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Tudo de tudo



Um filete de suor desliza pela face do pequerrucho.
Na cama branca estendido inerte, arde de febre, respira com dificuldade. A gota do soro pinga com preguiça, noites e noites, dias e dias. Nada altera. Mal gira a cabeça e movimenta os lábios.
A mãe ao lado lamenta a própria sorte. Gostaria de tomar o sofrimento do filho Marquinhos. Levanta da cadeira, vai à janela do sobrado do hospital. Observa a paisagem montanhosa lá longe. Montanhas sobre montanhas, picos sobre picos brincando de tapar o sol que sede lugar para a lua. A noite vai chegar logo. Tristeza. São demoradas e aumentam o silêncio nos corredores longos. Sem nenhuma alma viva e toc toc naquela ala. Na outra, gemidos longos, tiritar de seringas nas bandejas. Ela mira o quarto espaçoso, o filho na luta entre céu e terra. Mede a temperatura com as mãos enquanto observa o termômetro largado sobre a mesinha. Percebe que há sinais de vitória da vida. Alegra-se e ao mesmo tempo se entristece. Sente o frio da culpa por ter-se negligenciado. Mãe sempre se culpa. Poderia ter dificultado o alojamento daquela bala perdida no cérebro do inocente menino. Poderá ficar com seqüelas enormes por falta de um simples ato - ela pensa. Deveria ter mudado dali para qualquer lugar. Muitos outros lugares existem. Monta um cenário de vida tranqüila para morar com o filho, em pensamentos longos. Só tem ele como tesouro. Tesouro que poderia ter lhe escapado, fugido do seu mundo. Nessa viagem pela imaginação se encontra uma mulher como outra qualquer no planeta
que através do sofrimento, redescobre o verdadeiro significado da vida, mesmo sendo sofrida.
Uma batida na porta a faz voltar para a realidade.
Coloca sobre a mesinha, as flores que lhes foram entregue. Lê o cartão. Para o Marquinhos com os dizeres: “Desculpe-me mas, estou de alma lavada”.
Era do avô que agora cumpre pena por ter liquidado aquele que travou a vida do neto.
A mãe lê e relê o cartão em voz alta como se o filho a ouvisse. Revolta manifestada pela lágrima que molha a face. “Mundo violento”- murmura para si mesma.
Procura não pensar no assunto; nada mais lhe interessa a não ser a saúde do filho. Quer esquecer o episódio e tudo de tudo.

Pirapora MG
Juraci de Oliveira
Juraci Oliveira
Enviado por Juraci Oliveira em 13/11/2005
Código do texto: T71041
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Sobre a autora
Juraci Oliveira
Pirapora - Minas Gerais - Brasil
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Juraci Oliveira