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Monstros do passado

- Em que estás a pensar?
Inquiria sempre que a via ausente, perdida num silêncio pesado. O olhar dela ficava distante, o rosto ganhava uma expressão que ele não conseguia decifrar. Sem saber bem porquê, receava esses silêncios. Era como se, nesses momentos, deixasse de lhe pertencer e a intimidade entre eles parasse ali.
- Não estou a pensar em nada.
A resposta, invariavelmente a mesma, acabaria por dissuadi-lo de prosseguir. Sabia, por demais, que essa era a maneira delicada de o afastar, de não partilhar com ele o que lhe ia no íntimo.
E que pensamentos seriam esses?
Mesmo que ela quisesse expressar, por palavras, a maior parte das vezes, não seria capaz. Não era só ele a assustar-se com as suas ausências momentâneas: também ela preferiria parar a mente; esvaziá-la das imagens e ideias que a assolavam e a deixavam num torpor e numa melancolia.
- Como se fosse possível pensar-se em nada! Pensamos sempre em qualquer coisa!
Uma ou outra vez, não desistia ou, pelo menos, queria que ela soubesse que ele se apercebia de que algo a inquietava e a levava para longe dele. Chegava a sentir ciúmes.
Era então que ela deixava transparecer um certo enfado e queixava-se de ele querer saber sempre tudo. No fundo, deleitava-se com o interesse dele e custava-lhe menos a suportar o diálogo silencioso que travava dentro de si. Havia mesmo um suavizar de semblante e um trejeito que poderia traduzir-se no desejo que ela tinha de lhe oferecer o que ele, em vão, tentava deduzir.
Se ela pudesse … As palavras acabavam por se afogar no peito … morrer antes de lhes ter dado vida…
Lembrava-se do tempo de menina quando, acariciando o lóbulo da orelha da mãe, de olhos fechados para não ver os monstros nocturnos, lhe pedia, ansiosa:
- Fala, mãe… fala comigo. Conta uma história.
Era quando conseguia apaziguá-los. Mas eram mais as noites em que lhe faziam companhia, não lhe dando tréguas. As noites em que a mãe ignorava as suas súplicas e choro, julgando que ela era uma menina mimada e egoísta, sempre sequiosa dos seus afectos.
Como poderia ser que ela nunca se tivesse apercebido do que, na realidade, se passava? Como não entendia os sinais que lhe dava? Eram assim tão difíceis de ver?
Pensava, muitas vezes, assolada pela tristeza e desespero, no seu mundo de solidão.
- Mãe, porque casaste com este homem?
Tinha-lhe perguntado, um dia, mas ficara sem resposta. Porventura a mãe nem saberia o motivo que a levara a escolher aquele homem para substituir um pai ausente que ela mal conhecia. Com o andar do tempo e a maturidade que havia adquirido, apercebera-se que as mães solteiras se empenham muito em construir um lar onde os filhos sintam a estabilidade de um seio familiar.
Mais valera que não o tivesse feito. Mas como dizer-lho?
Pedia para o marido falar. O assunto não era relevante. Tanto fazia. O que importava era ouvir a voz dele: concentrar-se na sua cadência; sentir que não estava só. Esqueceria assim o tumulto que lhe ia na alma: os receios, as carências; as dúvidas e os sobressaltos. Sobretudo aquelas memórias do passado que, embora mais espaçadas, ainda a assaltavam, fragilizando-a, deixando-a vulnerável, perdida dentro de si mesma.
Já não era criança mas os monstros continuavam a existir.  Eram eles que a impediam de se decidir a ter um filho. Tinha medo.
E se não fosse capaz de o proteger? E se não fosse capaz de evitar que os monstros viessem? E se não fosse capaz de ver os sinais?
A mãe não tinha visto.
Era preferível pensar que a mãe não os vira do que pensar que os vira, os ignorara ou não quisera dar-lhes crédito. Isso seria muito pior. Doeria ainda mais.
Se é que pudesse sentir dor maior do que aquela que sempre sentira!
E porque tinha sido e ainda era uma dor não partilhada, custava muito mais a suportar. Quantas vezes já tinha querido aliviar-se daquele fardo que lhe pesava, lhe enegrecia a alma, contaminando tudo à sua volta, até a relação com o marido?!
Um dia, quando ele me perguntar no que estou a pensar, encho-me de coragem e conto-lhe tudo. Era um pensamento recorrente do qual se arrependia, logo em seguida, pelo arrojo, ainda que não passasse de uma conjectura.
A vontade de se ver sem mancha, sem aquela diferença que a enxovalhava e a fazia sentir-se culpada, acabava por vencer. Não poderia mostrar-se, tal como era, a ninguém porque passariam a vê-la de outro modo. Ela passaria a ser uma desconhecida para aqueles que julgavam conhecê-la tão bem. Impensável fazer isso.
Esforçava-se por ser normal embora não soubesse muito bem o que era a normalidade. As regras tinham sido subvertidas num tempo em que ela começara a sua aprendizagem.
Debatera-se com a ambivalência de actos impostos por alguém que deveria ter-lhe mostrado a verdade, ensiná-la a separar o trigo do joio, a incutir nela valores de rectidão. Em vez disso, deixara-a confusa e perdida num mar de dúvidas e ressentimentos.
O mal e o bem, o amor e o ódio, a repulsa e a entrega, a incerteza e a crença passaram a ser conceitos indistintos para ela. As suas convicções e comportamentos oscilavam, como se tivesse uma personalidade dupla.
- Não sou capaz de te entender. As tuas mudanças de personalidade, tão repentinas, às vezes, assustam-me. Fico sem saber o que te dizer… o que fazer.
Também ela ficava sem se entender a si própria. Nem as consultas com a psicóloga tinham conseguido que ela controlasse essas mudanças. O hábito já vinha de longe. De tão longe que até tinha dificuldades em se lembrar quando começara.
Muitas noites, quando o marido acariciava o seu corpo nu, beijando-a com paixão, mantinha-se hirta e distante. Nessas ocasiões, sentia repulsa e uma náusea que a forçava a repeli-lo e a refugiar-se na casa-de-banho, de porta trancada para não ter de dar explicações.
Outras vezes, pelo contrário, entregava-se a ele, com uma fúria quase animalesca, assombrando-o com os seus rasgos de sedução e jogos sexuais. Quando, finalmente, repousava saciada e ofegante, chegava a sentir nojo de si própria e as culpas voltavam a assediá-la.
- És minha!
Dizia-lhe ele, no delírio da posse, na exaltação de sentir o corpo dela, arqueando, suado e palpitante, nos seus braços. Era então que abafava, a custo, um não e as lágrimas assomavam aos olhos que mantinha fechados. Mas nem sempre era capaz de dissimular a revolta que as palavras dele provocavam nela. Havia momentos em que um grito irrompia das suas entranhas, deixando-o perplexo e intimidado.
Ela não pertencia a ninguém. Afinal de contas, para alguma coisa tinham servido as visitas à psicóloga: tinha readquirido a sua identidade! Ou assim pensava ela. Os tais monstros, os tais espectros, que tinham povoado a sua meninice, continuavam a dominar a sua vida. O passado impedia-a de viver o presente.
Ao fim e ao cabo, era a esse passado que ela pertencia.
Uma manhã, recebeu um telefonema da mãe e sobressaltou-se. Há muito que não se falavam. Pressentiu que algo de extraordinário motivara aquela aproximação. Os pressentimentos dela nunca surgiam em vão. Talvez por estar sempre num estado de alerta. Procurou manter-se calma, sem dar indícios da agitação que lhe fazia tremer as mãos e fraquejar as pernas. A voz da mãe soou entrecortada e muito sumida. Disse-lhe, entre soluços, que o padrasto tinha morrido, de repente; nem sequer tinha tido tempo para a chamar. Entre os documentos e testamento que deixara, tinha encontrado um envelope com o nome dela, marcado confidencial e muito importante. Além disso, tinha deixado também uma carta que a mãe só tivera a coragem de ler naquela manhã. Daí o estado em que se encontrava.
- Preciso ver-te… Precisamos falar… Tens de ler a carta e perdoar-lhe para que a sua alma descanse em paz. Também preciso do teu perdão.
Então era isso? A mãe precisava de um perdão para dar descanso à alma de um homem que nunca mostrara possuir uma? Pensava ela, com as lágrimas a caírem-lhe pela face muito pálida, apoiando o corpo, que mal se aguentava de pé, contra a parede.
- Fala comigo, por favor. Não me deixes neste silêncio.
E o silêncio em que ela vivera, todos aqueles anos? Lentamente, poisou o auscultador e deixou de ouvir as súplicas patéticas da mãe.
Nessa noite, aninhou-se nos braços do marido e soluçou como uma criança. Chorou por muito tempo, sem ele lhe fazer quaisquer perguntas. Acarinhava-a e apertava-a com muita força. Nunca a tinha visto assim. Sentia que tinha chegado o momento de conhecer, finalmente, aquela que ela era, sem máscaras, sem segredos. Estava preparado para a receber e, se ela o deixasse, ajudá-la a remover, de vez, aqueles fantasmas de cuja existência suspeitava.
Quando ela sossegou e começou a contar-lhe a história que havia guardado só para si, com medo de os outros a acharem inverosímil, foi sentindo, a pouco e pouco, uma serenidade e abandono jamais experimentados. Não tinha bastado a morte do padrasto para pôr ponto final a um passado de dor e um presente conturbado. Tinha de ser ela a afastar os monstros, a abrir caminho para uma redenção, há muito adiada.
Como poderia perdoar aos outros, se nunca tivera perdoado a si própria?
 





Julieta Ferreira
Enviado por Julieta Ferreira em 01/11/2007
Código do texto: T718754

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Sobre a autora
Julieta Ferreira
Portugal, 65 anos
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Julieta Ferreira