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A FILHA DO FOGO

                               
                                 A FILHA DO FOGO

         
Desde menina, Talita vivia sempre muito sozinha, arredia, tristonha. Escondia-se no sótão, quase todas as tardes, após a volta da escola, quando a família absorta nos afazeres domésticos, nem se dava conta da falta da garota.
Passou toda a sua infância na fazenda “Bela Vista”, lugar onde seus pais escolheram
fixar residência, mudando-se para Feira de Santana, quando ela e as irmãs necessitaram de estudos mais aprimorados. As férias escolares, feriados e muitos finais de semana, eram passados naquele recanto onde Talita sentia-se mais à vontade em meio aos seus amigos animais e plantas que tanto amava!
Naquele dia amanheceu sentindo-se diferente. Um certo saudosismo, lembranças de um tempo em que não conseguia perceber claramente as diferenças que existem entre pais, filhos e irmãos; os conflitos, a falta de diálogo, os intermináveis silêncios - cada um vivendo em seu mundinho particular -  os formalismos, falsos moralismos, excesso de tradicionalismo... Devaneava... E, nessa viagem, rodeada de cantos de pássaros e ouvindo o som de uma cascatinha, pensava numa conversa que ouviu anos atrás entre a sua mãe e a sua avó materna.
(...) - Talita é filha do fogo, esse fogo que queima e consome sem permitir que a pessoa ao menos se dê conta do que realmente está acontecendo. Eu não a quis, não a desejei, aconteceu e pronto! Depois de tantos anos a senhora vem agora me questionar sobre isso? Nunca estudou sobre genética não?A minha filha primogênita se parece com o pai. Afro, afro-descendente, entendeu bem? Ponha isso na cabeça, pois, não posso mudar esse fato! A senhora a descrimina por Talita ser mulata e parecida com seus familiares paternos... Ela percebe esse seu comportamento e sente-se cada vez mais isolada. Tento quebrar o muro de gelo que foi paulatinamente sendo construído entre nós, mas não tenho conseguido. Portanto, minha mãe, entende agora que, agindo dessa forma, a discriminando, só consegue piorar as coisas?
-Calma, calma, Graça, não estou querendo aborrecê-la, somente orientá-la quanto à educação dessa menina, pois sendo tão diferente das outras duas... Já se tornou um grande problema, você não pode ignorar isso. Graça encerrou a conversa, não queria entrar em mais contenda com a sua teimosa mãe.
Talita passou vários anos da sua vida rememorando esse diálogo entre a mãe e a avó materna, tentando compreender porque o fato de ter nascido mulata incomodava tanto. Abominava os “apelidos” com que a avó materna se referia a sua pessoa - principalmente, quando seus pais não se encontravam presentes – Costumava fazê-los na presença dos empregados e das visitas. “Morena cabo-verde, cor de chocolate, cravo e canela, cor de jambo...” Dessa forma, ela, sua branca avó, descendente de alemães, pensava camuflar a negritude da neta.
As irmãs gêmeas haviam nascido um ano após o nascimento de Talita e, para a sua infelicidade, nada evidenciava em suas aparências físicas, os marcantes traços da família do seu pai. Haviam herdado a brancura da pele e os cabelos claros dos avós maternos, descendentes de alemães, nascidos em uma colônia no Estado do Rio Grande do Sul. Do pai visivelmente herdaram, somente as covinhas das bochechas e o sorriso maroto e travesso e, da mãe, além da aparência física, a delicadeza e a frieza com que se relacionava com as pessoas. Parece que o “fogo” que a deixava fora de si, o vulcão em chamas soltando labaredas, só acontecia no relacionamento íntimo com o Carlos, seu pai, pensava ela em seu devaneio...Não foi por causa desse fogo o motivo que a fez vir ao mundo, sem aviso prévio?
Talita continuava a viajar em suas lembranças e indagações... Lembrava agora do seu pai mais nitidamente. Um belo homem, forte, vigoroso, trabalhador. Havia trancado a faculdade, para assumir a sua mãe e se casar com ela; pegou firme nos trabalhos da fazenda, cuidou da agricultura e do gado, renunciou aos seus sonhos de ser agrônomo. No entanto, não se queixava e, em todos esses anos, seu pai ainda contava centenas de vezes, seu caso de amor. A aventura que viveu ao conhecer Graça e a felicidade de possuir uma família tão bonita, apesar do relacionamento hostil que manteve tempos atrás com os pais de sua mulher. Trabalhou duro e juntou muito dinheiro para empregar no conforto da família e nos estudos das filhas.
Talita fazia faculdade de pedagogia, as irmãs ainda estavam concluindo o ensino médio e a mãe havia passado todo esse período cuidando das casas – da cidade e da fazenda –, da educação das meninas e de traduções de livros para uma editora do Rio Grande do Sul.
Seu pai devido ao árduo trabalho do campo, quase não sobrava tempo para muitas outras coisas, inclusive para perceber o sofrimento silencioso que se passava no íntimo da sua filha primogênita, tão carinhosa e sempre tão solitária.
Matilde, cozinheira antiga da fazenda, certa feita, havia revelado para Talita, em “sigilo de estado”, que Graça, sua mãe, sofreu muitas dores durante a sua primeira gravidez. O parto, embora normal havia sido realizado em situação precária. Graça e Carlos, jovens e inexperientes, moravam no campo naquela época, tinham ainda pouco dinheiro e estavam no começo da vida a dois. O deslocamento para Feira de Santana foi inevitável e muito doloroso para ela, as dores intensas e o incomodo da viajem foram marcantes. Para uma pessoa tipicamente urbana, rica e delicada, a vida em uma fazenda, não era assim muito fácil de suportar. E, para agüentar a aspereza da vida no campo, só mesmo o extremo amor ao seu pai, a fez suportar aquela vida. No início eram muito apaixonados, viviam correndo pela campina, rolando na grama, beijando-se a todo o momento...Os empregados estranhavam aquele comportamento tão livre e solto! Um fogo só! Fogo inicial é verdade, que no decorrer dos anos foi aos poucos se transformando em um amor sólido e duradouro, dizia Matilde.
Como pode Matilde? Um envolvimento assim tão grande, não ser dividido com o fruto desse amor? Quem sabe esses acontecimentos não seriam os motivos do velado afastamento de minha mãe para comigo? Indagava-se Talita. Milhares de vezes, ao longo do tempo, ficou tentando encontrar respostas para suas interrogações, mas infelizmente, não conseguiu falar de suas inquietações com mais ninguém a não ser com a velha confidente Matilde; essa sim guardava os segredos daquela jovem, pois, sentia-se de certa forma, envaidecida pela confiança depositada nela, uma simples cozinheira!
 O vento forte da primavera balançava as folhas das árvores e o chão enchia-se de flores multicoloridas. Talita as observava...Tão diferentes entre si e tão graciosas em suas semelhanças e diferenças! Por que com os seres humanos não podia também ser assim?Em meio a esses pensamentos, não viu o tempo passar; final de tarde, o sol já se punha. Talita andou vagarosamente de volta para casa, para mais uma noite igual às outras. Seu velho companheiro, o diário, a esperava embaixo do travesseiro.
Não conseguia dormir, revirava-se na cama a todo o momento, a imagem da história do grande amor vivida por seus pais e narrada centenas de vezes por eles, pelos empregados da fazenda, pelos avós... Enfim... Não lhe saiam da cabeça. Como num filme, os personagens foram aparecendo e a história que tanto a fascinava ia gradativamente se desenvolvendo... Queria poder viver um amor assim, ou bem parecido! Mas os rapazes que havia conhecido nas baladas e na faculdade, só pensavam em ficar, transar... Os convites e conversas sempre giravam em torno do fumo, da bebida, do sexo sem compromisso, enfim, sem maior envolvimento pessoal. Queria sentir mesmo era “aquele fogo”, aquela vontade de se entregar, de fazer loucuras...Mas com amor, sentimento, com alguém que a amasse muito. Os rapazes que conhecia? Ah, aqueles rapazes... Muitos eram comprometidos e outros bissexuais, homossexuais...Não sabia distingui-los. Homo, hetero, bi... Uma confusão! Seu pai, sim, aquele era um homem de verdade e procurava em meio aqueles homens da sua convivência, alguém que se assemelhasse a ele. Uma procura interminável e improdutiva. Às vezes, se surpreendia sentido inveja de sua própria mãe...
Graça, aos vinte anos, ganhara uma excursão de oito dias à Bahia, com mais algumas colegas. A instituição onde ensinava línguas (inglês e alemão) as havia presenteado.  Conheceu Carlos durante as muitas visitas aos pontos turísticos de Salvador, mas precisamente num barzinho a beira da praia no Porto da Barra. Foi apresentado por um amigo comum, Bob, cicerone do grupo, guia turístico e namorado de uma de suas colegas.
Carlos era um jovem estudante universitário de 24 anos, filho de um grande pecuarista de gado nelore em Feira de Santana.  Estudava agronomia em Cruz das Almas no interior do Estado, pretendia juntar a pecuária com a agricultura, esse era o seu grande sonho. Como filho único e herdeiro de um bom patrimônio, pretendia ampliar os negócios. Seu porte físico agradava muito às mulheres baianas. Malhado, bronzeado, mulato, cabelos pretos, encaracolados, sedosos, muito sensual. A moça refinada e quieta, que o olhava insistentemente, a priori, não fazia o seu tipo. Mas a freqüência com que o perseguia com o olhar...O fez parar perto dela e tentá-la conhecê-la melhor. Estava em férias e curtindo o verão quente de Salvador, movimentado e caliente. Graça não se controlava, olhava mesmo sem querer para aquela figura exótica, que fazia sua pele branca queimar e sentir um calor indescritível! Carlos, por sua vez, ao conversar com a moça, percebeu uma candura que não conhecia. Acostumado com moças livres e desejosas de viverem intensamente o “PAZ e AMOR” tão em voga naquele verão dos anos sessenta! Sexo, fumo, rock rol, álcool, drogas... Aquela moça mais parecia uma “Alice saída do País das Maravilhas”, ficou interessado. Levou-a para os mais românticos lugares, fez-lhe promessas eternas e juras de amor. Ela correspondia timidamente, embora seu corpo jovem e virgem, desejasse ardentemente ser possuída selvagemente por aquele “touro de arena espanhola”. Carlos soube ser paciente, deixou a moça quase que desesperada e, num certo momento em que considerou adequado, a possuiu da maneira que ela imaginou que fosse acontecer e que ele sabia fazer muito bem. Havia calculado nos mínimos detalhes, esse primeiro encontro íntimo, no entanto, o destino resolveu lhe pregar uma peça. A moça era virgem! Isso o emocionou, tentou mudar os planos, fazer diferente, ela, porém, correspondeu ardentemente aos seus ímpetos de macho sedento e os dois a partir de então viveram intensos momentos de paixão pelos afrodisíacos e mágicos recantos da capital baiana. Em nenhum momento os dois jovens amantes pensaram em preservativos, tudo aconteceu de maneira muito rápida, intensa, sem planos, sem responsabilidades... Carlos estava apaixonado! Aquela mulher agora sua, só sua era de verdade uma obra prima, numa época em que as efervescentes mudanças de valores e novos paradigmas impregnavam a sociedade dos anos sessenta! Moça ingênua e meiga destoava dos padrões das mulheres ardentes com as quais Carlos estava acostumado a ter em seu leito. Encantou-se e enamorou-se por ela.
O calor ardente e sensual do belo rapaz também a havia encantado. Estava embevecida por ele que, pressentia não dever brincar com os sentimentos daquela moça de prenome Graça, sim, cheia de graça mesmo bicho!
A viajem de volta para casa, Porto Alegre, foi um tremendo martírio para ela. As lembranças dos momentos vividos não lhe saiam da cabeça. As colegas se preocupavam ao ver em seu delicado rosto bronzeado de sol, lágrimas caírem copiosamente. Nada diziam, no entanto, sabiam respeitar aquele momento único.  Graça, de olhos fechados delirava...Bahia, ah, Bahia! Que saudades das noites tépidas, dos dias ensolarados, do colorido das roupas, do vaivém dos turistas, baianas do acarajé, cantigas, rezas, sabores, odores... Magia, axé! Saudades das noites ardentes nos braços de Carlos, dos banhos de mar na praia do Farol da Barra, Piatã, do abará, acarajé, vatapá, e da dor de barriga ao provar pela primeira vez o dendê das iguarias baianas. Terra dos amores, dos candomblés, dos corpos queimados e ardidos do sol e dos que sabem a arte de bem viver a vida! Bahia, ah Bahia do meu bem-querer! Tinha mesmo de arrumar um jeito de voltar, pensava Graça, sem ao menos imaginar que a volta seria sim, inevitável. O motivo? Encontrava-se ali mesmo, dentro do seu ventre. Uma sementinha negra, o elo gerado no verão dos anos sessenta, ao som das músicas de Roberto Carlos, num hotel cinco estrelas!
Talita, com palavras próprias e pensamentos, recriava e ressignificava em sua memória, cenas, atos, palavras... Desse caso de amor e da sua infância.
Nos primeiros anos de vida, foi muito amada, mimada e querida, principalmente pela família do seu pai. Isso porque a família da mãe nessa época, não freqüentava ainda a sua casa e nem sequer mantinha contato com seus pais.
Graça, perdidamente apaixonada pelo marido, via na filha, a semelhança do amado e isso a deixava feliz. Mas com o decorrer do tempo, os avós maternos descobriram o paradeiro da filha, decidiram procurá-la em Feira de Santana e a vida de Talita passou a sofrer muitas modificações a partir desse fatídico momento.
Sua mãe passou a ficar muito arredia para com ela. E, sempre que os avós maternos vinham visitá-los, Graça muitas vezes, se sentia embaraçada pelo fato das gêmeas serem muito brancas e Talita mulata. Esse fato incomodava à quase todos, menos a Carlos que, super envolvido com os negócios, não se dava conta do que ocorria no interior da sua casa nem nos íntimos dos seus familiares.
As gêmeas, Hanna e Märtha  nasceram um ano após o nascimento de Talita; viviam sempre juntas e não tinham muito envolvimento com a irmã mais velha que preferia se trancafiar no quarto com seu diário e em conversas sempre sigilosas com Matilde.
A gravidez de Graça, foi descoberta oficialmente dois meses após a sua partida de Salvador para Porto Alegre. Claro que, dada às circunstâncias, esse acontecimento foi um verdadeiro escândalo! Uma moça de família tradicional e abastada e, sobretudo, racista, não poderia, em hipótese alguma, se misturar com alguém de “cor”, como comumente eram denominados os negros e afros-descendentes.
Graça foi abruptamente retirada do convívio familiar e levada para uma região fria nos pampas sulistas, cercada de capatazes, e tendo como guardiã e camareira uma velha senhora, que no momento oportuno avisaria à família o momento do parto. O médico da família levaria e entregaria sigilosamente a criança para adoção.
Os pais de Graça eram donos de uma importante rede de supermercados e uma fábrica de laticínios. Não aceitaria no seio da sua família um genro de pele escura e uma criança mulata. O plano B seria seqüestrarem à própria filha e mandá-la para a Suíça onde residiam muitos dos seus amigos, caso fosse extremamente necessário.
Graça viveu muitos meses isolada de tudo e de todos. Durante o tempo em que ainda esteve lecionando no Instituto Bilíngüe, não havia recebido nenhuma carta ou telefonema de Carlos, conforme o combinado. Mal sabia ela que os pais haviam receptado, lido e queimado todas as cartas do rapaz. Pensava nessas coisas enquanto percebia o crescimento da barriga. Sentia fortes dores pelo corpo e até a alma parecia estar dolorida. Recusava-se a comer, beber, tomar banho, parecia um bichinho enjaulado. Não queria viver e nem tampouco ter aquele filho infeliz, filho do fogo, da paixão maldita!  As crises eram cada vez piores, rejeitava o filho como a rejeitava o amor que lhe consumia as entranhas em labaredas, naquelas noites quentes do verão baiano. Maldita magia! Gritava nos momentos de fraqueza.
Ainda assim, sem se alimentar adequadamente, a barriga crescia sem problemas, só a dor e o medo do desconhecido a amedrontavam. Onde estaria Carlos com as suas promessas e juras de amor? Nem um só telefonema, uma só carta! Silêncio, que como agulha, feria a sua penada alma. Debatia-se em dúvidas. O que fariam com a criança? Às vezes, acariciava a barriga com carinho, em outros momentos, desejava morrer. Não sabia do plano de adoção. Estava confusa, a ideia de morte a obcecava.
Carlos, naquele período, não conseguia estudar direito, vivia tentando telefonar para sua amada e não conseguia falar com ela. Sempre avisavam que não morava mais naquele lugar, naquele bairro, que havia se mudado e não sabiam do endereço. No Instituto de Ensino Bilíngüe, não forneciam informações, o que teria acontecido? Teria ele se enganado e sido somente um passatempo de verão? Resolveu contar toda a sua história para seu colega de faculdade, o Léo, que lhe aconselhou a ir atrás dela.
- Moço, Se fosse eu que amasse tanto assim uma mulher, iria para Porto Alegre verificar de perto o que aconteceu. Agora, me diga uma coisa: você escreveu para ela com o seu nome verdadeiro? Quer dizer, não colocou no lugar do remetente, o nome de uma mulher para que a família dela pensasse que a carta era de uma amiga?
- Ó não Léo! Nem pensei nisso, meu caro.
- Oxente, rapaz! Você parece que é besta! Não sabe que gente rica tem manha? Vai ver o povo dela deu cabo das cartas...
- Será mesmo? Está tudo muito estranho! Respondeu prontamente Carlos. A moça bicho era virgem, entendeu meu chapa? Virgem bicho e só minha, minha! Tem sim, alguma coisa errada nessa história. Vou lá verificar.
- Dou a maior força meu, podes crer. Falou Léo cheio de gíria.
Carlos apresentou na faculdade um atestado médico de quatro dias alegando fortes dores de cabeça e depressão, o que de certa maneira era verdade. Não que o atestado abonasse as faltas, mas os professores compreenderiam sua situação, dando-lhe chance de fazer posteriormente os trabalhos acadêmicos. Retirou suas economias da poupança e sem pensar duas vezes, tomou o avião de Salvador a Porto Alegre numa angustiada viajem.
Durante o trajeto, reviveu todos os momentos vividos com Graça, sua timidez, seu corpo trêmulo ao ser despido pela primeira vez, o jeito meio “atabalhoado” de fazer amor, a sofreguidão... O fogo ardente contrastando com a brandura e a meiguice dos gestos, da voz e do portar-se em público. O corpo dela branco, esbelto e esguio contrastava com a pele escura dele; uma mistura perfeita para o amor, cores, sabores, odores...Miscigenação! Imaginava ele.
Graça não podia sumir assim da sua vida, não podia! Não depois de tudo o que aconteceu entre eles, não a considerava uma mera aventura, mas, a mulher da sua vida e não desejaria perdê-la, não mesmo. Se fosse preciso lutar lutaria, afinal, um bom baiano não foge de uma boa briga.
Chegou cansado, não da viagem, mas, de tentar encontrar uma estratégia para encontrá-la sem levantar suspeitas.  Lembrava-se da conversa que teve com Graça, certa noite, quando a mesma confessou-lhe o pensamento das pessoas da sua família em relação ao cruzamento de raças. Jamais admitiram certas misturas e claro, ela também, como eles, era racista e preconceituosa, isso até viajar para a Bahia e conhecê-lo.  Sendo assim, ele teria mesmo que ter muito cuidado, não pretendia pôr tudo a perder agindo por impulso, afinal, se tudo corresse bem – lhe confidenciou ela nessa noite - se veriam de novo no próximo verão, para tanto, daria um jeito de viajar novamente para a Bahia. E, foi pensando nessas palavras de sua amada que Carlos rumou para o Instituto de Ensino Bilíngüe, com um currículo falso, tentando uma vaga para professor. Não foi recebido como achou que deveria e, friamente o solicitaram entregar o currículo em um determinado setor.
Ao passar por um corredor, deparou com uma mulher segurando uma bandeja de cafezinho. A senhora aparentando meia idade, se sobressaltou ao vê-lo e insistentemente o fitou. Carlos se sentiu incomodado, parecia que aquela mulher o conhecia ou queria dizer-lhe algo. Tentou interpelá-la, mas a mesma entrou em outro compartimento rapidamente. Resolveu esperar sigilosamente. Entrou na copa por onde a mulher havia saído e depois de observar o ambiente simples, viu um caderno em cima de uma mesinha. De dentro do mesmo, saia metade de uma fotografia. Carlos lutou com ele mesmo para não bisbilhotar, mas, a curiosidade foi maior e, para sua surpresa, a foto era sua, sim isso mesmo, sua! Mas como isso era possível? Então aquela mulher certamente seria a chave que ele estava precisando para desvendar o enigma. A senhora entrou na copa esbaforida. – O senhor aqui? Colocou a mão na boca deixando cair à bandeja no chão, soltando um grito. Carlos ficou apreensivo, não sabia o que fazer nem como explicar a sua presença ali. Ela finalmente conseguiu falar: - O senhor viu a foto, não foi? Viu? Diga, diga! Parecia extremamente nervosa. Carlos puxou rispidamente a mulher para um canto, fechou a porta e disse-lhe ao pé do ouvido. – Procure ficar calma, não vou fazer-lhe mal algum, no entanto, a senhora precisa concordar que eu mereço uma explicação, não acha? Onde encontrou essa foto e como posso fazer para encontrar a professora Graça? Isso a senhora vai me dizer, ou não me chamo Carlos Pimentel!
- Eu não tenho nada com isso, juro, tentei devolver a foto, juro que tentei, mas eles a tiraram daqui, a levaram entendeu? Falava a senhora atropeladamente. Ele percebeu imediatamente que conseguiria as informações que precisava era só ter cautela.
- Olha minha senhora, eu estou entendendo o que está querendo dizer, mas, aqui não é o lugar mais apropriado para conversarmos não é?  A que horas sai do trabalho? A mulher titubeou, quis recuar, mas Carlos foi firme, olhou-a bem dentro dos olhos e disse-lhe: Vim de muito longe, preciso desvendar esse mistério. Não tenha receio, nada de mal acontecerá, só preciso de algumas informações. A senhora pareceu se acalmar e respondeu: saio às 16 horas.
- Espero-a num barzinho que tem ai em frente, levo-a para casa enquanto conversamos. Ela balançou a cabeça afirmativamente, demonstrando, no entanto, certo receio. Carlos percebendo que ainda não tinha sido convincente o suficiente acrescentou: - Não tema, por favor, sou do bem, acho que a senhora já ouviu falar de mim e então?Ela sorriu e apertou a mão dele. Aquele homem era muito corajoso e atrevido, não faria mal o ajudando, pensou. As horas para Carlos foram intermináveis à espera da senhora do cafezinho, mas não desistiria, pressentia que algo muito sério envolvia aquela situação.
Rilda - esse era o nome da mulher que servia cafezinho - foi chamada atenção por ter derrubado uma bandeja e quebrado várias xícaras. Queriam explicação. Ela muito esperta, revelou que deixou a bandeja cair devido a mais uma crise de labirintite, o que não deixava de ser verdade, sofria mesmo dessa doença. Rilda saiu do prédio as 16 e 30. Olhou furtivamente para o barzinho e não viu o forasteiro. Caminhou apressadamente como se quisesse escapar do compromisso assumido. Na verdade estava com medo sim.
Carlos alugou um automóvel e resolveu esperar à senhora em um lugar estratégico por onde ela fatalmente, teria que passar. Ficou a espioná-la, com receio de que armasse alguma armadilha para ele e colocasse tudo a perder.
- Olá, entre rapidamente no carro! Rilda se assustou e tentou fugir. Não sabia quem era, não olhou para trás nem tampouco para os lados, não se movia, só sabia que estava se metendo numa encrenca. Carlos parou o carro bruscamente e gritou: olhe para mim, sou eu o rapaz da foto. Ela olhou pelo canto dos olhos e respondeu: O senhor trapaceou, não estava no lugar combinado.
- E a senhora não saiu do trabalho também na hora combinada. Estamos quites. Rilda sorriu e entrou no carro, agora mais confiante. Nada falaram durante o trajeto. Rilda, por precaução, levou o forasteiro, para um sítio onde ela e o marido eram zeladores, os patrões só apareciam no período das férias, poderiam ficar tranqüilos ali e após se acomodarem nas poltronas, Rilda começou a falar.
 - Senhor...  – Carlos eu me chamo Carlos. - Eu sei, respondeu ela para surpresa dele –Bem, continuou Rilda, eu encontrei a sua foto na sala dos professores juntamente com um minúsculo diário de bolso. Eles caíram de dentro da bolsa da professora Graça, no momento em que ela sentiu um súbito mal-estar durante uma aula. Tentei devolver os pertences, mas, infelizmente não foi possível, porque depois desse lamentável incidente ela não mais retornou ao Instituto. Guardei a foto e o diário na minha bolsa, com receio de deixá-los em minha casa e alguém tomar conhecimento dele; hoje não sei bem porque, achei de colocar a sua foto dentro do meu caderno para observá-la melhor, e tentar compreender o fato de dona Graça ter se encantado com a sua pessoa.
-Então quer dizer que a senhora leu todo o diário?
- Desculpe, mas não pude deixar de fazê-lo, foi inevitável. Depois de lhe contar tudo o que sei, o senhor certamente, compreenderá a minha posição. Assim, espero.
Acho que devo me apresentar primeiro. O meu nome é Rilda e preciso dizer-lhe que, só resolvi ler o diário, depois de ter ouvido uma interessante conversa na sala da direção do Instituto, claro que foi sem nenhuma pretensão, creia-me.
-Continue, por favor. Pediu Carlos impaciente, ansioso para ver até aonde aquela conversa iria dar. –Bem senhor, entrei na direção para servir um cafezinho, mas como não encontrava ninguém por lá naquele momento, aproveitei para entrar e ir ao banheiro rapidamente. E, para minha surpresa, a diretora Márcia e a vice, entraram quase correndo fecharam a porta e, sem perceberem a minha presença, iniciaram uma conversa que me deixou bastante intrigada. A diretora informava à vice de que a professora Graça não mais retornaria ao instituto, deveriam a partir daquele momento, anunciarem a vaga para um professor substituto, em caráter de urgência. Mas o que realmente aconteceu? Quis saber Dirce a vice-diretora.
-Recebi uma carta de demissão acompanhada de um relatório medico, afirmando que a professora está sendo tratada de uma profunda depressão. E pasme! Quem assinou o relatório foi o psiquiatra Dr. Abelino Mussel, irmão da mãe de Graça, lembra dele? A dona Dirce balançava a cabeça afirmativamente. O que me deixou ainda mais desconfiada - continuou dona Márcia - é o fato de Graça não ter comentado nada desse assunto, ao contrário, desde que veio da Bahia estava super alegre e feliz.   Carlos atentamente e sem interromper a narradora, prestava atenção em cada detalhe, querendo a todo custo entender a onde aquela conversa ia parar. Rilda olhou atentamente para o seu receptor tentando estudar-lhe as reações. Continue por obséquio, pediu Carlos ansioso.
- Bem, continuou ela, a diretora revelou que no dia em que dona Graça se sentiu mal, o médico que a atendeu revelou o diagnóstico para a família e, disse-me ele recentemente, que a Graça está grávida de dois meses. Carlos pulou da cadeira, ficou lívido e gritou: grávida? Pelo amor de Deus! Rilda apreensiva apanhou um copo com água gelada e ofereceu para o homem beber. Após alguns minutos ela recomeçou a narrativa.  – Bem, a dona Márcia e a dona Dirce, acharam que o desaparecimento da professora grávida podia perfeitamente ser alguma armação da família dela.  A descoberta da gravidez algum tempo após a volta da Bahia, deve ter sido o motivo do afastamento do emprego. Um neto nessas circunstâncias seria um escândalo. Desconfiavam. - Então, o que aconteceu depois? Continue. Carlos se mostrava impaciente.
- Eu li o diário dela e confirmei as suspeitas. É o senhor o pai da criança. Tive muito receio de alguém descobrir, a família dela tem fama de valente e dizem até que tem pistoleiros nas estâncias deles. É uma gente rica e poderosa.
Carlos estava emocionado e ao mesmo tempo preocupado. Precisava de um plano. Conversou longamente com Rilda, propôs a ela uma parceria, não foi fácil convencê-la, mas, por fim ela topou. Antes de irem embora ele quis saber o que Rilda tinha lido de muito revelador que pudesse servir de pista para eles no diário de Graça.
- Bem, ela fala muito da falta de comunicação com o senhor, dos telefonemas que deu para a faculdade em Cruz das Almas sem resultado nenhum, do mal-estar que estava sentindo, da saudade e do medo da família descobrir esse amor secreto e muitas coisas assim desse teor.
No dia seguinte munido da foto dele e do diário de Graça, ele e Rilda apareceram na sala da direção do Instituto para falarem com a diretora. No inicio foi bastante constrangedora a conversa, Rilda teve medo de perder o emprego, no entanto, depois de todos os pormenores explicados, a diretora Márcia, sensibilizada, resolveu ajudar nas buscas; ela também desejava tirar a limpo àquela história. Graça, sua funcionária, tão alegre e competente, não poderia ser penalizada por desejar viver um grande amor. Ela própria havia perdido o grande amor da sua vida por covardia, hoje vivia a se lamentar por não ter lutado. Sim, ajudaria aqueles dois, principalmente porque mesmo o belo rapaz sendo rico e culto, não era motivo suficiente para os Steiner e os Mussel o aceitarem na família pelo fato de ser afro-descendente. Não perdoariam jamais!
Puseram o plano em ação, dois dias depois. Rilda entrou na mansão dos Steiner sorrateiramente, com a ajuda da diretora do Instituto que, a pretexto de saber notícias da professora, apareceu sem avisar. Afirmou precisar vê-la por motivo de acertos de contas, valores pendentes etc. Enquanto a diretora distraia os familiares, Rilda subornava o porteiro e entrava na cozinha para falar com a empregada doméstica, ex-babá de Graça, portanto, íntima da família Steiner desde tempos remotos. Se havia algo de errado naquela história, a cozinheira certamente saberia, elas sempre sabem de tudo! Rilda não se fez de rogada, contou tudo o que sabia para a bondosa senhora e ainda aumentou outro tanto, tentando sensibilizar a mulher. Deu certo!  A empregada pediu um pouco de tempo para se certificar de que ninguém estaria por perto e, levando Rilda para o seu quarto, revelou os detalhes de todo o plano da família para afastar Graça do “mulatinho da Bahia”. Falou detalhadamente do intuito da família entregar a criança para adoção. Explicou como poderiam se aproximar do local de difícil acesso e revelou o número de empregados, incluindo a “megera” contratada para tomar conta e vigiar a menina. A menina Graça, como costumava se referir a sua protegida. Chorava copiosamente à senhora, pois sabia do tamanho da crueldade que estavam fazendo com a sua pupila e dizia: “graças a Deus ele ouviu as minhas preces”, corram e salvem a minha menina e o seu rebento! Rilda saiu dali quase correndo.
Carlos e Márcia de posse de todas as informações traçaram os planos para serem colocados em prática, três dias depois. Primeiro teriam de contratar detetives para estudarem o terreno, um táxi aéreo, dinheiro para subornar dois ou mais empregados.  E, claro, para toda essa movimentação, o dinheiro seria imprescindível. Ligou para Feira de Santana, contou em detalhes aos pais o que estava acontecendo e desesperadamente, pediu ajuda. Seus pais deram-lhe todo o apoio que necessitava, moral e financeiro.
Para Graça os dias eram tristonhos, ninguém a visitava, nem os pais apareciam. A barriga crescia a cada dia, logo teria o filho e o que seria dela e da criança? Ficariam ali para sempre?A camareira tentava lhe confortar de todas as maneiras e, instruída pelos pais da moça - de quem estava ganhando grande soma em dinheiro - dizia com veemência: - “Minha menina, os homens não prestam! Ainda mais os baianos. São festeiros, alegres, mentirosos, mulherengos e preguiçosos! Gostam de engabelar as mulheres, e você, moça pura, bem criada e bem educada foi cair logo nas mãos de um descendente de escravo! Cruz credo! Eu disconjuro!” E fazia o sinal da cruz. Graça nem ouvia mais seus comentários, sabia que era missa encomendada. Mas, de uma coisa tinha certeza, Carlos não cumpriu a promessa, agora o que lhe restaria? Um filho renegado por ser mestiço e um fim solitário naquele confim gelado nos pampas sulistas. Que fogo maldito era aquele que fazia uma mulher se entregar daquele jeito? Carlos, Carlos... Por que me abandonou? O filho mexia no seu ventre como a pedir socorro pelos maus tratos e pensamentos nocivos.
 O tempo passava e ela não procurava saber das horas, dos dias...Vegetava. As dores aumentavam no corpo inteiro e a certeza de que seu corpo dali a algum tempo seria enterrado naquelas paragens frias. Pagaria um alto preço por ter tido a coragem de viver um amor fora dos padrões convencionais.
Os pais de Carlos preparavam tudo para recebê-los. De inicio iriam para a fazenda Bela Vista, a mais bonita e confortável, lá tinham empregados e tudo o que precisavam para o bem-estar de uma mulher grávida e o carro potente para transportá-la no momento do parto. Carlos não tinha noção de nada, tempo de gravidez essas coisas, só queria estar sozinho com ela em um lugar só deles. Graça estava com cinco meses de gravidez, três meses só naquele cativeiro, era um inferno!
Não foi fácil encontrar o esconderijo. E mais difícil foi conseguir subornar alguns empregados, essa não era para Carlos um meio legal, mas diante das circunstâncias... Foi colocado um poderoso sonífero nos alimentos do jantar e na água dos empregados da estância. Sonífero esse conseguido pelo médico amigo de Márcia que, ciente de tudo, ajudava na operação. Depois de se certificarem de que todos realmente dormiam, os detetives e Carlos, devidamente vestidos a caráter, de preto e com máscaras, invadiram o terreno e a casa onde Graça dormia com a acompanhante ao seu lado, feito um cão de guarda.
Fragilizada, com os cabelos em desalinho e bem diferente da Graça que conheceu nos folguedos baianos, jazia inerte a um canto de uma cama simples e sem conforto. Carlos sentiu um pesar muito grande em ter sido ele o causador daquele sofrimento. Sentiu por ela um amor ainda maior. Beijou-lhe o rosto delicadamente, alisou seus cabelos em desalinho e acariciou-lhe o ventre. Ela acordou de súbito, pôs a mão na boca e soltou um grito agudo. Aquilo só podia ser alma do outro mundo, assaltante ou sabe-se lá o quê? Pensou. Carlos tirou a máscara e fitou-a, ela não teve tempo para falar, desmaiou! Ele temeu pelo bebê e pedindo ajuda aos detetives, enrolou-a em cobertores e levou-a para o carro onde Márcia e Rilda a esperavam. Rumaram para a casa da diretora onde passariam a noite.
Durante o trajeto Graça acordou e foi coberta de beijos pelo amado. Não deixaram que ela falasse temendo as emoções por causa da criança. Em casa, a história toda foi revelada e ela feliz e agradecida dormiu após uma linda noite de amor. Bendito fogo aquele! Sorriu ao lembrar que tantas vezes, durante o seu martírio, amaldiçoou o fogo que consome sem queimar...
Graça foi recebida em Feira de Santana pelos pais de Carlos com todo o carinho e atenção. Na cidade ficaram alguns dias até se mudarem para a fazenda onde iniciariam uma vida nova. Os pais de Carlos ofereceram a fazenda de presente para eles começarem a vida. Carlos resolveu então, naquelas circunstâncias, não mais retornar a faculdade, precisava agora cuidar dos negócios da criação e venda do gado e da agricultura, para subsistência da família que começava a construir.
Depois de dois anos morando na Fazenda Bela Vista, no município de Feira de Santana, os pais de Graça, apareceram por lá após severa investigação do seu paradeiro. Resolveram aceitar o genro e a neta, não de bom grado, no entanto. Procuravam fingir o máximo, pois, aquela neta mulatinha de cabelinhos enrolados... Não era fácil aceitar, principalmente porque existiam as gêmeas que demonstravam a todo o momento o que a miscigenação pode fazer; filhos e netos brancos, pretos, mestiços. Isso era demais para a cabeça, de um Steiner e um Mussel, pensava a mãe de Graça.
Talita foi fechando os olhos, seu devaneio chegava ao fim, o sono pesava em suas pálpebras e adormeceu com essa história ainda povoando seus pensamentos. Ressignificar o que viveu os seus pais era para ela uma esperança de que um dia pudesse encontrar um amor assim, forte que vença as intempéries e dure a vida toda; no século vinte e um seria isso possível? Dormiu.
Acordou e foi contar para Matilde os pensamentos da noite anterior.
- Ainda encafifada com essa história minha menina?Está na hora de você pensar em sua vida, lá na faculdade não tem rapazes bonitos não?
- No meu curso de pedagogia, só tem mulheres... Não sei porque os homens não gostam desse curso. Mas tem sim, rapazes dos outros cursos por lá, mas ainda não me interessei por nenhum deles. Explicou Talita para justificar a sua obsessão pela história de amor de seus pais.
- Uma história de amor tão bonita não é Matilde? E eu sou o fruto desse amor; fruto seco, peco, pobre e preto, para que serve mesmo? Diga-me!
- Já lhe disse que essa sua maneira de pensar ainda vai lhe causar muito mal! Esqueça isso e vá viver a sua vida, encontrar um amor, buscar a sua felicidade.
Seu coração vivia cheio de amargura e solidão. Lembrava sua mãe no cativeiro, sua dor e desespero e pensava na imensa alegria dela em ser resgatada por seu pai. E ela, Talita, quem iria resgatá-la daquela convivência com sua família materna que tanto a discriminava pela sua mestiçagem tão evidente? Suas irmãs também eram mestiças, mas não aparentavam, enquanto que ela como uma “gata borralheira” vivia na cozinha confidenciando com sua amiga cozinheira e o seu fiel diário. Foi criança, adolescente, agora jovem e continuava a viver do mesmo jeito, nada de novo lhe acontecia.
Pensava na capacidade de sua mãe em perdoar e tentar esquecer todo o sofrimento que viveu provocado pelos pais dela e observava todos em volta da piscina, rindo brincando, sorrindo... Até seu pai passou a ser bem tratado pelos sogros. Eles aprenderam a respeitá-lo, mas e ela por que não a aceitavam no grupo? Uma gracinha aqui, outra ali, um presentinho, e só! Seria ela uma covarde por não reagir, seguir seu caminho, ganhar espaços, lutar? Afinal seu pai, Carlos, era um guerreiro e ela, por que não reagia? Não sabia...Só sabia que desejava estudar História e argumentar em seus trabalhos acadêmicos de que filhos de pais brancos e negros sofrem discriminação e, por vezes, velada, a começar pela própria família... Perguntava-se: quando as pessoas vão adquirir uma consciência de respeito à diversidade? Até lá eu já terei morrido certamente... Sabe Matilde? - Olha minha menina, estou vendo você definhando dia-a-dia, essa sua dor de estômago que não passa, o que disse o médico outro dia?
- Não se intrometa nisso, está bem? Estou me cuidando, não quero preocupar as pessoas com meus problemas.
- Seus pais precisam saber, para cuidarem de você.
Não Matilde, eu já sou bem grandinha, sei me cuidar, tenho plano de saúde, e o médico já me orientou o suficiente, não se preocupe. Bico calado viu? Talita tentava esconder o seu estado de saúde.
- Que maneira feia de falar Talita!
- Ora, minha amiga, você é a única pessoa com a qual posso ser verdadeira.
-Hum...Tudo bem, tudo bem.
Seis meses após essa conversa, durante a festa de Reveillon, em Porto Alegre, na mansão dos Steiner.Talita sentindo-se muito mal, deixou todos a brindar no salão de festas e saiu a passear, em meio ao belo e cuidado jardim. Sabia do seu mal, sabia que pouco tempo lhe resta, e pressentindo algo de muito grave, sentou-se em um banco, molhado do orvalho da noite, apanhou seu fiel diário e escreveu, escreveu... As dores aumentavam, se contorcia muito, mas, ainda teve tempo de escrever com mãos tremulas: “o que é o amor?” É o encontro do corpo e da alma? O padre no ato cerimonial de casamento diz sempre (...) “ e os dois serão um só corpo e uma só carne.” Serão os filhos essa carne, esse corpo? Acho que a história de amor de meus pais me afetou profundamente, o sofrimento da minha mãe durante a gravidez, a rejeição da família materna por causa da minha descendência afro, tudo isso me fez repensar na mistura de raças. Para mim, só causou sofrimento. No futuro, quem sabe? Essas posturas possam mudar, quem sabe? Suas mãos tremiam de frio e de dor.
A festa continuava animada! Bebiam, brindavam, comiam... Ninguém sentia a falta de Talita que sozinha se contorcia pressentindo o fim próximo. Lembrou de Matilde e deu-lhe um adeus silencioso. Ao alvorecer Carlos sentindo um forte aperto no coração, perguntou a Graça por Talita. Você a viu por aí? Eu não a encontrei para abraçá-la! - Não sei, ela vive tão sisuda ultimamente! Será que está apaixonada e não sabemos? Coisas da idade querido. Carlos ouviu passos agitados no jardim e correu para lá, um forte pressentimento o atordoava, afinal ele tinha uma ligação mais forte com a filha do que a sua mulher, pena ser a sua vida sempre tão corrida, pensava ele. Quase não tinha tempo para dar um pouco mais de atenção às filhas, ia meditando sobre isso, quando deu de cara com o jardineiro que havia saído para dar uma volta.
- Seu Carlos, venha ver uma coisa, encontrei sua filha agonizando nesse banco de jardim, tentei reanimá-la, mas acho que ela perdeu os sentidos. Carlos se apavorou, apanhou a filha e levou-a para dentro de casa. Verificou que estava morta. No banco de jardim, o velho diário da capa de couro e letras douradas, jazia úmido de orvalho como a chorar a falta de sua mais fiel companheira. Ali, naquelas folhas amareladas pelo tempo, continha a história de uma mulher que não gritou, não exigiu seu direito de cidadã dentro daquela família, deixou-se ser discriminada, emudeceu. Aceitou viver em desvantagem remoendo as mágoas. E, ao contrair um câncer de estômago, silenciou o fato, e aos poucos foi morrendo conscientemente. Deixou a vida e um legado, o seu velho e inseparável diário, na esperança de que outros gritem e falem por todos aqueles que se sentem esmagados pela dor de não serem respeitados em suas diferenças!
Que estilo de vida Carlos e Graça poderiam ter depois dessa tragédia? Cegos e surdos aos apelos velados da filha, viviam presos à vida material e tentavam a todo custo perpetuar o sentimento que os unia, talvez impensadamente e de forma egoística. Assim acabaram esquecendo-se do fruto da paixão ardente inicial; a filha do fogo, fogo esse que incendiou seus corações e suas entranhas.Talita, fruto dessa paixão, acabou virando pó precocemente, consumida e vitimada pelo câncer, originado pela dor do preconceito e do racismo.
O Diário de Talita foi lido e relido centenas de vezes, por todos da família. Virou um livro escrito por Hanna, sua irmã que de maneira determinada, fez ecoar a voz de Talita através das letras, em todos os lugares, nas escolas, universidades e onde o preconceito racial procurava dizimar vidas humanas.



Lurdinha Mattos
Enviado por Lurdinha Mattos em 16/11/2007
Reeditado em 12/01/2017
Código do texto: T739557
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Sobre a autora
Lurdinha Mattos
Salvador - Bahia - Brasil, 61 anos
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Lurdinha Mattos