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Um Estudo Sobre a Vida

Um estudo sobre a vida




- Perdoe-me, padre, porque pequei. – Disse a garota muito ruiva.
Ajoelhada diante de um concessionário, uma belíssima jovem derramava lágrimas ao lembrar-se do motivo que a levou até ali. Seus olhos eram azuis, os cabelos longos e ondulados e dona de um corpo de beleza grega.
Após fazer o sinal da cruz, o sacerdote começou.
- Conte-me seus pecados, minha filha.
- Eu pensei em matar, padre. Pensei em assassinar meu namorado. Meu – soluçou – antigo namorado. Imaginei, trancada no meu quarto, suspirando ódio, vários fins trágicos para ele. Tracei a idéia de um deles. – A garota chorava. Tentado apenas disfarçar seu pranto.
- O que ele lhe fez? – Perguntou o padre de uma forma calma.
- Terminou comigo, o cacho... ele terminou comigo. Esta manhã!
- Esta manhã? – Ele pára – Lembro-me de você na missa...
- Sim, sempre vou com minha mãe. – Disse ela, não entendendo o propósito.
- Seu pecado não é tão grave.
- Qual minha penitência.
- Amanhã – prosseguiu o padre -, após a missa, darei uma palestra para um grupo de jovens. Quero que você esteja presente.
- Não entendi. Esta é minha penitência?
- Vá amanhã a este encontro. Após, você mesma verá qual será sua penitência.
A garota se ergue, faz o sinal da cruz, e vai embora. Dentro do pequeno cubículo, o padre segue o sinal e fala:
- O reino no céu não pode ser comprado com palavras secas, e sim com arrependimento dos maus atos.
O dia seguinte não era dia comum que a jovem e sua mãe escolhiam para a celebração eucarística. Mas, desta vez sozinha, ela foi. Esperou que o fim chegasse e acompanhou o padre até a porta indicada.
Muitos jovens, a primeira vista, com poucos de sua idade. Encontravam-se sentados em cadeiras de plástico formando um círculo. Todos a olhavam com curiosidade. Era uma nova integrante em um grupo já unido.
O padre ocupou o centro do círculo.
- Pessoal. Atenção, atenção. A missa foi ótima. Parabéns pelo esforço de todos. Os cânticos foram muito bem escolhidos, Amanda. – Comentou virando para uma moça negra, duas cadeiras da novata.  Esta é...
- Pámela. – Continuou a jovem, ganhando um gracioso sorriso.
- Esta é Pámela. Eu a convidei especialmente hoje para minha palestra.
Ela ainda não havia entendido o motivo de tudo aquilo. O que tinha haver com sua história. A vontade de matar já havia passado, mas a tristeza e a raiva ainda eram mantidas.
Um garoto levanta a mão.
- Sim? Matheus?
- Qual o tema de hoje, padre Felipe?
- Vida. Um Estudo Sobre a Vida.
Pámela segurou um bocejo.
Felipe estendeu seus braços e todos seguiram o movimento, já sabendo o que fazer. Começaram:
- Pai nosso, que estais no céu. Santificado seja o Vosso nome...
Ao término, padre Felipe coloca a bíblia, que não havia soltado desde o fim da celebração, em uma mesinha de madeira fora do círculo.
- Meus filhos – começou ele -, saibam que estudar a vida, é uma forma de conseguirmos enfrentá-la com mais facilidade.
Todos prestavam atenção.
- Todo ser humano, desde o nascimento, tem uma identidade. E se querem saber, apenas um choque terrivelmente grande pode fazê-la mudar. Cada um de vocês tem seu carisma, cada um de vocês tem sua sexualidade, assim como experiência de vida e, mais importante, todos nós somos filhos de Deus. Estes são os elementos que nos definem, o que nos faz viver.
O mesmo garoto levanta a mão.
- Fale.
- Senhor, me disseram que o ser humano era formado de valor mental e sentimento.
- Sim, sim, meu caro Matheus. Estes são dois elementos muito importantes do homem. Mas eles estão o tempo inteiro sendo construídos. Valor mental e sentimento. – Repetiu o padre. – Pena, muita pena, os sentimentos hoje serem tão perdidos...
- O que mais nos impulsiona, ou seja, o que é mais presente em nós, é nossa afetividade. O que significa para vocês a palavra afeto?
Alguns arriscaram.
- Carinho?
- Bondade?
- Correto, mas a afetividade vai mais além. Carinho e bondade são uma pequena fração do real significado disto. A paixão, o sentimento, a emoção, o humor, e por fim, a própria significação do afeto. Tudo isso, em conjunto, formam a afetividade humana.
Pámela já começava a ver sentido da proposta do padre.
- Vou começar com a paixão. A paixão, meus filhos, considero de caráter muito complicado. Ela é visivelmente intensa. Impede a lógica, a noção de certo e errado. Leva todo o seu ser a uma só coisa, a coisa pela qual se está “apaixonado”. Jovens costumam ficar apaixonados: festas, carros, computadores e... mulheres.
- O senhor está dizendo que paixão é ruim?
- Não! Paixão, na medida errada, é ruim. E vemos distúrbios de sentimentos por causa dela. Vejo homens se apaixonando pelas suas mulheres tanto quanto pelos seus carros ou novos apetrechos.
Deu uma pausa e preparou um copo com água.
- A emoção. Ela é somática corporal. Diria que tem seu lado bom e lado ruim. Bom, quando a emoção vem de algo positivo, ruim... vocês perceberam. Ela é extremamente instável e tem... bem... alcances muito longos. Ela passa com o tempo. Nós expressamos nossa emoção em momentos de raiva ou alegria. – Olhou, sem preocupar-se com disfarce, para a convidada – Ela afeta a nós e aos outros. É perigosíssima, eu afirmo. Muitos tomam decisões complexas quando estão tomados por algum tipo de emoção. Para isso, chamados de precipitação. É errado, qualquer decisão, importante ou não; devemos toma-las apenas quando normais, quando não tivermos nem muito alegres, nem muito tristes ou zangados. O arrependimento, que quase sempre vem por conseguinte, pode não ser possível. – Trocou olhares mais uma vez com a jovem e, dessa vez, abriu um largo sorriso – Mas, outras vezes, se pode voltar atrás e corrigir erros cometidos.
- Então, padre – o garoto interrompeu -, se estou com raiva, não posso decidir nada? Ou até mesmo muito feliz?
- Eu não o aconselharia. Como eu disse, poucas decisões precipitadas dão certo. Para isso, é preciso pensamento, ser sábio.
- Agora – continuou -, minha afetividade favorita: o sentimento. Quem aqui já ouviu falar no “amor”? Haha! Acredito que todos já tenham ouvido falar, e todos... já tenham experimentado. Seja qual for o tipo.  O sentimento é estável, é algo que fica, e completamente difícil de tirar.
- Minha crianças, o amor é algo de Deus. Sempre digo aos casais conhecidos: “O que Deus uniu, o homem não pode separar”. Repito, o amor é algo de Deus. Algo divino. Infelizmente, a emoção atinge o amor. Quando somos dominados pela raiva, ela, por um período de tempo, fica com uma intensidade maior do que nosso próprio amor. Pessoas brigam, envolvidos totalmente no rancor.
- Mas – seu sorriso alargou-se novamente -, como já dito, a emoção passa e o amor volta. Vem aquela vontade de se desculpar, vontade de receber e dar “aquele” abraço.
- Padre! – disse a menina negra levantando a mão – Sentimento é só o amor?
- Não, minha querida. Existe a paz, a...
- Senhor, estou me referindo ao outro lado.
O padre franziu levemente a testa pela curiosidade da pergunta. Recuperando a face alegre, prosseguiu:
- Você quer dizer, se existe no homem um sentimento mal... – Recebeu um balanço de cabeça afirmativo – Receio que sim. Existem pessoas tão castigadas pela vida, que vão para o caminho do mal. Eles são verdadeiramente maus. Não por opção, claro. Ninguém nasce mal, muito pelo contrário, não há criatura mais limpa e inocente quanto uma criança.
Parou.
Pámela já havia esquecido como tinha chegado lá, só o que a interessava naquele momento era a continuação da lição do padre Felipe. Sua raiva havia passado, seu subconsciente brigava pela verdadeira ação e decisão que ela deveria tomar ao sair dali. Mas, agora, não era hora de fazer nada, apenas de ouvir.
- Afetos. Não vou me demorar muito nesta, pois não nos importa muito para a vida. Apenas entendam o conceito. É uma representação mental; idéias de afetos positivas ou negativas. Fui confuso? Citarei um exemplo. Para nós, Cearenses, a idéia de vento é ótima, seria o afeto positivo; já para os Malaios, é ruim, pois lembra desastres naturais, como tornados e furacões. Entenderam?
- Sim, padre!
- Por último, nós temos o humor. Ele é a base, sendo assim, é o mais afetado de todos. Seria um estado de espírito momentâneo. Por isso, é sempre essencial que fiquemos de bom humor, como dizem popularmente, “acordar com o pé esquerdo”. Creio que não preciso me intensificar neste significado. – Encarou a turma e resolveu que poderia parar.
- Padre Felipe. – Falou a garota negra depois de um tempo. – Eu gostaria de complementar com dois simples comentários que li há algum tempo...
- A palavra é sua. – Respondeu Felipe.
- Ambos, são sobre casamento e amor. Os matrimônios terminam, na maioria das vezes, porque o casal não é amigo, não sabe conversar. E todo relacionamento deve amadurecer com amor, pelo amor e para o amor.
- Isso requer muita paciência e compreensão, meus parabéns. Chagará um dia em que a mulher deixará os seus pais e se unirá ao marido, virando um só corpo... Que belas palavras, sim, sim, parabéns.
Por volta de três horas depois, os jovens iam deixando a pequena salinha de reuniões no fundo da igreja. Um a um, despediam-se do sacerdote. Pámela entrou na fila pensando no que iria dizer. Não sabia se deveria falar ou ouvir; algum conselho final, talvez, essa hipótese agradava sua vergonha.
Chegando sua vez, ela o olha nos olhos.
Era só isso que precisava, não sabia como, mas aquele olhar finalizou o que ela já possuía em seu coração.
A saída da igreja foi doce, suave. Estava renovada, pura? Imaginava estar transbordando conhecimento e maturidade. Um relance de informações, mas... Em sua cabeça, e em sua alma, sabia o que era certo a fazer. Conhecia perfeitamente, pelo menos naquele momento, qual caminho deveria ser traçado.
 
 
                        Inspirado em uma palestra de Maria Emmir, Co-Fundadora da Comunidade Católica Shalom
Roberto Morel
Enviado por Roberto Morel em 09/11/2007
Código do texto: T730520

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Sobre o autor
Roberto Morel
Fortaleza - Ceará - Brasil, 31 anos
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