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E de repente...

De repente ela surgiu.
Eu pensando que tudo a minha volta tinha terminado, mas ela surgiu.
Em um dia como todos os dias, sem explicação, sem permissão, nada; ela se colocou ao meu lado e me sorriu.
Seu sorriso: a janela para sua alma.
Logo de cara sei tudo. As pessoas não precisam abrir a boca, só de olhar já sinto tudo: a tristeza, o mal humor, a indiferença, a alegria, a fraternidade. Eu saco tudo de cara. Ficou fácil, não me restam expectativas.
Se tivessem me avisado, eu não a olharia com minha cara de idiota, no máximo, eu tentaria mostrar meus dentes: A janela da minha alma.
Mas eu fiz o favor de perguntar "pois não?". Fiz o favor de me estragar, de fuder com tudo. Um "oi" bastava, mas não, eu já faço tudo tão expontâneamente que fica difícil me impedir.
Nem deu bola, fingiu que eu não estava lá e me perguntou se estava tudo bem.
No meu relatório consta:
Imprecisão;
Indisposição;
Irremediável.
O gato! Havia um gato em tudo isso, o maldito gato que me ligou ao destino.
Lá estava eu chamando o gato quando ela apareceu. Eu, torcido e esticado para fora da janela, tão ridículo a ponto do gato sentir vergonha de estar comigo, mas ela parou e riu.
Ok, ok. Você pode pensar: "Ela só queria passar e você estava na frente" ou "Ela riu porque tinha um idiota a meio corpo fora da janela gritando "Platão?""
Eu estava chamando o gato quando percebi que se agitar para fora da janela gritando o nome de um cara morto a 4 mil anos não é coisa de alguém lúcido. Então levantei a cabeça antes de puxar o corpo, bati no vidro da janela e, logo após, levei a mão à cabeça. Daí começa a história.
Supondo que ela estivesse falando comigo, era melhor eu falar alguma coisa. Alguma coisa impactante, daquelas que só se vê no cinema. Tipo James Dean no filme Juventude Transviada. Mas eu não tinha moto, beleza nem uma jaqueta de couro. Então eu mexi minha boca.
Ela respondeu "O quê?".
O quê?
Ok. De idiota à retardado em um pulo.
Mas ela aguentou!
Ela, com seus cabelos brilhosos e cortados no estilo chanel das atrizes francesas, com sua pele branca e seus olhos reluzentes, estava a minha frente sorrindo.
A janela para alma.
Nietzsche adorava uma tal de síndrome de Stendhal, uma síndrome que deixa a pessoa idiota perante a algo tão belo, tão estonteante. Uma arte tão fascinante que ficamos hipnotizados e sem reação. Era isso que eu sentia: fascinação por ela.
Pelo que me consta, temos 30 segundos para falar algo em uma conversa, após isso, vem o constrangimento. Mas se não ficamos constrangidos após 30 segundos, encontramos o amor de nossa vida(É o que dizem).
Tudo bem, não posso falar que minha vida é uma tragédia, já passaram alguma mulheres nela, mas não com esse sentimento de agora. As outras foram legais, porém, não me suscitavam o coração.
Meu coração, batendo sem pensar, batendo pela primeira vez sem ser à toa, batendo utilmente, batendo para fazer valer seu status de coração.
Agora posso falar, sem exagero: eu experimentava pela primeira vez a primeira sensação do amor, o indício da minha existência. Poderia falar que a vida que me foi tirada sem eu perceber, agora estava mais próxima, ou seja, essa mulher poderia me devolver a vida. Eu poderia pronunciar a palavra amor pela primeira vez de forma tão simples.
Ops, fugi do rumo da história, mas voltando a ela, conversamos horas, horas que foram as mais preciosas da minha vida. Encontramos-nos pela segunda vez e a terceira foi oficial.
Eu tentava a impressionar com todos aqueles apetrechos que as típicas mulheres gostam, mas ela é simples, feita para mim. Enquanto algumas mulheres pensam em carros, lugares maravilhosos, um cara maravilhoso, um mundo maravilhoso, ela só queria andar pela paulista, só queria fazer isso: andar e conversar. Viver para ela era algo simples também, ela gostava dos momentos clássicos do cinema, falava-me do modo como foram feitas as melhores cenas de "Psicose" e "O médico e o monstro", falava-me dos pequenos detalhes belos da vida. Discutíamos sobre relacionamentos: eu com minha versão de que o amor subjetivo existe e que a sexualidade é um produto social e ela com sua análises biológicas do amor e a degeneração masculina.
Pela primeira vez minha vida se tornava um filme. Eu me sentia atuando em um filme de Wood Allen andando pela paulista e conversando coisas bem típicas do dito cujo.
Eu já não via mais a brutalidade do mundo. As coisas pareciam mais amistosas agora. A violência que se representava na arte se tornou ridícula, antes eu via tudo aquilo como a expressão humana mais sincera, mas agora, nada.
E vou ser honesto, eu era uma rocha, eu era duro e amargo mesmo, mas hoje eu decidi chorar, decidi que era o momento certo e chorei:
Chorei para esquecer das besteiras que passei;
Chorei para esquecer minha frustrações;
Chorei para esquecer das falsidades;
Chorei para esquecer as desilusões.
Chorei para mostrar que esse mundo é melhor com o coração.
As melancolias e tristezas fazem parte de todas as vidas, mas elas são as provas vivas que as pessoas não são maquinas, que as pessoas não são industrias de produção, sentimentos não são meras quantidades químicas.
Apenas um poema para me traduzir( que me desculpe o autor por estar roubando isso, mas ele é famosos, vai superar.):

"No fundo sempre soube
Que alcançaria o amor
E que isso se daria
Um pouco antes da minha morte

Sempre tive confiança,
Nunca renunciei
Bem antes da sua presença,
Você se anunciava

Pronto, será você
Minha presença efetiva
Entrei na alegria
De sua pele não fictícia

Tão suave ao carinho
Tão leve e tão fina,
Entidade não divina
Animal íntimo. " (Michel Houellebecq)
Plínio Platus
Enviado por Plínio Platus em 07/11/2007
Reeditado em 27/02/2009
Código do texto: T727030
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Sobre o autor
Plínio Platus
São Paulo - São Paulo - Brasil, 102 anos
81 textos (8216 leituras)
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Plínio Platus