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O Cortejo

          Pé ante pé, seguia o fluxo. Um passo. Outro passo. Mais um. Ouviu lamentos, lamúrias, reclamações, até deprecações, ditas entredentes, à meia-voz. Uma criança chorou um choro gritado, estridente. O homem gordo, logo a frente, enrubescia as rechonchudas bochechas, em nítido contraste com o esguio pardacento, com sua face encovada, de pele macilenta - cada vez mais macilenta - olhos opacos, vazios, cadavéricos. Prenunciação? Um crente lia a Bíblia, outro, de olhos fechados, parecia rezar. Lá adiante, na extremidade, a Morte, implacável, arremeteu. Projetou, de um só e preciso golpe, a longa lâmina afiada. O ancião arregalou os olhos, premiu o peito com as mãos, estatelou-se no chão. O banqueiro, o dono da funerária, o tabelião, os familiares, todos choraram e depois sorriram: o velho sovina, que gostava de banco e de fila, era rico, muito rico. Cadáver removido, minutos depois, a fila voltou a andar. Lenta, muito lenta. A Morte seguiu seu caminho, rumo ao Hospital Público. Tinha que se apressar. Dali a poucos minutos, começaria o horário de visitas dos pacientes do SUS.

Carlos Cruz - 28/10/2007
Carlos Cruz
Enviado por Carlos Cruz em 28/10/2007
Código do texto: T713858
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Carlos Cruz
Miguel Pereira - Rio de Janeiro - Brasil, 45 anos
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