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A Chama

 

            Sempre havia gente naquela porta. Era um velho casarão. Paredes em tom azul claro, desbotadas, pichadas com motivos estranhos e alguns palavrões. Duas portas que se abriam em folha, cinzas, descascadas e mal tratadas pelo tempo. Muito altas, ao estilo dos antigos casarões da cidade. Três pessoas aguardavam do lado de fora. A secretária ordenara que assim fosse. Estavam reformando o piso da sala de espera. O vereador, em pouco, os atenderia.

 

            Cada um deles carregava um pedido, uma dor e uma esperança. O pedido vinha em uma caixa pesada de metal, difícil de ser aberta. O som que de lá saía era angustiado, baixo e rouco. A dor vinha sendo arrastada em pesadas correntes. Era um bloco de pedra do tamanho de cada um. A esperança era uma vela acesa, que carregavam nas mãos, devendo a chama ser protegida dos ventos.

 

            O primeiro da fila sustentava-se sobre muletas doadas pela caridade. Tinha a fisionomia de um índio. Vestia uma camisa branca, puída, parcialmente limpa. Calças cinzas, carcomidas e cheias de furo. Perdera uma das pernas em uma desventura que não cabia contar. Sorria, o que não devia fazer, pois os dentes que sobravam era muito amarelos. O pé que sobrou calçava um velho tênis cinza.

 

            O segundo, um homem moreno, alto, na casa dos 50. Boné amarelo com a propaganda do político. Mantinha uma postura firme, ereta. Aos pés depositara uma sacola branca, de feira, contendo revistas e jornais usados. Trajava uma camisa azul, em bom estado e uma calça jeans relativamente nova. Sandália de couro. Unhas negras na ponta. Dedos grossos e fortes. Um bigode ralo adornava os lábios grossos.

 

            A última era uma mulher franzina. Negra, cabelos crespos. Tinha quarenta anos, embora aparentasse mais. A severidade da vida envelhece. Arrumou-se o melhor possível. Escolhera uma blusa vermelha com calça de algodão azul marinho. Tamanco negro. Carregava, nas mãos, uma sacola de papel amarfanhada com algo dentro. Ao ombro direito uma velha bolsa preta imitando couro. Sem esmalte. Batom escarlate escuro.

 

            Aguardavam. Fazia sombra no local. O sol do meio-dia aproximava-se. Eram quase quatro horas de vigília. A secretária aparece, depois de atender inúmeros telefonemas e de entrar, por uma dúzia de vezes, na sala reservada ao político. Sem levantar os olhos, comunica:

 

            – O vereador não pode atender hoje. Tem reunião com o prefeito. Anotei o nome de cada um; voltem amanhã.

 

            O homem de azul é o primeiro a sair. O índio solta um suspiro quente. Ajeita as muletas e caminha como pode pela calçada torta. A mulher agarra-se ao saco. Resolve perguntar, ainda ao alcance dos ouvidos dos outros:

 

            – Nem mais tarde?

 

            A jovem, diante da voz constrita, modera o tom e levanta por um instante as pálpebras pintadas em excesso. Traja um vestido azul, decote à mostra. Equilibra-se mal sobre um salto alto. Cabelos lisos. Pequena e bem feita de corpo. Tenta ser mais humana:

 

            – Só amanhã....

 

            A mulher arrasta o bloco rua acima. O pedido permanece na caixa, débil, assim como a chama da vela que quase se apaga...

Jurandir Araguaia
Enviado por Jurandir Araguaia em 14/11/2007
Reeditado em 02/09/2008
Código do texto: T737028
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Jurandir Araguaia
Goiânia - Goiás - Brasil
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Jurandir Araguaia