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Os deuses da internet

Ao entrar em casa, Renata  livrou-se da mala de viagem, largou a bolsa na mesa e postou-se de braços abertos admirando a si mesma e seu estado deplorável. Estava encharcada,  exausta, querendo deixar para trás as últimas horas que haviam sido as mais tensas desde que assumira a condição de comissária de bordo das linhas aéreas novo Brasil. A chuva e o mau tempo retardaram – por horas - a saída do vôo proveniente de Buenos Aires e, após a decolagem, toda a viagem foi acompanhada pela  turbulência e  nervosismo por parte dos passageiros até a aterrizagem no Salgado Filho onde o avião precisou dar várias voltas até conseguir condições de pouso. No trajeto Até o bairro Floresta a sinaleira do antigo monumento do laçador estava queimada. Na sertório os bueiros transbordavam. Os motoristas mais afoitos tentavam cortar caminho subindo as calçadas e, por pouco, o táxi não foi vencido pela água que chegou à altura da porta.  Como conseqüência direta deste caos generalizado o trajeto até sua residência (que normalmente duraria vinte minutos) demorou uma hora e meia.
Mas agora estava em casa e,  o que  mais queria era um banho relaxante. Já no caminho até o chuveiro foi se livrando do uniforme cinza, deixando à mostra o corpo esguio e as longas pernas de uma mulher na casa dos trinta anos e, após quarenta minutos estava esticada no sofá, toalha branca envolvendo o corpo,  sorvendo um chimarrão e escutando uma coletânea de Ástor Piazola que havia comprado numa loja em Miami.  Mirou a mala de viagem ainda no chão e o símbolo da companhia aérea lhe trazia a tona os avisos da torre de controle de que a pista estava escorregadia e que talvez houvesse a necessidade de desviar o pouso até Florianópolis. Uma senhora que acompanhava a neta teve uma crise respiratória. Um jogador de futebol que estava vindo assinar contrato com um time da capital teve uma crise de desinteria e deixou um mal cheiro que invadiu todos os compartimentos do  avião. Afundada em tais lembranças só teve tempo de largar a cuia no suporte  e adormecer ali mesmo.
Era quase sete horas da noite quando o retumbar de um trovão a fez acordar de sobressalto. Olhou no relógio e constatou que ficara, ali,   por quase seis horas. Estava faminta e, com a certeza de que aquele adormecer fora de horário ia fazer com que seu sono custasse a voltar. Sentiu um arrepio de frio lhe percorrer o corpo e tratou de colocar uma roupa pois ainda estava envolta na  toalha de banho. Optou pela calça corsário cor  creme e uma camiseta preta com os dizeres “navegar é preciso, viver é preciso”. Acompanhada de um sanduíche de presunto e uma xícara de café  ligou a televisão mas os filmes eram os mesmos, os jornais só falavam em crise política, dos assaltos e do mau tempo e, novela seria a última coisa que pensaria em assistir. Tentou ligar para sua mãe mas o discurso também não mudava: A dor nas costas de seu pai, a aposentadoria que não era reajustada e o casamento de sua tia Dolores com um sujeito 30 anos mais moço do que ela. Como última tentativa de fazer um contato que lhe fosse animador, ligou para sua amiga Carol e, já estava quase desistindo - o telefone já havia chamado três vezes – quando ouviu a voz esganiçada de sua amiga de infância.
-Oh! Carol! eu estava quase desligando!
-Natinha! Meu amor! Como você está?
-Eu estou bem! Porque você demorou tanto para atender ao telefone?
-Eu estava no quarto, com a porta fechada!
-Fazendo o que?
-Estava papeando no chat?
-Papeando onde?
-Aiiiiiiiii amiga! Na internet! Conheci um carinha incrível! Ele é de Belo Horizonte! Administrador de empresas! Lindo! Morenão! Estilo Paulo Zulu.
-Não sei como você consegue perder tempo com essas futilidades!
-Você é que parece uma velha e não se moderniza! Oh Natinha! Os tempos são outros e ,tudo  está on line!
-Desculpa amiga! Tive um vôo de retorno super complicado e não consigo Relaxar. Liguei pra minha mãe mas ela só sabe falar de problemas. Estava pensando! Você não quer vir dormir aqui?  A gente coloca a conversa em dia e, como amanhã estou de folga, nós podíamos dar uma passeada no shopping.
-Eu adoraria! mas o Roberto está me esperando.
-Que Roberto?
-Ora!  O meu amigo da internet!
-Você vai se encontrar com ele?
-Não sua bobinha! É um encontro virtual! Mas amanhã podemos combinar alguma coisa para o final da tarde. Agora vou te deixar porque ele já deve estar me esperando.
-Você é doida! Vai acabar se metendo em enrascada com gente que  não conhece.
-Tchau bela!
O barulho surdo do telefone no gancho e o sinal de ocupado sepultaram as últimas esperanças de preencher o vazio que aquela noite estava anunciando. Não podia ficar zangada com sua amiga pois desde muito conhecia o resultado daquelas empreitadas e, sabia que na primeira decepção que o tal Roberto lhe causasse seria motivo para um telefonema –certamente aos prantos - em plena madrugada. Cerrou os lábios e deu um breve suspiro pois sabia que o barulho da chuva que não dava trégua era a única companhia  presente naquele momento.
Apesar do mau tempo a noite estava abafada. Dirigiu-se para o quarto, arrumou a cama e tentou ler uma revista. Ficou folheando as páginas mas seu pensamento estava distante. Deixou o livro cair na barriga, juntou as pontas dos dedos e ficou lembrando das palavras ditas pela amiga. Talvez ela realmente esteja ficando velha e apesar de ter uma vida independente e ser dona do seu próprio nariz sua vida estava restrita aos vôos e hotéis. Lembrou da história do  tal  chat bate papo mas em seguida reagiu negativamente com a cabeça pois aquilo não tinha nada a ver com ela. Tentou imaginar o que poderia ter de interessante uma conversa via computador e lembrou ter lido um artigo em  uma revista mencionando uniões e separações geradas pela internet. Uma sensação de curiosidade começou a mexer com seu interior. Que mal poderia fazer uma espiada rápida?  e, além do mais poderia ajudar a descontrair e o sono viria mais rápido.
O clic do computador e o barulho do sistema sendo conectado deu ao ambiente uma aura de mistério. Ajeitou os óculos, balançou os dedos e começou a pesquisar nos sites de busca para descobrir a localização do tal  bate papo. As opções apresentadas foram sexo total, Papo futebolístico, sado-masoquismo, conversa religiosa, gays, lésbicas e namoro virtual. Mas uma entre tantas lhe chamou a atenção por não fazer referência a sexo e por apresentar um nome mais simples: Amigos virtuais. Foi seguindo as instruções de acesso e clicou na opção visitante, assim poderia observar sem ser incomodada.
Ao se abrir a tela da sala uma infinidade de nomes deslizava na horizontal: Papagaio solitário, super pênis, mulher simpática e adorável cafajeste eram alguns dos apelidos que  por ali desfilavam.
-Oi gatinha! (dizia o fantasma da Opera para a gatinha perfumada)
-Vamos para o reservado?(perguntava o homem de Gravataí para a loba45)
-Quero te chupar todinha! (Dizia a pantera Bissexual para a mulher feliz)
Ficou ali um certo tempo admirando aquele  mundo que ela não conhecia e estava quase desligando quando observou o dialogo entre uma pessoa que falava no aberto e outra que respondia no reservado.
-Trinta e nove anos!
-Sou uma pessoa normal! Duas pernas, dois braços......
-Desculpe! Mas você é uma criança e eu não quero ser preso por pedofilia.
-Não! Não sou gay! Apenas queria conversar um pouco e se estivesse a procura de sexo certamente não seria com uma menina de quinze anos pois tenho uma filha da sua idade e, ela está  aqui, ao meu lado, dormindo.
Renata ficou um tempo analisando as palavras seguras  daquele internauta que se apresentava como Senhor Simpson e cada resposta ou frase aumentava sua curiosidade sobre ele. De repente foi tomada de susto. A energia elétrica sofreu uma  queda e ela ficou  completamente no escuro. Olhou no visor do telefone celular e, constatou que já  passava das dez horas.Usou a lanterna embutida do aparelho para se dirigir até a cozinha. Vasculhou as gavetas dos armários, achou um  pedaço de vela e, pediu  aos céus que a luz não demorasse a retornar pois aquele  toco era a única fonte de energia que lhe restava.  Pôs um pouco de água em uma chaleira e preparou um chá,  encostou-se no balcão da pia e ficou admirando a chama azulada do fogão, lembrando dos argumentos e colocações do Senhor Simpson. Enquanto a xícara era invadida pela água quente a luz retornou. Renata apenas levantou os olhos para a lâmpada e, retorceu os lábios como se esperasse uma resposta. O que estará ele fazendo? Será que conseguiu alguém para conversar? Tomada pelo impulso retornou para o quarto e ligou novamente o computador. Mas antes de entrar na sala ela teria que escolher um apelido. Lembrou então de uma aeromoça muito simpática que conheceu em Santiago do Chile chamada Rosalina. Sentia-se uma adolescente, tomada pela ansiedade e por pouco não derramou o chá sobre o teclado. Abriu um sorriso de satisfação quando viu que ele ainda permanecia na sala. Como toda a Capricorniana que se preza ela parou, respirou fundo e ordenou a si mesma que mantivesse a calma. Ali estava ele. Em frente a sua tela. Mas como iniciar uma conversa? Ela não fazia a menor idéia de como abordar alguém.
-Desculpe a curiosidade! Mas porque senhor Simpson?
Os segundos de espera fizeram-na lembrar de quando tinha cinco anos e do papai Noel revirando o saco de presentes para lhe entregar uma boneca.
-É o personagem preferido de meu  filho!
-Ahhhh! O senhor é casado! (os dedos tremiam junto ao teclado)
-Não! Eu sou viúvo e, o senhor está no céu!
-Desculpe! (cerrou os lábios com indignação por ter dado o primeiro furo)
-De forma alguma! Isso já faz um bom tempo! Minha esposa faleceu em um acidente quando meus filhos tinham dois anos cada! Um casal de gêmeos que são minha vida! Você é casada?
-Não! (pensou em dizer que já havia sido noiva mas se conteve)
-Mas com certeza deve ter namorado?
-Também não!
-O que você faz da vida?
-Sou comissária de bordo e  você? (culpou-se novamente.  E se ele se ele estivesse rastreando seu endereço)
-Você jura que não vai rir?
-Claro que não!
-Sou desenhista de histórias em quadrinhos! (Agora a curiosidade  tomou conta de suas feições. Nunca conheceu ou conversou com um desenhista de história em quadrinhos)Você já leu algum gibi com as histórias de Leonardo boa praça ou  aventuras Hot Dog?
-Não me diga que aqueles desenhos são teus?
-Desde os personagens até as folhas das árvores.
-Puxa! Eu tenho uma prima de dez anos que é maluca por estas histórias.
-Posso te fazer um perguntar? (escreveu ele)
-Sim! Claro!
-O que te trás até uma sala de bate papo?
-Uma amiga de longa data me falava muito e como estou sem sono.......
-Estava se sentindo solitária então....
-(Essa pergunta precisava ser bem respondida pois poderia dar a entender que estava carente e talvez ele tentasse se aproveitar disso) Não! Foi apenas curiosidade!
  Dali por diante se seguiram as horas. Falaram de gostos musicais, coisas da infância, relacionamentos e já eram quase duas horas da manhã quando se despediram pois  ele embarcaria num  vôo com destino a Carácas  as dez horas da manhã. Ao desligar o computador Renata ainda ficou  ali, parada, admirando a tela e, ao deitar adormeceu pensando naquele homem que não escondia seus sentimentos. Que gostava de parque de diversões e banho de cachoeira.
Já passava do meio dia quando  os longos dedos começaram a tatear a cama à  procura do celular. Em meio ao visor verde com a foto da cascata venezuelana de Angel o nome Carol piscava tal qual um vagalume. Desligou! Pois tinha plena certeza de que poderia retornar a ligação mais tarde. Enrolou-se nos cobertores,  entreabriu um sorriso e lembrou da agradável e longa conversa que tivera na noite passada. Após empurrar as cobertas com as pernas sentou  na parte lateral da cama, ergueu os  braços num espreguiçar e percebeu que os raios de sol que invadiam as frestas da persiana comunicavam que o dia lá fora estava  propicio para um chimarrão no brique da redenção. Ao dirigir-se ao banheiro não pode evitar olhar para o micro. Parou por alguns segundos e, num gesto de carinho, passou levemente a mão pela superfície do monitor branco mas foi bruscamente interrompida pela voz da própria  consciência que lhe dizia que aquilo era apenas um objeto e que as conversas pela internet eram mais do que comuns.  Iniciou – então - o velho ritual. Postou-se diante do espelho, fez caretas pra espantar as feições de sono  mas não pode fazer os costumeiros bichinhos  com o creme dental  porque  estava praticamente no fim. Despiu-se da camiseta de dormir, do lingerie preta, fechou-se no Box, controlou a temperatura da água  com a palma da mão e deixou que o chuveiro fosse a única testemunha daquele momento. Ficou um bom tempo  ali, girando o pescoço e, acrescentando ainda mais graça àquela dança executada praticamente todas as manhãs. Estava se sentindo tão bem que depois da sessão de creme  enrolou-se no hobye Azul piscina e foi até a caixa de correio no saguão do edifício, sem mesmo se importar com os olhos devoradores  do juiz aposentado que todas as manhãs ficava aguardando o momento em que ela saia para também buscar o jornal. De volta ao apartamento ligou o rádio sobre a geladeira e procurou uma boa música pois sabia que a ordem do dia nos noticiários seria os estragos causados pela chuva. O ruído do ambiente foi invadido pela chamada telefônica e, o identificador de chamadas revelava  o número de sua amiga que tornava a ligar.  Mas nem as choradeiras sentimentais  ou xiliques da amiga lhe tirariam o bom estado de espírito daquela manhã.
-Oi Natinha!
-Oi Carol! Já se decepcionou com o tal  Roberto?
-Aaaaaaaai como você é amiga! Pelo contrário! Ele se empolgou tanto comigo que quase veio para cá hoje pela manhã para almoçarmos juntos.
-Nossa! Que rapidez! Mas porque ele não veio?
-Porque houve um acidente no Prudente de Morais em São Paulo!
-Acidente?
-Renata de Assis! Você não lê jornais? não escuta noticiário? Um avião que saiu de Porto Alegre e estava indo para a Venezuela hoje pela manhã. O trem de pouso não funcionou e o avião caiu de bico,  atravessou toda a pista, invadiu um bairro, arrastando casas e carros. Foi uma catástrofe. O aparelho explodiu, incendiou vários prédios e, somente três horas depois o fogo  foi controlado. Mas o motivo de estar ligando várias vezes é que eu queria que você me emprestasse  teu vestidinho preto! Pois se o Roberto vier me conhecer.......
Renata foi afastando o gancho telefônico do ouvido e deixando que este caísse junto com sua mão enquanto a voz de sua amiga – que continuava a falar- foi diminuindo até se perder por completo.
Caio Schroer
Enviado por Caio Schroer em 18/11/2007
Reeditado em 01/05/2009
Código do texto: T742135

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Sobre o autor
Caio Schroer
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 52 anos
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Caio Schroer