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Meu primeiro Homem-Aranha

           Nunca tive o privilégio de ganhar um presente dos bons. Sempre ganhava o que minha mãe trazia das casas de suas patroas, ela trabalhava como faxineira em casas muito chiques em São Paulo. Cheguei a visitar algumas com ela, eu não tinha com quem ficar, e minha mãe não confiava nas creches do governo.

            Eu esmerilava os brinquedos até não dar mais pra saber o que eram.

            Um dia, em uma das casas dos ricaços, assisti a um filme do Homem-aranha. Fiquei encantado com aquelas manobras radicais que ele fazia. Do nada eu me via pulando de prédio em prédio, mas tinha a consciência de que tais peripécias eram tão impossíveis quanto eu ganhar um brinquedo novinho, mesmo que fosse um de camelô, minha adorada mãe fazia de tudo para nos sustentar.

            Mas tudo mudou quando conheci minha tia número oito. Ela era uma mulher muito bondosa, não teve filhos, por isso paparicava os sobrinhos o quanto podia. A felicidade transbordou nas minha faces magricelas quando soube que ela iria me levar pra conhecer o centro da cidade. Parecia um sonho, esse era meu segundo desejo; o primeiro era ganhar algum brinquedo zero bala, de preferência um boneco do homem-aranha.

            Assim que chegamos à praça da Sé, deslumbrei-me com aquele monte de gente indo e vindo de um lado para o outro. Todas aquelas colunas gigantescas, enfim, tudo era grandioso. Dirigimo-nos a uma rua muito movimentada, mais que as outras. Vim saber depois que era a 25 de março, um lugar bastante conhecido no país todo. Senti-me importantíssimo: já na minha primeira ida ao centro, conhecer uma rua de tanta relevância.

            Eu olhava todas aquelas pessoas gritando, chamando a atenção dos que passavam para o que vendiam; os brinquedos nas lojas, claro que não se comparavam com os que enfeitavam as das ruas onde minha mãe costumava trabalhar, mas eram brinquedos novos, isso bastava; as cores variadas que doíam meus olhos...

            Paramos em uma loja muito espaçosa e cheia de variedades. Notei logo que a especialidade daquele lugar era encantar as crianças com brinquedos fascinantes. Minha tia me conduziu para dentro daquela magnitude e parou bem em frente a uma prateleira repleta de bonecos e carrinhos. Entre eles havia vários super-heróis, inclusive o Homem-Aranha. Titia disse-me que eu poderia escolher um daqueles que eu via. Nem esperei que ela ordenasse outra vez, peguei o homem-aranha. Olhei pra ela e perguntei:

            — Pode mesmo?

            — Claro, meu querido sobrinho. Viemos aqui hoje só pra comprar presente pra você.

            Comecei a pular e gritar como um louco, mas de alegria. As pessoas ficaram me olhando e entenderam minha felicidade. Minha tia me surpreendeu ainda mais. Foi a outra prateleira e escolheu outro brinquedo, um carrinho de controle remoto. Ao sairmos, ela me deu o carrinho também.

            Gostei por demais do carrinho, mas o Homem-Aranha era o meu delírio. No meio daqueles prédios antigos, sentia que poderia deixar teias saírem de meus pulsos e me levar às nuvens.

            No metrô, todos notavam minha simpatia por aquele boneco que tinha muitas habilidades: a maior delas era me transportar para um mundo de fantasia.

 

José Augusto G. de Almeida ( amorasaspalavras.zip.net )
José Augusto
Enviado por José Augusto em 09/11/2007
Código do texto: T730843
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Sobre o autor
José Augusto
São Paulo - São Paulo - Brasil, 43 anos
38 textos (1144 leituras)
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