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Forrest e EU


  Forrest e eu éramos quase inseparáveis. Olhávamos um para o outro e já sabíamos o que queríamos. Sentávamos no sofá e assistíamos filmes até de madrugada durante os finais de semana. De dia brincávamos e rolávamos na grama até ficarmos todo sujo e dona Maria dava banho de mangueira na gente. D. Maria levava a gente para passear no parque e chupávamos picolé até se melar todo.
Forrest tinha sempre um olhar tranqüilo e alegre. Só ficava de mau humor quando estava com fome. Eu também. Afinal gastávamos muita energia com nossas brincadeiras sem fim.
Entrávamos em muitas confusões juntos e geralmente D. Maria era vítima de nossas trapalhadas. Uma vez estávamos brincando de bola na cozinha e eu joguei a bola tão alto que bateu no armário de panelas derrubando a tampa de uma panela na cabeça da velha. Nunca vou me esquecer da sua cara com uma vassoura esculachando a gente. Ficamos proibidos de entrar na cozinha durante uma semana.
Outra vez Forrest foi pegar a bola que caiu atrás do jardim de mamãe e matou todas as flores que ela cuidava há mais de cinco anos. Nunca vou me esquecer do impagável olhar de inocente–culpado que o meu amigo fez na hora que viu o estrago. Bola suspensa por um mês.
A bola já tinha quebrado vidros de casa, vidro do vizinho, vidros do carro, já caiu na cabeça de papai e de D. Maria... Enfim. A pobre da bola era odiada por todos, menos por nós. Nunca nos cansávamos dela.
Mamãe então ficou bastante doente. Ficava no hospital e eu ficava em casa com papai, Forrest e D. Maria. O clima ficou pesado lá em casa e Forrest e eu trocávamos olhares de compaixão o tempo todo. Ele estava mais ainda comigo. Se eu estava sentado na cama ele vinha e ficava ao meu lado e me lançava um olhar animador. Então corríamos para o jardim com a bola. E parecia que a casa mudara de astral. Às vezes eu deitava na cama pensando em mamãe e ele deitava comigo ao meu lado. Sabia que ele também sentia a falta dela na casa.
Então o tempo passou muito menos lento do que pareceria se Forrest não estivesse comigo todos os dias. E muito mais tranqüilo também. Mamãe parecia melhor e voltou para casa mas ainda estava fraca e precisava descansar bastante. As brincadeiras de bola e o corre-corre ficaram totalmente proibidos dentro de casa. Só no jardim. Forrest respeitava tanto mamãe que até caminhava mais cauteloso dentro de casa, apesar de ainda quebrar algumas coisas com seu jeito desastrado.
Eu estava na sala assistindo TV quando Forrest veio correndo com a bola. Pulava e jogava a bola para cima e me olhava com um olhar de excitação tão grande que dei um pulo do sofá, peguei a bola e corri em direção a porta do jardim. Estava trancada. Por algum motivo D. Maria trancara e levara a chave. Mas Forrest não queria saber e começou a chorar alto e fino. Mamãe dormia no quarto e então fomos para a rua. Morávamos em uma rua pouco movimentada onde as crianças brincavam na rua mesmo e todo mundo conhecia todo mundo.
Juntei todas as minhas forças e as concentrei em meu braço direito. Lancei a bola com uma vontade tão grande que fiquei impressionado com a distância que aquela bolinha verde voou. Forrest concentrou suas forças em suas pernas finas e saiu correndo como um desesperado. Correu tanto que se perdeu das minhas vistas.
E não voltou mais. Demorou um pouco e eu fui procurá-lo na direção que tinha ido. Vi o pequeno corpo do meu amigo vira lata no chão.  Tinha sangue e a bola estava em sua boca. Depois entrei em um estado de choque tão grande que não me lembro o que se seguiu.
Passei semanas no jardim com a bolinha de meu adorado cão. Podia vê-lo correndo pela grama e se lambusando todo com a terra. E um sorriso se abria no meu rosto ao se lembrar do seu olhar engraçado e desastrado. Percebi que não importa onde estivesse, toda vez que eu olhasse para a bolinha me lembraria dele e de seu olhar sorridente. Ai eu sorria também e tudo parecia mais alegre e mais tranqüilo.
      Com dez anos de idade tive que entender que nada era para sempre, e de tudo que ia embora sempre ficava algo de bom. E assim ficou o sorriso de Forrest na bolinha que carrego até hoje, trinta anos depois.

Malluco Beleza
Enviado por Malluco Beleza em 09/11/2007
Código do texto: T729674

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Sobre o autor
Malluco Beleza
Salvador - Bahia - Brasil, 30 anos
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