitar. Ele era fechado como se fosse ônibus, com bancos de madeira e sua frente parecia ser de um caminhão.
Por isso o  nome “misto”. Não sei se foi pelo nome que alguém lhe dera, ou pelo fato de ele ser metade ônibus e metade caminhão. Alguns retirantes do Nordeste nem sempre podiam viajar com tal conforto. Muitos viajavam em cima de caminhões adaptados com bancos de madeira e cobertos com lona. Eram chamados de  paus-de-arara.
Já era quase noite, quando todos, dentro do veículo, esperavam a partida deste. Todos nós, dentro do ônibus, despedíamos daqueles que se acercavam dele e nunca me esqueço de que, mesmo sem saber o que significava saudade, as lágrimas desceram por meu rosto.
Quase todos aqueles que estavam no ônibus choravam.
Muitos estavam deixando tudo, seguiam rumo ao um lugar aonde nunca tinham ido e aqueles que ficavam estariam sendo privados de parentes e amigos que partiam  e muitos sabiam que talvez nunca mais os vissem.
Quando as luzes da cidade já estavam se acendendo, o ronco do motor parecia dizer-nos:  “A partir de hoje um novo destino os espera”.
Enquanto o ônibus se deslocava lentamente, saindo da cidade, ainda se ouviam os soluços e os choros daqueles que seriam nossos companheiros de viagem durante exatamente treze dias.
E foi assim nossa partida, uma aventura que somente o tempo poderia dizer qual seria o resultado.
Agora, quando escrevo, vou recordando fatos e acontecimentos que aconteceram durante a viagem. Nossa primeira parada seria na Paraíba a pouco mais de cinqüenta quilômetros.
A noite veio e, com ela, o cansaço que seria apenas amortecido com o desejo de chegar ao nosso destino, que ainda estaria muito além de minha imaginação.
O ronco do motor, o balanço do veículo quando ultrapassava os buracos da rodovia, parecia acalentar nosso  sono, como se fosse apenas o balanço da rede.

Na primeira noite eu não dormi, queria ver tudo, até as estrelas que brilhavam no céu, que pareciam dizer: “ Venha, o futuro o espera”

E assim foi.


17/09/06-VEM.


17/09/06-VEM.




 
Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 25/10/2007
Reeditado em 29/09/2010
Código do texto: T709122
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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