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A Maldita Pele

Sérgio Alcazar era um virtuose do piano. Um prodígio aos 15 anos, talento consolidado às portas dos 30. Tinha o mundo da música erudita aos seus pés. Catalizara fama, prestígio e um certo conforto que os dois primeiros ajudaram a conquistar. Sérgio era quase feliz. Faltava-lhe o amor de Lucinha.
Sérgio tinha fimose, aquele odioso excesso de pele a cobrir-lhe parte da glande, dando ao seu membro permanente aspecto de uma tromba de elefante. "Maldita pele, maldito mundo", praguejava com freqüência diante do piano de calda após exaustivas horas de prática refinando a já apurada técnica de concertista. Praticar, sempre praticar. Assim fora desde a infância por imposição de sua mãe. Ao menos ela podia ter-lhe examinado a pica uma vez na vida. Esta atitude materna o teria livrado de certos constrangimentos.Quando adolescente, batia-lhe vergonha no vestiário após as aulas de educação física, quando trocava de roupa às escondidas, temendo ser vítima de chacotas dos colegas de classe. Também não tinha coragem de contar a mãe ou a pai que aquilo o afligia, se bem que, os dois estavam mais preocupados em transformá-lo em um fenômeno da música clássica, mesmo que ele nada tivesse entre as pernas, um assexuado. Bastavam-lhe as mãos para deslizar sobre as teclas do piano e garantir o sustento da família. Com o tempo ele descobriu que seu problema se resolveria com uma cirurgia, contudo, o pânico da operação aliado a vergonha de passar ridículo perante amigos, familiares e o grande público o impediam de consultar um urologista.
Sua tromba o afastou das meninas por toda a adolescência até que um dia, beirando os 20 anos, resolveu ser hora de testá-la. E o fez em grande estilo, em Amsterdã, durante uma folga do conservatório de música onde estudava em Berlim. Escolheu a puta mais bonita que as vitrines do Red Light Distric exibiam, pagou e subiu uma escadinha, com sua cara quase a tocar a bunda holandesa rebolando a sua frente.
— O garoto é virgem? – perguntou a prostituta em inglês impecável.
Como resposta, Sérgio exibiu o falo defeituoso.
— Pra tudo há um jeito – sorriu a mulher maliciosamente.
Sérgio deixou os Países Baixos ao menos sabendo que sua bendita pele não o impedia de exercer as artes da fornicação.
E passou dez anos entre sustenidos, claves de sol, partituras, pianos de calda e putas. Elas ao menos não o questionavam sobre sua condição. Receberiam seu cachê e pronto. Junto a elas não existia vergonha.
Foi apresentado a Lucinha após um concerto no Teatro Municipal do Rio. Naquela noite extenuara-se ao fim de brilhante execução do Concerto nº 3 para piano e orquestra, de Rachmaninoff, obra que poucos ousavam tocar devido a sua complexidade. Desejou ser breve, atendendo àqueles que vieram cumprimenta-lo quando ela surgiu no camarim trazida por uma amiga de um amigo de outra amiga. Dona de penetrantes olhos verdes e sorriso acuringado, pele de porcelana e brilhantismo a cada frase dita, Lucinha deixou Sérgio fortemente impressionado. Ela pediu um autógrafo. Levou mais do que uma assinatura em um pedaço de papel. Nele continha o telefone do grande pianista. Sérgio custou a acreditar em sua própria ousadia, afinal, era um tímido, misantropo, expressava-se com certa dificuldade. O interesse avassalador que Lucinha nele despertara o fizera audacioso.
Lucinha ligou na manhã seguinte. Marcaram um almoço que se estendeu por toda uma tarde. Descobriram afinidades mútuas. Sérgio ficou a escutar, embasbacado, algumas da aventuras da moça no campo da antropologia, sua profissão. Despediu-se no fim do almoço já  apaixonado.
Sérgio precisou viajar para Londres para cumprir uma agenda lotada de apresentações. Pelo celular Lucinha ouviu sua declaração de amor. Combinaram um encontro mal ele pusesse os pés no aeroporto.
O reencontro assemelhou-se a uma seqüência romântica de um clássico cinematográfico. Os que presenciaram a cena no terminal internacional do Tom Jobim, viram um casal de poucas palavras e muitos afagos, Sérgio, que não dirigia, foi caroneado por Lucinha até o estacionamento de sua cobertura na Barra da Tijuca.
Foram se despindo em gestos coreografados enquanto penetravam os aposentos até se encontrarem completamente nus em um dos cinco dormitórios da imóvel. Lucinha, demonstrando audácia fêmea, ajoelhou-se diante de Sérgio para presenteá-lo com um oral preliminar. Ao notar o prepúcio avantajado do músico a estreitar-lhe a glande, desistiu do ato, indo sentar na cama king-zise que dominava o quarto.
— O que houve? – perguntou o pianista enquanto acariciava suas costas nuas.
— Fimose, Sérgio? Na sua idade?
O jovem concertista percebeu a decepção entranhada na voz da amada. Tentou explicações, falou dos pais em nada zelosos durante a infância, da timidez excessiva a retardar-lhe um tratamento, da prostituta na Red Light Zone e seu pleno funcionamento sexual, a despeito da fimose, mas nada demoveu Lucinha.
— Escuta aqui, cara – agora havia certo ressentimento em sua voz – uns anos atrás conheci um sujeito com um “defeitinho” igual ao seu. A dele até se rompeu durante uma transa. Jorrou sangue para tudo é lado, eu acabei “operando” a criatura, mas as lembranças  com ele não foram das melhores. Lamento, estou fora.
E foi catando suas roupas, se vestindo a cada peça encontrada. Parecia um daqueles filmes rodados de trás para frente, tanto que, à porta principal da cobertura ela já se encontrava composta. Sérgio seguiu seu passos nu, coberto apenas de argumentos e desculpas.
Ao se deparar sozinho, abandonado na luxuosa cobertura Sérgio baixou o olhar em direção ao membro focando sua única companheira fiel por toda a vida: a odiosa fimose. Gritou a plenos pulmões, um grito de raiva, desabafo, mágoa contida.
Quebrou vários objetos da sala. Jogou do alto da cobertura uma TV de 42 polegadas, tela plana. Foi manchete no dia seguinte na seção de escândalos de celebridades do principal jornal carioca pela chuva de coisas que caíram do imóvel de sua propriedade.
Naquela mesma semana, apresentou-se no Ópera de Arame, em Curitiba. A crítica especializada aplaudiu em frenesi a peculiar execução de Sérgio Alcazar para a série de Noturnos de Chopin, onde o concertista, dotado de assustador vigor e certa virulência, parecia transtornado ao piano. “Um Mozart em delírio interpretando Chopin”, escreveu um crítico em um jornal curitibano. Mal desconfiavam ser o ódio entranhado  misturado a decepção amorosa a guiarem os dedos que impulsionavam o teclado com ferocidade, maltratando Steinway de calda.
Sérgio deixou o Brasil disposto a livrar-se de vez da infeliz pele. Tomado por desconhecida atitude, algo que sempre lhe era escasso, estudou durante semanas na internet os prós e contras da postectomia. Sentiria alguma dor no pós-operatório em virtude de ereções noturnas involuntárias comuns a qualquer homem sadio mas nada que um bom analgésico não desse conta. Os pontos cairiam por si só e, em aproximadamente um mês, poderia voltar a ter relação sexuais.
Consultou o melhor urologista de Nova York, que repetiu com enfeitados detalhes o que ele já havia exaustivamente pesquisado na grande rede. Dr. Jarvis carregava em sua fisionomia um fac-símile de Mahatma Ghandi, fato que transmitia tranqüilidade a Sérgio. Já que iria entregar seu pau a algum açougueiro, que fosse um que lhe passasse total segurança. Dr. Jarvis, com aquela cara de líder espiritual, parecia mais inofensivo que um bicho-preguiça dormindo. Era como se deixar aos cuidados do próprio Ghandi.
A operação poderia ser feita no próprio consultório, com anestesia local, em menos de uma hora com o paciente voltando para casa em seguida.
— Fácil como arrancar um dente – sorriu Dr. Jarvis de maneira quase angelical.
Sérgio optou por anestesia geral e recuperação dos primeiros dias em um hospital. Afinal, dinheiro servia para lhe poupar eventuais desconfortos.
Chegado o dia D, deitado da cama da sala de cirurgia, Sérgio ainda conseguiu encarar pela última vez o membro encapado pelo prepúcio. “Bye, bye, infeliz”, foi o seu último pensamento antes que a anestesia geral o desligasse do mundo.
Acordou sobressaltado em virtude a injeção de adrenalina ministrada. Disse coisas inimagináveis e destituídas de razão, assoviou sinfonias e confundiu Dr. Jarvis com o próprio Mahatma. “Não és primeiro a dizer tal coisa”, brincou o cirurgião enquanto o tranqüilizava.
Assim que recuperou o controle, Sérgio notou-se sozinho em seu quarto no hospital. Sentindo alguma dor,  puxou o lençol que o cobria para contemplar a obra de Dr. Jarvis. Viu o membro inchado, enfaixado e apenas a ponta da glande a mostra. Sentiu-se mais aliviado. Ao menos tudo parecia correr bem.
Durante os dez dias de internação, permaneceu aos cuidados de Patrick Jonhson, um enfermeiro negro e parrudo como zagueiro de futebol americano. Jonhson era cantor de rap nas horas vagas e nunca tinha ouvido falar do seu paciente. Sérgio havia optado por um enfermeiro homem. Não queria que eventuais traseiros femininos zanzando em seu quarto metidos em jalecos apertados fossem atrasar sua recuperação.
— Ninguém vem visitá-lo, Mr. Alcazar? – perguntou o ciclope de ébano enquanto fazia a assepsia do membro operado.
— Minha família não sabe que estou aqui, Jonhson. Pensam que estou de férias em alguma ilha do Pacífico.
O negro largou uma gargalhada tsumânica.
Em quatro semanas estava recuperado, de membro novo, glande reluzente, exposta.
Agora, reencontraria Lucinha.
Foi direto do aeroporto para a casa moça. Tocou o interfone. Uma voz masculina atendeu. Calafrio.
— A Lucia, por favor.
— Não mora mais aqui.
— Deixou endereço?
— Não propriamente. O senhorio disse que ela foi passar um ano pesquisando os costumes de uma tribo lá no Alto Xingu. A moça é antropóloga, não?
— Puta merda!
— Qual é, cara? Me acorda às cinco da manhã e ainda fica falando palavrão? Vai se fudê, seu filha da puta! Se tocar de novo eu chamo a polícia ou desço para lhe quebrar a cara, ô caralho!
Foi para casa chorar sua falta de sorte. Dormiu à base de calmantes. Quando a tarde caiu, deixou a cobertura para embebedar-se. Acordou em uma cama desconhecida com uma ressaca demolidora. Ao seu lado, uma morena esculturalmente nua repousava. Reconheceu-a pela tatuagem tribal na altura do cóccix. Sua garota de programa predileta em terras cariocas.
Ela se virou de lado, esfregou os olhos e sorriu dentes alvos enquanto despertava.
— Que surpresa agradável hein maestro? Estreou a batuta nova comigo?
Aurélia, codinome Úrsula, sempre o confundia com um maestro.
— Mas, correu tudo bem? Não consigo me lembrar.
— Também né? Na beba que tu chegou aqui no apê.
Abraçou-o carinhosamente, aninhando-se no seu peito
— Foi muito gostoso, maestro.
— Primeira trepada depois da cirurgia e eu não consigo lembrar como foi – lamentou o pianista.
— Não seja por isso querido, disse ela montando em Sérgio. Temos o dia todo para você descobrir...
Depois deste ocorrido, Sérgio voltou a sua rotina de viagens e concertos Esquecera por completo o fiasco com Lucinha. Até que um certo dia, quando estava em sua cobertura, recebeu interfonema da portaria avisando que a antropóloga desejava subir.
Um misto de aflição e surpresa o assaltou. A paixão pela moça dos olhos verdes como águas límpidas de um lago paradisíaco deixou seu estado latente, percorrendo todo seu corpo feito uma corrente elétrica. Seu coração, acelerado, recebera a voltagem.
Abriu a porta feliz, ansioso. Lucinha em quase nada mudara. A não ser a pele um pouco mais curtida e uma pena indígena a decorar-lhe a orelha esquerda em forma de brinco, era a mesma mulher que o impressionara no primeiro encontro no camarim do Municipal.
Ele beijou-a na face esquerda. Ela entrou, sentou-se no sofá e perguntou pelas novidades. Sérgio teve vontade de arriar as calças e gritar “surpresa!”, mas conteve-se.
Ele sentou-se ao seu lado. Falou dos concertos. O que mais dizer? Que sofrera por ela, até mutilara-se em nome do seu amor, apesar da humilhação que ela lhe infligira? Que vinha copulando feito um fauno com prostitutas pelo mundo afora para esquece-la? Tudo isto ficara para trás. O que importava era o agora, a reconciliação.
Lucinha tocou seu braço direito, acariciando-o
— Sabe, Sérgio, fui preconceituosa em relação ao seu problema. Na verdade, nem deveria chamá-lo dessa maneira. Em minha estada no Xingu, vi índios portentosos com prepúcios gigantescos, alguns até com fimose mais acentuada que a sua. E eram amantes fabulosos! Não posso negar que me deitei com um ou dois. Espero que você me desculpe pois na época já não estávamos juntos. Hoje, sou fã de um prepúcio, acho que não posso passar sem. E melhor ainda se for o do homem que amo, não é verdade? Me aceita de volta?
Um par de lágrimas raivosas brotou dos olhos do pianista. Lucinha, ingenuamente, creditou-as a emoção produzida pela reconciliação iminente.
Lameque
Enviado por Lameque em 09/11/2007
Reeditado em 09/11/2007
Código do texto: T729767

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