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Alma Gêmeas

Eram duas. E tinham a mesma idade.

Amigas desde que se recordavam, e, recordavam-se de muitos anos!
“Doces tardes de chuva em que as Barbies saracoteavam felizes dentro das poças límpidas formada entre as pedras azuis do quintal da loirinha.”

Ah, detalhe: Uma era loira. A outra morena.

Cresceram. Caminhos paralelos, vidas continuamente repetidas em diálogos, monólogos, olhares. Ah, e como se entendiam pelos olhos! Mentiras inteiras eram tramadas em um olhar mais curto ou mais longo. Dependo claro, da folga e da falta de atenção da mãe de alguma delas. Mães essas, que viviam a repetir que a vivacidade da amiga ainda colocaria a filha em algum grave problema. “Sua amiga da nó em pingo d’água!”

Motivo de risos, para ambas, já que as grandes aventuras eram tramadas em conjunto: Uma sempre sabia completar o pensamento da outra. Pareciam traduzir pensamentos! Viam-se como um espelho, mesmo na grande diferença daqueles grandes olhos vivos tão verdes e  aqueles puxados e tão negros. Ou naquele cabelo tão liso tão igual àquele tão encaracolado.

Eram irmãs. Aliás, são! As almas após atravessarem longos caminhos, voltaram em clãs diferentes. Apenas meros corpos.

Mas, sobreveio a fatídica madrugada.

Os grandes olhos verdes fitavam atentos a uma imagem no altar na qual, baixinho, ela depositava toda a fé e encarecidamente implorava para simplesmente parar o tempo diante da revelação. Rezava também para estar louca. Não aceitava saber, prever e não poder evitar. Maldito dom esse!

Mas, o pedido foi negado.

Debaixo dos escombros de um Fiat Uno, o corpo jazia inanimado. O espírito, esse sem descrição de cor, sobrevoava a alma gêmea, que sentada a um meio fio e amparada  pelo ombro do pai, observava tudo. E entendia. Precisava entender.

Na mão da amiga, além do terço, estava a Barbie de vestido amarelo e cabelo cortado Channel. No ouvido, sussurrado, a frase consoladora:

“Até a próxima... Tenta vir de vestido amarelo, que virei de rosa. Estarei te esperando e me acene quando chegar!”

Como se fosse possível, reconhecer pela roupa... Era apenas um detalhe.

Mas, aquele olhar não mudaria.
Sim, sim, ela saberia.

Foi para casa, beijou solenemente a mãe. Deixou uma carta doce a seu pai e enquanto cortava os pulsos pensava.

“Calma, chego já.”

E foi-se.
Jessiely Soares
Enviado por Jessiely Soares em 05/11/2007
Código do texto: T723852
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Jessiely Soares
Bananeiras - Paraíba - Brasil, 32 anos
75 textos (2532 leituras)
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Jessiely Soares