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A PEQUENA TRAGÉDIA FAMILIAR DE JOÃO

- Eita!
- O que foi, Zé?
Preocupou-se Madalena ao ver o marido desabado na cadeira ao lado do telefone, os ombros levemente arqueados, as mão sobre o colo, os olhos arregalados procurando alguma coisa no ar.
- O João...
- O que tem o João? Aconteceu alguma coisa?
Alarmou-se se dando conta de que ele estava naquele telefone fazia quase uma hora.
- O João encontrou a mulher da vida dele...
Falou com a voz quase sumida.
- O quê!
Estranhou a mulher, tentando entender o que ouvira.
- Você está brincando comigo, Zé? O João encontrou a mulher da vida dele? Que história é essa? Onde?
Madalena estava boquiaberta: João, depois de tantos anos, os filhos grandes, a mais velha de barriga do seu primeiro neto... Tentava tirar dele uma explicação com um olhar atônito posto nos olhos arregalados e ao mesmo tempo perdidos do marido.
- Ao lado dele, na cama...
Disse com a voz ainda mais fugidia, como se o que dissera fosse a constatação de um fato irremediável.
- Você está brincando, Zé?
Dizia Mariana quase gritando.
- O que você está dizendo? O João é casado há mais de vinte anos!
- Vinte e cinco...
Corrigiu o marido.
- Mas, quem é ela? Quem é essa mulher, Zé?
- A Belinha, ora...
Disse dando de ombros, ainda com ares de quem não entendera o espanto da mulher.
- Como assim, a Belinha? Eles são casados há mais de vinte anos!
- E cinco!
Exatificou, erguendo o dedo indicador da mão direita e depois ficou batendo com ele sobre a mesinha do telefone como se teclasse uma única tecla de um teclado imaginário.
Mariana, enxugando as mãos na barra da saia, virou-se e puxou uma cadeira da mesa da sala de jantar e sentou-se de frente para ele franzindo o cenho como quem lhe perguntava que lhe contasse a história toda.
- Então...
Disse ele, arqueando os lábios e encolhendo os ombros.
- O João me contou que há dias atrás, uns dois ou três meses, talvez. – Fazendo um gesto com a mão direita como quem joga alguma coisa sobre o ombro esquerdo – Enquanto estavam na cama, ele começara a prestar atenção no corpo dela e um sentimento, como se fosse uma onda de calor, foi lhe tomando conta do corpo...
Mariana ajeitou a bunda na cadeira e esticou o pescoço na direção dele, os olhos arregalados, e o Zé continuou:
- E a vida lhe passou pela frente, voltando ao tempo em que ele se casara com ela e a viu ainda mocinha e sentiu tudo o que sentia por ela naquele tempo, igualzinho, igualzinho, tim-tim-por-tim-tim...
Disse-lhe, assentindo com a cabeça. Mariana, que segurava os dedos entrelaçados, afastando as mãos, apanhou com a mão esquerda todos os dedos da mão direita em concha e os estralou numa vez só, repetindo o gesto na outra mão.
O Zé olhando para os lados como quem se certificava que ninguém os ouvia e depois para os olhos da esposa, continuou:
- Bem, ele disse que a beijou toda e tinha tanta vontade de beijá-la que nem sabia donde vinha tanto desejo e se amaram assim, que a Belinha até gozou antes dele... E, de lá para cá tem sido assim...
Mariana engolindo em seco arriscou;
- Mas isso é “bão”, Zé. O que tem de errado nisso?
- Pois é. O caso é que a Belinha está ficando arredia com ele. Não aceita muito que ele a ame assim... O João está desconfiado que ela não o ame mais...
-Hummm...
- Ele está sofrendo. Já declarou o seu amor por ela, já lhe disse tanta coisa bonita e ela nada com ele... Tem noites que ele praticamente tem que implorar para namorar um pouquinho...
Disse fazendo sinal de “abre-aspas” com os dedos da mão direita.
-Ele me disse: - “Zé, o que é que eu faço, Zé”? Já fiz de tudo, já disse tanta coisa, já disse que a amava, que a desejava igualzinho como antes... Disse até que ela é a mulher da minha vida, Zé!”
- E tu, homem, o que foi que você disse pra ele?
- Pois é. Não sei se fiz o certo, mulher...
Dizia falando baixinho e preocupado:
- Mas, eu falei pra ele que eu “tava” achando que ele, no sentimento dele, que ele estava certo: que ela realmente é a mulher da vida dele, mas, que eu achava que no coração dela, ele não era o “home” da vida dela... Não to certo, “muié”?
- Zé, tu “ta” louco, “home”? Ele está sofrendo e vamos que isso se ajeite, ele pode até ficar com raiva de ti...
- O pior, Mariana, o pior foi o que eu disse no fim...
- Mas-o-que-foi-que-você-disse, José?
- Que eu achava que nesses casos de amor não correspondido, assim nessa idade, o melhor era procurar outra mulher para não perder muito tempo...
Falou olhando para o telefone, segurando a cabeça escorada na mão esquerda e tamborilando com todos os dedos da mão direita sobre a mesinha, cheio de dúvidas...
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 31/10/2007
Reeditado em 31/10/2007
Código do texto: T717113

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 59 anos
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