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Hipocondríacos também amam.

Ela tem vinte anos de idade e um olhar estranho de tristeza. É difícil explicar essa tristeza devido a luz, mas seus olhos estão bem desgastados e sem vida.
Estão cansados.
Eu pergunto por que ela está triste.
E se há algum histórico de suicida na família.
A minha frente está meu amigo Pedro, acendendo seu cigarro de forma estranha e falando algo a alguém com uma certa agitação em seus braços.
 - Cara, falando sério, onde você estava?
Pedro sempre odeia o mundo inteiro.
Ela olha para nós. Inclina-se para trás e começa a olhar lentamente e idiotamente para nós.Nós, nós, nós, seu corpo em movimentos alternados.
Marx diz:
“A cavalo dado não se olha os dentes, mas também não se distribui presentes.”.
Marx diz:
“Presos juntos. Juntos enforcados.”.
Eu digo:
 - Tristeza é sintoma de depressão.
Alguém fala sobre minha capacidade de amar e ser generoso.
 - Porra, que sujeito lunático.
Enquanto ela se agita sentada ao meu lado, os lados escuros a torna mais bonita. O escuro esconde espinhas, cicatrizes, verrugas, tatuagens e outras marcas do tipo. Ela parece ter dentes.
É estranho imaginar que a beleza por trás da palavra mulher tenha mais sentido do que a mulher propriamente dita.
O escuro faz com que até o Pedro pareça sadio. Ele abaixa a cabeça segurando a haste do óculos e, logo em seguida, agita o cabelo. Olha fixadamente para sua paciente, seu trabalho.
Agitando-se a meu lado devido ao desconforto da música, ela diz, ou melhor, grita:
 - O quê?
Parece um moreno natural, de forma que pergunto se ela tem tido queda de cabelos ultimamente.
Sem olhar para mim, Pedro pergunta:
 - Cara, sabe o quanto fazer isso me custaria?
Para ela pergunto se há alguma alteração na mestruação.
A minha frente, ela se agita para trás e para frente, abaixa o olhar e diz:
 - O quê?
Digo que suicídio é a forma mais comum entre jovens com distúrbios emocionais.
Depois eu berro:
 - Vou precisar apalpar seus nódulos linfáticos.
Pedro pergunta:
 - Cara, você quer ou não dizer o que te incomoda em mim?
Eu grito:
 - Ou pelo menos apalpar seu baço.
Mexendo o cigarro de forma circular no espaço, ele diz:
 - Estou pressentindo um certo desconforto.
A morena olha assustada e quase chorando para mim, ela diz:
 - Nathalia. Meu nome é Nathalia. Ninguém pode me tocar.
Isso me lembra as etapas da minha vida:
Sintomas.
Alergias.
Remédios.
Evolução.
Alcoolismo.
Tabagismo.
Intoxicantes.
Ambiente.
Família.
A paciente de Pedro tem seis fartos.
Como fumar faz parte de seu número, perguntei se ela tem alguma dor persistente.
 - Percebeu alguma perda de apetite?
 - Algum mal-estar?
Se era daquele jeito que ela vivia a vida, era melhor freqüentar um psiquiatra regularmente.
 - Caso você fume mais de um maço por dia...
Sexo não seria má idéia, eu digo a ela.
Ela se coloca com o corpo inclinado e com uma cara exaustiva, olha para mim e diz:
 - Que papo é esse?
Pedro exala fumaça em seu próprio rosto e, ainda segurando o cigarro, agita os braços para todos os lados, inclinando o corpo para trás e levantando levemente o pé para frente.
Quer dizer, “exalar” é a palavra que encontrei para dizer uma raspagem de uma amostra de seu pulmão.
Ela é pálida, até sob o escuro. Ela recolhe as pernas e as juntam. Eu apago o cigarro na cerveja de alguém e digo:
Você tem algum problema mal resolvido com mulheres?
Eu grito:
 - Toda mulher é um novo tipo de problema.
Pedro pega uma cerveja e diz:
 - Cara, não gastei...
Digo:
 - O que ela disse?
Ele diz:
 - Falou sobre você naquela noite. Diz que vai, mas você tem que cooperar.
Digo:
 - Tem tido náuseas ou diarréia?
Pedro:
 - Ei, cara!
Pedro é:
Característica.
Inicio.
Localização.
Duração.
Exacerbação.
Alívio.
Radiação.
Sintomas associados.
Pedro insiste:
 - Ei, cara!
Lembro de:
Palpitações.
Lamentações.
Humor oscilante.
Paranóia.
pânico.
Angústia.
Morte proposital.
Tal amigo. Tal amigo.
Pedro estala os dedos como se fosse um mágico:
 - Onde é que você estava?
Essa é a verdade. Esse é o mundo em que vivemos. Eu já passei no vestibular. Eu frequento a faculdade tempo suficiente para saber que uma tristeza nunca é apenas uma tristeza. Que uma simples magoa significa síndrome do pânico, bipolaridade, grande mal, anorexia, esquizofrenia e morte.
 - Veja a pele dela – digo a Pedro – Isso é sinal de anemia causada pela depressão.
Se estamos confusos, isso significa bloqueio renal.
A gente aprende tudo isso pelo desgaste da vida, e não há como voltar atrás.
Ignorância é o paraíso.
Todo mundo no ato sexual vê o outro como paciente. Uma paciente pode ter seios lindo, olhos brilhantes, mas se seu hálito é ruim, é leucemia.
Com suas páginas da vida, Pedro vai preenchendo com bela figuras: Lindas mulheres sorrindo, lançando beijos, mulheres com o rosto virado para baixo, mas olhos levantados através do cabelo.
Digo a Pedro:
 - Perda de apetite é sintoma de depressão.
Ele diz:
 - Então, cara, você está com essa tal de depressão há muito tempo?
Do jeito que as coisas estão, já sei mais do que acho tolerável.
“Depois que descobrimos todas as coisas que podem dar errado, passamos a viver menos e a esperar mais.”.
Esperar pela demência.
Quando nos olhamos no espelho procuramos sinais de alguma doença, câncer.
Talvez: Micose
Talvez: Meningite
A única coisa que consigo ver é que ela não é uma boa pessoa para estar no momento.
Talvez: Timidez excessiva.
Talvez: Fobia social.
Talvez: Tendência psicopata
Talvez: Morte causada por suicídio.
 - Você a leva? - Pedro diz.
Digo:
 - Não quero que ela vá embora ainda.
Ele se coça debaixo do olho, bate em suas próprias coxas e bufa. Sua aparência não parece afetada pela falta de luz.
Talvez: Má nutrição.
Os músculos estão relaxados.
Talvez: Impossibilidade física.
Digo:
 - Cara, assim ela fica velha demais.
Sua paciente chega e pergunta:
 - Devo ficar com medo da vida?
Sem olhar para ela, levanto um dedo. Isso significa: Por favor, espere.
Eu me inclino e digo a Pedro:
 - Estamos tão estruturados e microgerenciados que isso não é mais mundo, é uma porra de mundo.
Pedro continua a vida e diz:
 - Cara, você não é um bom artista, sabia?
Continua:
 - Antes de esculhambar todo mundo é bom você ligar para seu responsável.
Para Nathalia digo:
 - Se você estiver realmente disposta a salvar sua vida, vou precisar falar com você em particular.
Ela diz:
 - Seus olhos parecem cansados.
Plínio Platus
Enviado por Plínio Platus em 07/11/2007
Código do texto: T727032
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Sobre o autor
Plínio Platus
São Paulo - São Paulo - Brasil, 102 anos
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