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“Cada um se vira da forma que pode”

Por: Lúcio Alves de Barros

Não é necessário complexidade, tampouco economizar palavras para falar sobre Eduardo. Trata-se de um sujeito aparentemente pacato, gentil, educado, esperto, perceptivo, ganancioso, calculista e sonhador em um mundo que não existe. Vivia entre festas, casamentos, churrascos, bares, automóveis (às vezes do ano) e mulheres. Falava que sabia “aproveitar a vida” e que sempre achou maravilhoso compartilhar com os outros o que, na verdade, só possuía nas aparências. Gostava ele de roupas boas, caras e “de marca”. Tudo muito fácil, muito bonito e à mão. Como conseguia essas coisas? Tal como boa parte dos homens e mulheres que conhecemos, Eduardo usava com muita acuidade a beleza de sua aparência física: alto, boca levemente delicada, rosto perfeito, cabelos lisos, olhos azuis, enfim, um “boa pinta”, um "bonitão" como diz as mulheres da boa ou da má vizinhança. Inteligente? Muito. Ele era bastante inteligente, apesar de não gostar de freqüentar os bancos das escolas e ter parado os estudos em um sofrido e mal feito segundo grau. Também, para que estudar? Para que permanecer quatro, oito, dez anos em banco de faculdade e depois ficar desempregado e batendo em pedras? É mais fácil usar o charme, a beleza manifesta, o perfume da última hora e a possibilidade do sexo.

Essa era a sua percepção da vida, a qual não está longe das maneiras que a modernidade recente nos convida a gozar a sociedade. Gozar na irresponsabilidade, na inconseqüência, na desonestidade e no uso ostensivo de fachadas e enganações sem fim. Mas isso não vem ao caso. O fato é que Eduardo se apaixonava fácil. Paixões são como águas do mar, elas vêm com tanta força no fim da tarde e no início da noite que, já cansadas, são obrigadas a adormecer nos primeiros raios de sol. E assim foi com Eliane, uma paixão arrebatadora, que prometia muita felicidade, sexo e filhos.

Não tardou muito para que Eduardo, pensando nas grandes possibilidades de ascensão social que Eliane oferecia, logo pensasse em engravidar sua amada. É bem verdade que achava que sentia amor e, por isso, a queria por completo. Desejava tê-la, possuí-la, marcá-la para o resto de sua vida. Para isso, nada melhor que um filho. Concebido em uma noite de muito sexo, em um dos motéis mais caros da cidade, nasceu João. O nome fora escolhido por ser um nome forte, evidenciando a união e a fortaleza do relacionamento que, certamente, seria para sempre. O tempo foi passando, as coisas foram ficando difíceis e o sofrimento chegou. O sofrimento é um conjunto de pingos d`água que caem na cabeça aos poucos. Os torturadores fazem assim: colocam o inocente sentado na cadeira e deixam milhares de pingos cair lentamente sobre a cabeça. Aos poucos, a vítima vai perdendo a paciência, os nervos saem do lugar e, quem já passou por isso, disse que não existe sofrimento pior que o de esperar os pingos que vão contribuir para a manutenção do corpo gelado e emudecido por água suja e misturada ao suor.

Eduardo não era homem de fugir dos sofrimentos, mas não parecia lidar com eles muito bem. Aos poucos, pensou que seria adequado sair da relação. Talvez fosse melhor abandonar o filho aos cuidados de Eliane, que, apesar de trabalhadora e competente, “não lhe entendia”, “não suportava o seu sofrimento” e, no fundo “não garantia a ele o gozo necessário”. Não tardou muito para que Eduardo, lançando mão de sua natural indumentária, se apaixonasse por uma outra garota. Ângela, uma menina inteligente, de corpo perfeito e lutadora. Parecia ser a mulher ideal. Ela “topava todas”: festas, churrascos, noitadas sem fim, drogas, orgias e, se necessário, muita promiscuidade. Eduardo se deliciava com tudo aquilo. Novamente poderia gozar a vida dos deuses e pensava que encontrara alguém que comungava os seus interesses. Mais que isso, Ângela poderia lhe garantir certa segurança, pois além de trabalhadora, possuía o próprio carro, a própria casa e sabia lidar, sem maiores problemas, com os relacionamentos, haja vista que havia passado por dois ou três deles. Eduardo não esperou muito. Após meses de perfídia, se separou, pelo menos em corpos, de Eliane e se entregou aos braços de Ângela. A separação foi sofrida, não por parte de Eduardo, mas por parte de Eliane que, muito tempo depois, soube das aventuras do marido e sofreu devido ao filho e ao “amor” que acreditava existir. A vida é isso mesmo e poucos vão contradizer a hipótese dela ser um acúmulo de pessoas que ficam pelo caminho. De um lado, deixamos algumas agoniando, sofrendo e tentando entender o que aconteceu. Do outro, deixamos saudades, amizades, amor fraterno e cumplicidade. Na velhice, muitos vão contar as proezas para os netos, obviamente, se um câncer não solucionar e acertar as contas com o corpo recheado de mágoas, remorsos e ressentimentos.

O relacionamento com Ângela durou um bom tempo. Tempo demais para Eduardo perceber, na verdade, que não amava Ângela. Talvez teria ficado seduzido pela sua beleza e “manifesta liberdade”. As relações já não eram as mesmas. Fria tal como um gelo, Ângela fazia o que tinha que ser feito, mas apostava que o casamento continuaria e que a crise passaria. Afinal, o sofrimento é um cruel e sempre perigoso passageiro. Eduardo não pensava da mesma forma. Cansado, mas desconfiado e receoso de uma vida solitária continuou o relacionamento. As compras, os passeios, as festas, as visitas aos pais, todas eram feitas por obrigação, inclusive, as “obrigações” sexuais. Eram relações sádicas, próximas à violência, ao desprezo desmesurado, ao ridículo, ao escárnio, ao podre e à perversão.

Anos se passaram e as conveniências tomaram conta da vida do casal. As festas eram engraçadas, felizes, lotadas de amigos e irmãos que invadiam e aproveitavam a bela casa de Ângela. Porém, pouco resiste as relações baseadas em aparências, principalmente, quando em quatro paredes, os corpos se encontram. Não é possível suportar por muito tempo o mundo de perversões, mal entendidos e subentendidos. Eduardo passou a desconfiar que Ângela estava se encontrando com outras pessoas. Mas ele não ligava: “antes com outro que comigo. Pelo menos tenho um pouco de sossego”. Muitas foram as noites que pouco dormia para não encontrar com o corpo de Ângela que não mais conhecia.

Eduardo voltou ao mercado do amor. Deixou Ângela no “balaio” e se envolveu com a filha do seu patrão. Um novo mundo se abriu: as possibilidades de ascensão social, a alegria de viver e o interesse em ter mais filhos. Tudo perfeito. Márcia, nem era tão bonita, mas sempre se pautava por uma conduta responsável, honesta e verdadeira. Romântica, cedeu aos encantos dos lindos olhos de Eduardo. Ainda jovem, ele, apesar de experiente, não deixava de demonstrar um sorriso suave e uma respeitável indumentária de inocência e ingenuidade. Márcia se encantou com Eduardo, o qual não perdeu tempo na busca do que percebia ser o melhor para ele. Não sabia se amava Márcia. Mas, sem dúvida, sentia-se seguro: segurança no campo financeiro, cultural, laboral e, a mais importante, psicológica. Calculista e perspicaz, Eduardo tornou sua vida com Ângela insuportável e, em meio a uma noite quente de verão, pediu a separação não deixando de esbravejar certas verdades, várias mentiras e acordos tácitos que fazem parte das relações hipócritas e sádicas da conveniência.

“Antes tarde do que nunca", “A porta que você entrou é a mesma que você tem que seguir para sair”, "A porta é serventia da casa", pensava Eduardo. Não passava pela sua mente os sofrimentos causados em Eliane e Ângela: “Isso é problema delas", “A vida é assim mesmo, eu sou homem e não quero ficar sofrendo por causa delas”, rolava ele na cama enquanto pensava em novas possibilidades de gozar a vida com Márcia. Tudo seria diferente: carros, boates, filhos, almoços dominicais, televisão com pipoca, essas coisas que fazem parte dos relacionamentos românticos e longe da realidade da vida. Terminado tudo com Ângela, Márcia parecia oferecer um mar de flores. As relações eram boas e prazerosas. Márcia era “perfeita”, além de filha do patrão, dividia as contas, não pegava no pé, gostava de se divertir e, apesar de sua mãe, era muito atenciosa. A felicidade, finalmente, havia chegado. Era possível ser feliz nesse mundo cheio de ilusões baratas e perfeitas. Ser feliz é o objetivo de homens e mulheres que andam pela terra já marcados pelo pecado original. Pensam eles que a felicidade é o normal da vida e não o sofrimento que, aos poucos, vai ensinando os caminhos da humildade, da perseverança, da mansidão e da espera constante da experiência. Mas são poucos os que desejam esperar o momento certo e a hora exata. Vivemos no mundo da velocidade, da juventude que não envelhece, de necessidades que não tem fim e de um consumo supérfluo que nos joga em espaços virtuais de felicidade e falsa compaixão.

Mas se existe algo que não temos controle, é o controle do tempo. Não somos educados para vivê-lo e tê-lo. Somos treinados para passá-lo e aproveitá-lo. Esse talvez era o problema de Eduardo que, na ânsia de marcar a ferro e fogo Márcia, falou muitas coisas que não devia, mentiu, traiu princípios e valores que, quando vieram à tona, ela não suportou. Eduardo há muito não tolerava os cuidados de Márcia com sua velha mãe que, muito doente, sempre a solicitava nas noites e nos dias. Eduardo, preocupado com os custos do tempo, se rendeu aos imperativos machistas e aos apelos femininos da estética ocidental. O seu rendimento ao sexo compulsivo, deflagrador de virgens e destruidor de relações demorou em sacudir sua consciência: “o que estou fazendo com a Márcia?”, “Eu não a amo?”. Naquela altura, tudo indicava ser tarde demais. Eduardo conhecia bem o caráter de Márcia e, na incerteza de falar a verdade, tornou a relação tensa, conflituosa e misteriosa. Ambos passaram a se evitar, a comentar fatos, alegrias e tristezas. Logo em seguida, passaram a brigar. Mais que isso, a deliciosa cumplicidade cedeu espaço à desconfiança, à indiferença, à insegurança e ao medo.

Márcia, preocupada com as constantes recaídas da mãe, pensou em desistir da relação. Suportou o tanto que pode. Eduardo, ao contrário, não se satisfazia com os poucos momentos em que eles podiam se encontrar para trocar poucas, mas intensas e, talvez, verdadeiras juras de amor. Começou o que entendia ser o seu calvário: contou para os colegas os problemas, atazanou os familiares e, por fim, endureceu a relação com Márcia, utilizando para isso pequenos toques que desestabilizavam suas emoções. Quando não estava doente, Eduardo estava com problemas financeiros, com problemas com o pai, com a mãe e com o filho que havia deixado com Eliane. Márcia, diante das condições objetivas de uma relação que exigia muito mais do que podia oferecer, passou a sentir culpa rendendo-se à depressão e às doenças que invadiram o seu corpo. Doente, endividada, sofrendo as inúmeras investidas do trabalho e sem forças para auxiliar a mãe, decidiu por colocar um fim no relacionamento com o belo Eduardo. Difícil saber se Márcia e Eduardo realmente desejavam o final daquele relacionamento que acreditavam ser repleto de amor, sonhos e planos. Há certas relações que terminam por cumplicidade, por conflitos ou porque o amor ou a paixão decidiram ir embora. O que se sabe é que os dois não estão mais juntos. Márcia continua só. Optou por cuidar da saúde e das doenças oportunistas provenientes da depressão. Além disso, tem economizado para pagar as contas e regular sua vida da melhor maneira possível. Por outro lado, Eduardo anda “comendo todas”, gozando a vida em lábios errantes e à procura de uma nova mulher que possa lhe garantir um futuro melhor e, quem sabe, alguns filhos. Machista, não acha que os homens devam ficar sozinhos curtindo o luto da perda e verificando os estilhaços da subjetividade que ficaram pelo caminho. Pelo contrário, ele diz “que cada um se vira como pode”, e pelo jeito, tudo é permitido, menos o sofrimento e o respeito pelo sentimento e as idiossincrasias alheias. E, nesse caso, quantas mulheres melhor, e que venham com muito sexo, bebidas e perversões que beiram à promiscuidade. Eduardo faz parte de uma legião de homens e mulheres que optaram por gozar a vida. Gozam da maneira que lhes convêm e ai daqueles que estacionam e ficam no caminho. Vivem em uma sociedade hierarquizada, recheada de relações de malandragem e sedução e optam pelo uso da aparência física, das relações mesquinhas de "amizade" e de uma ilusão regada a automóveis, baladas, drogas, churrascos, shoppings e festas sem fim. Porém, não cabe julgamentos, a sociedade já se constitui como um poderoso juiz, afinal, “a vida é assim mesmo”, “não se deve sofrer por causa dos outros” e, como dito, “cada um se vira da forma que pode”.

Lúcio Alves de Barros
Enviado por Lúcio Alves de Barros em 06/11/2007
Reeditado em 15/06/2008
Código do texto: T725167
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Sobre o autor
Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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