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O BÊBADO E O CAVALO EQUILIBRISTA

O BÊBADO E SEU CAVALO EQUILIBRISTA




Era a terceira vez este ano que estava indo à Paulo Afonso/BA, sempre aos sábados pela manhã e, praticamente no mesmo horário, ao chegar no local conhecido como TREVO DE MARIA BODE, encontrava aquele homem com visíveis sinais de embriagues sobre seu cavalo. Diante daquele espetáculo de equilíbrio e insensatez resolvi parar, inclusive porque precisava descansar um pouco e aproveitaria para abastecer o carro. Puxei conversa com o frentista sobre o homem do cavalo.
É Zé de Mamãe...
Ele nunca caiu do cavalo?
Não, parece que o bicho é ensinado, já teve até gente que botou preço...

Fico sabendo pelo frentista que o homem em questão é aposentado e já foi bom vaqueiro, mas hoje se dedica a tarefa de não fazer nada durante a semana e ingerir toda a cachaça do mundo, aos sábados. E que seu cavalo espera paciente para levá-lo de volta à sua casa, inclusive tendo todo o cuidado para atravessar a rodovia.

Como é o nome do cavalo?
Não tem nome não, doutor. Ele chama “cavalo” e o bicho atende.
E se outra pessoa chamar?
Não adianta, ele só atende a Zé de Mamãe.
Porque o nome dele é “Zé de Mamãe”?
É ele mesmo quem diz, quando começa a ficar “queimado”. Ele fica contando valentia e diz: “Se mexer com Zé de Mamãe, não come milho verde este ano”.
E já mexeram com ele? Não...

Olho para a estrada reta e lá vão o cavalo e Zé de Mamãe num compasso de extrema habilidade. Quando o bêbado tomba para o lado esquerdo, o cavalo corrige o passo e recoloca o corpo etilizado no centro de gravidade. Deve ser uma luta muito grande, ou melhor, deve ser muita ciência desse cavalo em calcular direitinho como para que Zé de Mamãe não vá beijar o asfalto.

Ele vai direto para casa, ou ainda tem alguma parada obrigatória?
Não, toda vez Zé de Mamãe leva duas latinhas para tomar em casa.
Prevenido, esse Zé de Mamãe. E a mulher dele?
Não tem mais mulher não.
Não?
Ela foi embora com um primo dele?
Para onde?
Entraram na lata do mundo e até hoje ninguém sabe deles.

Já está na hora de ir embora, já matei minha sede, abasteci o carro, joguei conversa fora e fiquei sabendo da vida de Zé de Mamãe. Quando retomo a estrada, fico pensando naquela criatura e até tenho certa piedade. |
Pobre Zé de Mamãe. Ainda bem que ele tem o cavalo. Interessante é ele não ter um cachorro. Digo que ele não tem, pois nunca o vi acompanhado de nenhum canino. Ele não tem cachorro mesmo, e se tivesse, estaria formado um trio de criaturas para arriscar suas vidas às margens da rodovia, todos os sábados. Aliás, no caso de Zé de Mamãe, acho que lhe faz muito mais falta um cachorro vira-lata que uma mulher zangada e cansada em casa. Sabedoria teve foi a mulher de Zé, que foi embora ainda quando podia. Mas be que um cachorro daqueles descritos por Graciliano Ramos seria de muita serventia àquela dupla, até mesmo para afastar algum menino maldoso ou  algum outro cão menos amistoso que é o que não falta nestas estradas do Nordeste brasileiro.
Augusto N. Sampaio Angelim, 04/11/07.

Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 04/11/2007
Reeditado em 09/04/2010
Código do texto: T723633

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Sobre o autor
Augusto Sampaio Angelim
São Bento do Una - Pernambuco - Brasil, 55 anos
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Augusto Sampaio Angelim