Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O EMPRESÁRIO

         

     Fazia muito tempo que ele só se preocupava em ganhar dinheiro, acumulando tudo o que podia, pois, segundo o seu próprio pensamento, isto seria a coisa mais importante.
     O dinheiro passou a ser durante toda a sua vida um objetivo a ser atingido, não importando o meio de como conseguir. Naquele momento, no entanto, quando recebeu a notícia, começou a recordar tudo o que havia acontecido durante toda sua vida.
     Bem cedo, ainda muito jovem, conseguiu através de certa dose de sorte, iniciar uma empresa que se tornou de grande importância. Havia crescido muito durante todo aquele tempo em que se havia dedicado a ganhar dinheiro.
     A família e amigos sempre foi algo colocado de lado. Outras pessoas haviam passado por sua vida e, no entanto, naquele momento, se encontrava-se só, abandonado, com suas cogitações que sempre lhe atormentava.
     Lembrava-se, ainda de quando tivera com uma jovem um romance apressado, às escondidas, e que ela lhe viera contar que estava grávida. Naquele momento havia  encarado-a, como se fosse sua pior inimiga. Com certeza ela queria se valer do filho para extorquir-lhe dinheiro e talvez até conseguir um casamento que naquele caso seria muito lucrativo para ela.
     Depois de várias artimanhas, conseguiu fazer com que ela abortasse, evitando assim o seu comprometimento e conseqüentemente os gastos que viriam. Evitara diversos aborrecimentos. Família era algo que não lhe passava pela cabeça, ela representava responsabilidades e despesas e isto era justamente o que  não queria.
     Sua empresa, sim, era o mais importante, trazia-lhe poder, sucesso e, em conseqüência disso, muito dinheiro, que o tornava tão poderoso até aquele dia, quando recebeu a notícia.
     Durante sua vida, no comércio, conseguiu, através de influência, entrar em certos negócios nem sempre considerados lícitos, porém o poder e a riqueza o tornavam invulnerável e ninguém ousava enfrentá-lo.
     Os mais fracos costumam aplaudir os homens de sucesso.
     Chegou a subornar, corromper, comprar diversas pessoas consideradas chaves, o que, de uma forma ou de outra, serviam-no fielmente, como simples capachos. Tudo por uma ninharia, considerando-se o lucro que obtivera com suas negociatas. Os lucros tinham sido enormes, por isso distribuía propinas à vontade.
     Diversos outros empresários o convidavam para participar de congressos, reuniões, até para alguns cursos que poderiam-lhe trazer benefícios com o conhecimento que poderia obter.
     Falava para os “amigos” que não precisava estudar, seu  dinheiro lhe bastava. Poderia comprar tudo e a todos com ele.  Isto, sim, era mais importante que o estudo ou conhecimento.
     O maior conhecimento que ele tinha era como ganhar dinheiro. Viu empresários de seu ramo casarem-se, constituírem família.  Alguns até vieram a se divorciar, ele, no entanto, era mais vivo, mais esperto, pois evitara ter que repartir sua fortuna com separações, que poderiam advir, com mulheres que nem sempre se portavam com dignidade,
     Foi assediado por mães, pais e mesmo mulheres que  tentavam enrolá-lo, obrigando-o ao casamento, no entanto, com inteligência, sempre se livrara de todas as tentações e golpes.
     Conseguiu, com isso, aacumular uma fortuna invejável. E não teria que dividir com ninguém. Conseguia comprar tudo e a todos.  Mandar fazer e acontecer era o que mais importava.
     Os familiares em sua vida eram pessoas comuns. Eles passavam e nenhum poderia ser comparado a ele.  Era imponderável, inatingível, o seu poder e riqueza o tornara o mais bem sucedido e rico empresário da cidade.
     Todos os dias, por horas, ficava sobre os livros e os negócios administrava com o máximo rigor, não se incomodando com quem caísse durante a sua trajetória.Quando surgia uma oportunidade, de acordo com a evolução da empresa, dispensava funcionários para substituí-lo, por máquinas que faziam tudo, de uma forma mais barata.
     Não estudara e pouco tempo de ler tinha.  A parte religiosa ficara sempre para depois, não necessitava de nada disso para viver. Tinha pouco tempo para asneiras, no entanto para ganhar dinheiro era plenamente capaz e isso era o mais importante..
     Evitava viajar e conhecer lugares diferentes daquele onde vivia. Não desejava conhecer nenhum país, para não gastar e continuar à frente dos seus negócios. Não confiava em ninguém. Somente ele era capaz de dirigir os negócios, com isso evitava transferir para outros a direção deles, para não perder dinheiro.
     Os negócios fluíam para ele diariamente, pois sua condição de bem sucedido, seu poderio econômico, serviam de atrativo a diversos outros negócios. Precisava estar sempre atento para não perder nenhuma oportunidade.  Evitava, assim, afastar-se de suas empresas para participar de viagens que ele  considerava inúteis.
Naquele momento, no entanto, a notícia que recebeu, caiu sobre si como um raio. E usando todo o conhecimento que possuía procurava dentro de sua cabeça de empresário encontrar uma solução para aquele pequeno problema. Se conseguisse, ninguém o alcançaria em sua jornada em busca de poder e  riqueza.
     Além da empresa que dirigia com mão de ferro, investira também em ouro, ações, fazendas e diversos tipos de atividades. Segundo seu ponto de vista, garantiria perante a  sociedade onde vivia o seu mando e o seu poder.
Não perdoava nenhum erro de funcionário. Eles eram apenas peças de uma grande máquina. Ele podia substitui-las sempre que quisesse, o que fazia com que a mesma máquina funcionasse ainda melhor.
Sim, realmente era um homem rico e poderoso, podia fazer tudo o que quisesse e ninguém ousava contradizê-lo.
Era  o mais poderoso da região, as pessoas dependiam dele.  Ele se valia muito bem disso e ia conseguindo sempre ganhar mais sem se importar com ninguém. Costumava dizer: “O dinheiro  compra tudo”. Não tinha com que se preocupar, todos dependiam dele.
Aquele que ousasse enfrentá-lo recebia as retaliações de um adversário duro e cruel. Ele era a medida, por isto não admitia que ninguém o desafiasse e o colocasse perante todos como  se fosse um qualquer.
Importante e rico, servia-se de sua figura que via no espelho como referencial, o resto  era pequeno demais para ele. Era tão importante que mesmo sem estudo muitos o chamavam de doutor.
Agora, vinha aquele médico que achava que sabia de alguma coisa, dar aquela notícia que muito o desagradava.
Ele não aceitava em nada aquilo que ouvia, não poderia acontecer com ele, que soube durante toda vida ganhar dinheiro e com  capacidade.
Seus quase cinqüenta anos foram bem vividos entre o trabalho e sua residência. Dedicava-se ao trabalho com muito afinco, conseguira fortuna, esquecera-se de casar, ter filhos, estudar, visitar um amigo, ajudar alguém que tivesse necessidade.
Porém isto não tinha a menor importância. Todos não passavam de aproveitadores.
Naquele dia, quando sentiu aquela forte dor nas costas, conseqüência que, segundo ele, seria devido ao excesso de trabalho, resolveu gastar um pouco,  consultando um médico  e, depois de longas e demoradas conversas, exames e mais exames, nada conseguiu descobrir. O que aquele médico lhe falava, naquele momento, era apenas um engano.
Mas, devido às constantes dores que continuavam a incomodá-lo, foi obrigado a fazer uma bateria de exames e radiografias. Depois de tudo, a análise dos médicos e a conclusão. Ele o homem mais poderoso e rico de toda região, estava condenado à morte.
Não aceitava esta idéia, um homem como ele não podia morrer. E sua fortuna, tudo aquilo que construíra, como poderia usufruir daquilo se viesse a morrer?
Era piada, tudo aquilo que ouvira dos médicos parecia uma grande piada ou uma brincadeira de mau gosto. Isso o irritou e fez com que passasse a pensar em toda sua vida como se fosse um filme.
E agora, o que fazer, como conseguir se safar daquele problema?
Lembrou-se da fortuna que tinha e o que poderia fazer para sair daquela situação. Sua fortuna lhe traria a cura. Gastaria o que fosse necessário, porque não aceitava nada daquela situação.
Os médicos haviam dito que a doença de que era portador ainda era rara e desconhecida e que em pouco mais de um mês ele estaria partindo deste mundo.
Fez tudo que o podia como empresário, mas não conseguiu “comprar” ou “enganar” a morte.
E aconteceu, tentou, gastou e nada conseguiu;  ao final nem um filho, uma mulher, um parente ou um amigo que pudesse vir chorar sua morte.
E tudo o que foi adquirido tornou-se inútil, conseguiu tanta riqueza, venceu muitos concorrentes, conseguiu fazer tantos negócios, ganhou dinheiro, no entanto, esqueceu-se  de viver, amar e ser feliz.

 
08/03/03-VEM
Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 12/11/2007
Reeditado em 29/09/2010
Código do texto: T733640
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
1412 textos (112332 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/10/17 20:46)
Vanderleis Maia